Black Mirror, uma série desconfortavelmente incrível

Black Mirror

Inglaterra, 2011

De Charlie Brooker

Seriado lançado pela Channel 4 com duas temporadas de três episódios cada e um especial de Natal, todos já disponíveis na Netflix. Em setembro de 2015, a Netflix encomendou a terceira temporada que terá doze episódios, que deve estrear ainda em 2016.

Como um espelho preto. É assim que ficam as telas das TVs, monitores e celulares, quando desligados. E esse é o nome de uma das séries mais apocalípticas e interessantes já escritas para a TV. Dá vontade de descrever o roteiro do primeiro episódio, The National Anthem, mas contar qualquer coisa a partir do quinto minuto, já seria contar demais. É preciso assistir.

É sempre fascinante quando um filme consegue incomodar, fazer refletir ou despertar sentimentos nem sempre muito presentes. Monika e o Desejo, de Ingmar Bergman, Dançando no Escuro, de Lars Von Trier, A Serbian Film, de Srđan Spasojević, são obras que me vêm à cabeça. Só que, diferentemente desses filmes, em Black Mirror nos reconhecemos; o que vemos ali somos nós, refletidos naqueles contextos; escravos do consumo, linchadores virtuais, mórbidos espectadores. É isso o que incomoda.

Lançada em 2011 na Inglaterra — e agora disponível pela Netflix nos Estados Unidos e no Brasil —, Black Mirror trata da nossa relação com a tecnologia, das perversas regras do capitalismo, do poder e da sociedade do espetáculo, e as possíveis — e bem prováveis — consequências sobre as relações humanas (muitas já acontecendo). O físico e o virtual se confundem. Não precisaremos mais de câmeras, nossos olhos servirão como lentes e um chip  instalado no nosso cérebro gravará TUDO o que a gente vê, e todas as memórias serão salvas numa timeline, que você poderá acessar infinitamente quando quiser e, inclusive, mostrar para os amigos numa tela de TV (sabe aquele momento em que você conta uma história e fica procurando a foto para mostrar o que viu? não será mais preciso, você pode mostrar a cena INTEIRA); poderemos bloquear pessoas ao vivo, quando não quiser mais escutar e ser escutado, ver e ser visto; ou ainda fazer uma cópia não só do seu cérebro mas da sua personalidade, criando um novo eu salvo num chip  que, além de comandar todos os gadgets  da casa, servirá como seu secretário (ele já vai saber o ponto que você gosta da torrada, a temperatura certa da água do banho, o jeito que você gosta de acordar, já que é você mesmo – ou seja, o secretário perfeito); e até encomendar um avatar — físico — de um falecido que, programado com o histórico de dados de suas redes sociais quando vivo, parecerá, falará e interagirá como ele mesmo. Não é preciso assistir a Black Mirror em sequência ou seguindo a cronologia de lançamento: cada episódio é um filme independente, com um elenco diferente, em épocas diferentes.

Já deu para perceber que a evolução da tecnologia e o acesso fácil à informação não levaram à uma vida mais tranquila ou à elevação da cultura geral (o que vemos é uma assustadora e cada vez mais visível mediocridade) nem à uma sociedade mais civilizada (o ódio, a intolerância, a falta de empatia, o sentimentalismo falso imperam nas redes sociais e nas caixas de comentários de grandes portais). A tecnologia evoluiu, mas o homem não; e não temos como escapar do mundo e da convivência com as pessoas. Black Mirror mostra essa realidade — de forma amplificada —, em roteiros afiadíssimos. E incomoda porque, apesar dos problemas, da ansiedade que a tecnologia gera, nós todos, vítimas do consumo que somos, estaremos na fila celebrando essas novas tecnologias quando elas forem lançadas.

black-mirror-1-1200Cena de Fifteen Million Merits, segundo episódio da primeira temporada de Black Mirror. Imagem: Reprodução internet

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