A Fita Branca

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Apenas assistindo ao filme, parece que o diretor austríaco Michael Haneke não teve nenhum outro objetivo a não ser narrar estranhos acontecimentos num vilarejo alemão um pouco antes da eclosão da Primeira Guerra Mundial. Ficamos esperando um desfecho à la Dogville, a tragédia maior, que os responsáveis por tais acontecimentos sejam descobertos e punidos. Mas, assim como na vida, não há uma verdade, não há uma solução. Somos cúmplices dos personagens. Nosso conhecimento acerca dos fatos é tão limitado quanto o deles.

O filme é lento, escuro, apesar da esplêndida fotografia e da força dos personagens infantis (o casting  envolveu mais de sete mil crianças). Klara, a filha do pastor e seu irmão, Martin; Eva, a noiva do professor; e Anna, a filha do médico, são os destaques, assim como o figurino e a elegância da Baronin.

A beleza é reforçada pelas imagens em preto-e-branco (o diretor quis acessar nossa memória coletiva formada através das imagens da época a que temos acesso). O clima é denso, não há trilha sonora (apenas a música tocada por personagens em algumas situações), e o tema do filme é a punição: a educação, a instituição da disciplina e mensagens através do castigo (e, interessantemente, não há sentimento de culpa ou remorso expressado nos rostos dos personagens). Dos mais fortes aos mais fracos, dos mais fracos aos mais fortes e até àqueles que não têm condições de se defender. Cada um pune – educa, manipula – da maneira que pode. E sendo as crianças de hoje os adultos de amanhã e os adultos as crianças de ontem, no fim das contas, quem são as vítimas?

É exatamente aí – nas discussões e especulações fora das telas – que A Fita Branca se torna realmente interessante (claro, o filme também impressiona pela maneira com a qual o diretor conseguiu traduzir a alma germânica em algumas cenas, como quando o pai pastor marca hora para açoitar os filhos no dia seguinte – sem levantar a voz, sooo Deutsch – ou quando o médico humilha a parteira, sua companheira – alguns alemães quando não gostam de alguém ou querem acabar com um relacionamento são capazes de uma sinceridade cruel – sempre sem levantar a voz).

Ganhador da Palma de Ouro em Cannes (2009), de melhor filme estrangeiro no Globo de Ouro (2010) e favorito ao Oscar de melhor filme estrangeiro, Das Weisse Band, num primeiro momento, trouxe à tona a questão da sociedade e dos valores que deram origem à Alemanha nazista (alguns comentaristas até chegaram a fazer uma alusão das fitas brancas que o pai amarra nos seus filhos mais velhos à marcação feita nos judeus nos campos de concentração). As crianças da época do filme eram os adultos das décadas de 1930 e 1940, quando da ascensão do nazismo e da eclosão da Segunda Guerra Mundial. E não custa lembrar que, apesar de hoje a Alemanha sentir vergonha do seu passado, os ideais de Hitler refletiam o pensamento de seu povo à época.

Mas, logo depois, Herr Haneke, em duas entrevistas (à Folha de São Paulo e à New Yorker), esclareceu suas motivações. A seguir, reproduzo – numa colagem e em tradução livre – suas palavras: “Quis tratar da educação que impõe valores absolutos às crianças, que acabam por interiorizá-los. Quis mostrar que, se têm o caráter formado a partir de um princípio absoluto, elas se tornam inumanas. Cada ato terrorista, cada manifestação de fanatismo, seja ele político, religioso ou de outra natureza, é alimentado por essa fonte de intransigência. Qualquer ideia se torna perversa se tem o autoritarismo como ponto de partida. Esse é um tema universal, que não tem ligação direta com a problemática alemã. O filme não é sobre nazismo. Você poderia fazer o mesmo filme – de uma forma totalmente diferente, é claro – sobre os muçulmanos de hoje. Sempre há alguém em uma situação de grande aflição que vê a oportunidade, através da ideologia, de se vingar, de se livrar do sofrimento e consertar a vida. Em nome de uma idéia bonita você pode virar um assassino.

Mas que as crianças podem ser cruéis, ardilosas e dissimuladas, ah, elas podem. Não é mesmo, Klara?

São Paulo, 23 de fevereiro de 2010. 

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