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Cultura

Aqui você encontra textos que aumentam o repertório, alimentam a mente e aguçam dois dos nossos sentidos - a visão e audição - e encanta o(s) muito(s) outro(s) que vão além dos cinco: cinema, música, literatura, artes plásticas e cênicas, história, dança e muito mais


Billie Holiday e Louis Armstrong em cena emocionan...

Beirando os limites do French Quarter, Storyville  era a zona de luz vermelha de New Orleans — e um dos grandes berços do jazz —, onde a prostituição foi legalizada em 1897 (hoje, ela é ilegal em todo o território estado-unidense, com exceção de alguns counties  no estado de Nevada, mas apenas em bordéis regulamentados). Dos anos 1890 até a Primeira Guerra Mundial, quase CEM bordéis de luxo — saloons  onde a dança, a bebida, o jogo, o jazz  e as quase 700 meninas listadas por ordem alfabética no Blue Book, um diretório com todas as informações que os visitantes do Vieux Carré  podiam comprar — tomavam a região como era conhecida a Basin Street, paralela à icônica Rampart Street (nas ruas de trás, quartos minúsculos com apenas um colchão, chamados de “cribs”, serviam como local de trabalho das meninas independentes). E nesta cena do filme New Orleans, de 1947, os grandes Louis Armstrong e Billie Holiday dão adeus à Storyville, momentos antes de a polícia fechar a região por conta dos “vícios”, como diz Billie no trecho: “The law stepped-in and called it sin to have a little fun”. Mas como inicia Mr. Armstrong no começo da cena, “how about one more tune before we leave?” (Que tal uma última canção antes de partirmos?). Obrigado, Nilma Raquel, por te me feito relembrar deste lindo filme!

Para ver a cena completa, com menos qualidade, clique aqui.

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Fondazione Prada: Quando uma ex-comunista cria uma...

Durante toda a sua visita, deixe o ingresso no bolso, com acesso fácil, pois ele será pedido em cada um dos 10 pavilhões, de todos os formatos imagináveis, espalhados nos 19 mil metros quadrados (duas vezes maior que o novo Whitney do Renzo Piano em Nova York) que formam a Fondazione Prada, o maior espaço dedicado à arte contemporânea de Milão (incrivelmente, a mais internacional — e rica — das cidades italianas e uma das capitais mundiais da moda e do design  não tinha nada parecido; só o HangarBicocca, da Pirelli, do outro lado da cidade com 15 mil metros quadrados). Fundada em 1993 (a fundação) mas com a sede inaugurada apenas em maio de 2015, ela é resultado do recente interesse por arte da herdeira-que-nunca-quis-ser-estilista  que se tornou um dos maiores nomes da indústria (o grupo Prada — Prada, Miu Miu, Church’s, Car Shoe e Pasticceria Marchesi — tem hoje faturamento anual de mais de € 3,5 bilhões). Mas a resistência de Miuccia Prada de entrar para a moda, assumindo, em 1978, a marca criada por seu avô na Milão de 1913 (assim como o desconforto que ela sente em comprar arte, gesto que ela acha nada nobre) tem Ver Mais →

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Animais Noturnos: Existe beleza e poesia no sofrim...

A experiência no cinema é assistir a um filme em que a personagem lê um livro. Com o livro Tony & Susan, de Austin Wright, de 1993, que serviu de inspiração para o tenso filme de Tom Ford, você lê um livro sobre uma mulher que lê um livro. E se a história de Tony, protagonista do livro-dentro-do-livro Nocturnal Animals, vai ter a força de trazer à tona conflitos na protagonista do livro Tony & Susan, Susan (até por que o livro-dentro-do-livro  foi escrito por seu ex-marido e inspirado nela), as histórias de ambos vão fazer o mesmo com você. São várias as camadas interconectadas de realidade, de tempo (passado, presente, expectativa), de ficção (Jake Gyllenhaal interpreta ao mesmo tempo o escritor e o protagonista de sua obra), que nos fazem refletir sobre como não temos qualquer controle sobre as fatalidades da vida e até mesmo sobre nossas escolhas. Uma história difícil de ser contada em imagens Ver Mais →

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Voyage, voyage: Viaje eternamente e nunca mais vol...

Seja pela melodia, pelo videoclipe em clima noir  ou pela letra cheia de referências — do Saara ao Fuji, passando por sikhs, “tapetes de ventos” e capitais —, Voyage, voyage, lançada pela cantora francesa que se autointitulou Desireless (“Sem Desejo”), nos faz, há exatos 30 anos (a música é de dezembro de 1986), viajar por espaços e tempos físicos e mentais. E foi uma das raríssimas músicas cantadas inteiramente em francês que chegou às listas das mais tocadas em rádios de todo o mundo (não foi diferente aqui no Brasil, quando me lembro de, ainda criança, escutar a música sendo tocada no rádio do carro, enquanto eu via a cidade pela metade na janela do banco de trás). Abaixo, você assiste ao clipe, canta junto e acompanha a versão para o português, feita por mim, em tradução livre-livre-livre. É só clicar no play. {Confira também as músicas francesas do nosso coração — para inspirar a sua próxima viagem a Paris —, clicando aqui}

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Fundação Eva Klabin: Um micro British Museum num...

Passeando pela Lagoa, a pé ou de carro, ninguém  pode imaginar que por trás das paredes de uma discreta casa em estilo normando existem 50 séculos de arte, com mais de 2 mil peças, incluindo obras de Botticelli, Ghiberti, Rembrandt, Gainsborough, Reynolds, Pissarro. Eva Klabin, junto com sua irmã Ema (descendentes de lituanos de ascendência judaica), é a nossa Frick-Morgan dos trópicos. Colecionadora das clássicas, juntou obras que vão do Egito antigo e do mundo greco-romano a Lasar Segall, passando por importantes exemplares da arte renascentista. É impressionante. (Sem falar que Eva já usava Goyard bem antes de a marca ter seu revival  no século 21: é numa caixa de chapéu para viagens da maison  que ficam os protetores para sapatos que devemos calçar para andar pela casa-museu ;-).

Destaque para a coleção de prataria judaica (única no Brasil) e inglesa, a moldura de lareira gótica da sala e a boiserie (também gótica) na sala de jantar trazida da França.

Milionária e esteta, Mme. Klabin dormia durante o dia e recebia muitos amigos e personalidades em sua casa – sempre depois da meia-noite: do amigo e paisagista Roberto Burle Marx, que planejou o charmoso jardim da casa, a ilustres como Juscelino Ver Mais →

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Revoluções africanas em mostra de cinema em São...

Mais do que estar in loco  viajando pelo mundo e conhecendo as paisagens, ainda não existe forma mais profunda de se viajar que através da literatura e do cinema, seja pela ficção ou pela realidade. É quando entramos nas casas e nas cabeças dos habitantes, quando conhecemos sua(s) história(s), sua intimidade, seu modo de pensar e sentir. E é por isso que eu estou apaixonado pelo festival de cinema — de recorte único — que estreia nesta sexta, dia 11 de novembro, no Cine Caixa Belas Artes. Com o nome África(s). Cinema e Revolução, os 36 filmes que fazem parte da programação, de diretores europeus e africanos, trazem um panorama sobre o cinema produzido em ex-colônias portuguesas (que não possuíam nem TV local), principalmente Angola, Moçambique e Guiné-Bissau, durante as revoluções, a independência da metrópole (só conseguida depois de outra revolução, a dos Cravos, que acabaria com a ditadura em Portugal), os processos pós-descolonização Ver Mais →

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Last Folio: Livros sagrados judaicos, únicos sobr...

Quando você visitar a exposição, é pegando o elevador e subindo para a biblioteca que você encontrará as fotos mais significativas da exposição Last Folio — Preservando Memórias, em cartaz no Unibes Cultural, na cidade de São Paulo, até o dia 22 de outubro de 2016. As fotos do fotógrafo Yuri Dojc e o filme da cineasta Katya Krausova, ambos eslovacos, são lindas sim, mas é a história que está por trás delas — não deixe de assistir ao filme com os poucos sobreviventes do Holocausto em exibição na exposição — que faz com que você viaje para a Eslováquia, reflita sobre as atrocidades da Segunda Guerra Mundial e ainda seja apresentado a uma prática do povo judeu que eu desconhecia: o enterro de livros sagrados danificados (a Torá, o Nevi’im e o Ketuvin, ou mesmo, o livro de orações, o siddur ) em cemitérios da comunidade, como gesto de reverência e respeito.

Era enorme a presença judaica na antiga República Tchecoslovaca, fundada em 1918 com o fim da monarquia. Os judeus eram reconhecidos na Constituição e possuíam liberdade religiosa, cultural e participavam da política. Mas, em 1939, com a fundação, sob Ver Mais →

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Teatro Kabuki, luxo e drama para o povo há 400 anos

“O povão gosta de luxo, quem gosta de miséria é intelectual.” Essa frase do maranhense que fez história no carnaval carioca, Joãosinho Trinta, não poderia descrever melhor a diferença entre os teatros clássicos japoneses, o no e o kabuki. Enquanto o no — que vem praticamente inalterado desde o século 14 — é sóbrio, filosófico, sutil e sempre serviu de entretenimento para a aristocracia (a família imperial, os shogun — os governantes de facto  do Japão do século 12 ao século 19 — e os daimyo, os senhores feudais), o kabuki conquistou o demi-monde  de Edo (atual Tóquio) e entretém as massas desde o século 17 com suas narrativas mega dramáticas e cenários, maquiagens e figurinos exuberantes e coloridíssimos (tem até bate-cabelo com enormes perucas — uma vermelha e a outra branquíssima — entre leão pai e leão filho, uma das cenas clássicas) deste teatro em que apenas homens tocam, cantam e interpretam os papéis masculinos e Ver Mais →

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As instituições culturais de SP que você precis...

São Paulo, assim como outras importantes cidades do Hemisfério Sul, não tem grandes museus ou uma programação cultural à altura de cidades como Nova York, Paris e Londres. E é provável que muitas das coisas que você veja aqui, você já tenha visto lá fora, e em escala bem menor. Mas, muito foi feito nos últimos vinte e cinco anos para fomentar a cultura na cidade. Desde maiores investimentos para o cinema e teatro, reformas de museus e prédios antigos e a brava tentativa de trazer para o país companhias de dança, orquestras e exposições de todo o mundo (geralmente de artistas com maior apelo popular). E posso dizer que, hoje, nossa programação anual de música e dança é bem boa… A seguir, você confere os lugares que a gente mais ama — e frequenta — em São Paulo.

PINACOTECA DO ESTADO [Centro] Ótimo acervo, a melhor programação ao longo do ano

instituicoes-culturais-museus-sao-paulo-sp-1200-3-pinacoteca-do-estado instituicoes-culturais-museus-sao-paulo-sp-1200-4-pinacoteca-do-estadoFundado em 1905 como uma coleção de pinturas para estudantes de arte num edifício imponente de tijolos aparentes em estilo neoclássico italiano (projetado por Ramos de Azevedo, o mesmo arquiteto do Theatro Municipal, do Mercadão, da Casa das Rosas), a Pinacoteca do Estado é o museu mais antigo de São Paulo (outro gigante da arquitetura nacional seria responsável pela bem-sucedida reforma de 1998: Paulo Mendes da Rocha). E o acervo permanente, uma coleção de 9 mil obras — das quais 1000 permanentemente expostas no segundo andar — é uma importante viagem pela arte brasileira dos Ver Mais →

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Um Bonde Chamado Desejo; outro chamado Cemitérios

Decadente e atormentada, sim. Mas Blanche DuBois não é uma patricinha bonita e surtada que vive no mundo fantasia. É uma menina bem nascida — era “meiga e confiante”, nas palavras da irmã — que não suportou o suicídio do marido, seu primeiro e único amor (“era como se uma luz ofuscante iluminasse o que sempre havia estado nas sombras”; “tudo o que eu sabia é que eu não consegui ajudá-lo com os problemas dos quais ele não conseguia falar” ), e que, após a tragédia, encontrou no sexo com muitos parceiros num hotelzinho barato para prostitutas uma maneira de preencher seu vazio existencial. E se perdeu. Se perdeu de si mesmo a ponto de só conseguir sobreviver na magia e não mais na realidade (“Magia! Sim, sim, magia! Eu tento dar isso para as pessoas.” ). Desprovida de sua honra, de sua propriedade — a fazenda Belle Rêve, que pertencia há gerações à sua família — e de seu emprego como professora de literatura depois de se envolver com um aluno menor Ver Mais →

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Humor, glamour, arte e espiritualidade: dicas para...

A Simonde foi convidada para assistir a um espetáculo que faz parte de uma interessantíssima programação promovida pela Embaixada da Austrália e a dois filmes que estrearam em circuito bem reduzido na última quinta-feira, dia 19. Experiências diferentes mas cheias de estética que se transformaram em nossas dicas para este fim de semana na cidade.

TWENTY SIXTEEN, circo contemporâneo cheio de poesia e humor

Twenty-Sixteen-Circus-OzEm sua primeiríssima edição no Brasil, é uma pena que o festival Australia Now, que está com uma programação incrível — de performances  aborígenes a espetáculos de dança e teatro, com o melhor da cultura australiana — não seja uma programação anual. O festival já passou pela Índia, Vietnã e Turquia, e nos próximos anos, são as vezes do Japão e da Alemanha. E a dica para este fim de semana é o espetáculo Twenty Sixteen (ou seja, 2016), da companhia de circo contemporâneo — sem animais! — de Melbourne, Circus Oz, que fica em cartaz no Sesc Vila Mariana até domingo, dia 22 de maio. Misturando números acrobáticos muito criativos com humor, poesia, trilha sonora impecável — ao vivo — e figurinos inusitados, é daqueles programas para todas as idades e que fazem com que você saia leve e feliz depois do espetáculo. E já aviso para quem for assistir: quando você achar que o que eles estão fazendo já está MUITO difícil, eles vão fazer as coisas ficarem ainda pior! :- ) Twenty Sixteen, do Circus Oz, em cartaz no Sesc Vila Mariana, que fica na Rua Pelotas, 141. Sexta-feira, dia 20, às 21h; sábado, dia 21, às 21h; e domingo, dia 22, às 12h e às 18h.

SÃO PAULO EM HI-FI, a pauliceia cheia de glamour dos anos 1970 e 1980

Sao-Paulo-Em-Hi-Fi-Lufe-SteffenA cidade de São Paulo tem a maior população LGBT da América do Sul. E os shows  de travestis em transformistas em boates cujos garçons usavam luvas atraíam muita gente famosa e alta sociedade paulistana na década de 1970. E é essa história de glamour  com o capítulo triste da chegada da AIDS nos anos 1980 que conta São Paulo em Hi-Fi, documentário do diretor Lufe Steffen. Com muitas cenas de shows  e entrevistas com pessoas importantes da cena cultural da época, o filme é IMPERDÍVEL para todos os gays, de todas as idades, e um interessante recorte da cidade de tempos que não voltam mais. Confira a nossa matéria exclusiva sobre filme, clicando aqui. O filme São Paulo em Hi-Fi está em cartaz no Cinesesc, que fica na Rua Augusta, 2075, e será exibido na sexta, dia 20, às 14h, às 16, às 19h30 e às 21h30; no sábado, dia 21, às 14h e às 16h; no domingo, dia 22, às 19h30 e às 21h30; e de segunda, dia 23, a quarta, dia 25, às 14h, às 16h, às 19h30 e às 21h30.

GRUPO SANTA HELENA, Bonadei, Volpi, Rebolo juntos mais uma vez

rebolo-2Formado de maneira espontânea nos anos 1930 nos ateliers  dos artistas Francisco Rebolo e Mario Zanini no Palacete Santa Helena, na Praça da Sé (o edifício foi demolido quando da construção da estação do metrô), o Grupo Santa Helena se transformou no celeiro de alguns dos mais importantes artistas plásticos brasileiros do século 20. E a Proarte — que está mudando um pouco o foco das atividades, de casa de leilões e galeria para um híbrido de galeria e museu, já que grande parte das obras não está à venda — reúne em seu espaço na Gabriel Monteiro da Silva, muitas — e lindas — obras de Aldo Bonadei, Alfredo Volpi, Clóvis Graciano, Francisco Rebolo, Fulvio Pennacchi, Manoel Martins e Mário Zanini. A exposição fica aberta ao público até o dia 10 de junho de 2016, na Alameda Gabriel Monteiro da Silva, 1644, de segunda a sexta, das 10h às 19h e sábados, das 10h às 16h. E é grátis. Na foto, Natureza Morta, óleo sobre madeira de Francisco Rebolo. Imagem: Reprodução.

ESPAÇO ALÉM, Marina explora espiritualidade do jeitinho brasileiro

Uma das precursoras da performance art, a artista sérvia — parte da ex-Iugoslávia — Marina Abramović, tem como foco atual de seu trabalho a discussão sobre o tempo e a espiritualidade (mas ela continua ainda testando os limites de seu corpo e mente em suas obras). Nessa busca, não haveria melhor país-laboratório que o Brasil e os rituais de tantas religiões, seitas e grupos esotéricos (ela começou a vir para cá em busca de pedras para suas obras nos anos 1970). Filmado no Brasil entre 2012 e 2015 — quando de sua exposição Terra Comunal, no Sesc Pompeia —, o documentário Espaço Além – Marina Abramović no Brasil, de Marco del Fiol, mostra a artista com o médium João de Deus, tomando chá de ayahuasca  e participando de rituais que vão do candomblé a processos xamânicos em Curitiba dos quais eu nunca tinha ouvido falar. Marina está completamente exposta no filme, tanto física como emocionalmente, e é uma interessante viagem por esse nosso país de tradições tão sincréticas. Confira nossa matéria exclusiva sobre Marina Abramovic, clicando aqui. O filme está Espaço Além está em cartaz no Cinemark do Shopping Iguatemi, no Espaço Itaú de Cinema (Frei Caneca e Pompeia) e no Reserva Cultural. Estreou em 19 de maio de 2016.

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Paris: As músicas francesas do nosso coração

Com já dizia Josephine Baker, a vigorosa dançarina e cantora negra norte-americana que seduziu Paris nos anos 20 (apresentando um show  vestida apenas com – pouquíssimas – plumas): “J’ai deux amours, mon pays et Paris…”  (tenho dois amores, meu país e Paris) Nenhum outro lugar do mundo foi tão retratado em versos, seja na literatura ou na música, quanto a Cidade-Luz. E em Paris, aproveitar a bela paisagem urbana flanando com uma trilha sonora genuinamente française  pode intensificar a experiência e marcar na memória a combinação {paisagem + música} para sempre (além de nos fazer sentir aquela mesma melancolia profunda que está nos genes dos parisienses). Seja pelas ruazinhas de Montmartre acompanhado por Edith Piaf e Yann Tiersen; à beira do Sena no fim da tarde ou pelo Quartier Latin com Charles Aznavour; pelo Louvre, Opéra, Comédie Française e Palais Royal com Ravel; ou pela Saint-Honoré com Vive la Fête, a música Ver Mais →

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A magia dos concertos

Nós não guardamos seus rostos, não sabemos seus nomes. Mas cada um daqueles anônimos que agora estão nesse palco sem qualquer cenário, sobriamente vestidos, passou a vida inteira se dedicando ao estudo da música, a maioria a um único instrumento, para ser capaz de executar obras de compositores, que também viveram esse universo de forma quase obsessiva. Para estar ali, no palco, nestes dia e horário, com o instrumento em mãos, além do estudo da música, foram necessárias muitas horas e muitos dias de ensaio, individual e coletivo, conquistando uma harmonia em que cada instrumento é essencial para o todo, sob enorme pressão, praticando uma ou duas composições escolhidas pelo maestro especialmente para aquele dia, entre as milhares criadas nos últimos séculos, respeitando cada nota, cada tempo… Nós? Apenas nos vestimos, pegamos o carro e nos Ver Mais →

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O vinhedo de Leonardo da Vinci, um belíssimo pass...

A vigna  que dá nome ao lugar não passa de uns cotocos de caules de uva no fundo do jardim, que fica mais exuberante nos meses mais quentes (ainda, já que o vinhedo de Leonardo abriu faz pouco, durante a Expo 2015). Mas ela é o pretexto para um mergulho — inimaginável visto da fachada, assim como quase tudo em Milão — na história de Ludovico Sforza, Leonardo da Vinci, da família Atellani, de Ettore Conti e Piero Portaluppi. Uma viagem charmosa e imperdível para a Milão dos séculos 15 ao 20, bem em frente à Igreja Santa Maria delle Grazie, com a cúpula de Donato Bramante e em cujo refeitório está A Última Ceia, uma das obras-primas do maestro  renascentista. (E dá pra fazer tudo numa visita só, sem se cansar ;- )

Para se chegar ao pequeno vinhedo (hoje, por que originalmente tinha mais de 8 mil metros quadrados) que Leonardo da Vinci ganhou de Ludovico il Moro  Sforza enquanto pintava a Última Ceia (Da Vinci veio para a corte de Milão de Florença convidado pelo letrado e esclarecido duque em 1482 e vinha de uma família de vinicultores da Toscana), você precisará entrar pela Casa degli Atellani, a casa da família que foi uma das mais importantes Ver Mais →

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Spotlight, quando gente de bem defende o indefens...

A minha vontade hoje era escrever “Apenas assistam a este filme que já é um dos melhores de 2016” e fechar a matéria com um ponto final. Em um momento quando negros, mulheres, transexuais, entre outras tantas vítimas de “invisíveis” injustiças sociais passam a ter suas vozes ouvidas, o filme Spotlight  vem tocar numa ferida sistêmica e nos fazer relembrar um escândalo que ficou nas nossas memórias como mais uma série de tristes manchetes. O filme de Tom McCarthy vem colocar rostos, nomes e mostrar os bastidores — e as dificuldades — da investigação do maior jornal de Boston, uma rica cidade dos Estados Unidos onde a Igreja Católica detém poder em todas as esferas da sociedade (da política à educação, passando pela justiça e pela vida da maioria de seus habitantes), que trouxe à tona o abuso sexual e sistemático de milhares de crianças por centenas de Ver Mais →

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A Sagrada Família de Barcelona quando pronta

Deus criou o mundo em seis dias (e descansou no sétimo). Já a Sagrada Família, na contramão da lógica capitalista do menor-custo-menor-prazo, consumiu 40 anos da vida de seu arquiteto, o catalão Antoni Gaudí, que morreu em 1926. Mas, se tudo correr como programado, em 2026, centenário da morte de Gaudí, a mais famosa catedral de Barcelona terá levado 144 anos para ser construída. E para nós, que passamos a vida toda acostumados a visitar a catedral eternamente-em-obras (parece que os guindastes já são parte do projeto), é quase surreal imaginar que, um dia, enfim, a Sagrada Família ficará pronta. E o projeto final é — ainda hoje — absolutamente impressionante (a torre central, a de Jesus, terá 170 metros de altura, o que fará com que o Templo Expiatório da Sagrada Família seja a mais alta construção religiosa do mundo). Que estejamos sãos e vivos para apreciá-la em tamanho real. Assista ao lindo e didático vídeo abaixo:

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Wallace Collection, o melhor da arte clássica em ...

Para quem ama arte, artes decorativas e beleza — ou apenas quiser ter a dimensão de como era uma mansão de nobres de séculos passados por dentro —, visitar a Wallace Collection é um dos passeios mais incríveis de Londres (e é gratuito; você só paga pelo audioguide, £ 4). A Hertford House, a construção mais imponente em volta da praça-jardim-privado Manchester Square, abriga uma coleção que levou 200 anos para ser construída e envolveu cinco gerações de uma mesma família — quatro marqueses (Hertford) e um Sir  (Richard Wallace) — que foi doada para o estado inglês e inaugurada ao público em 1900 pelo Prince of Wales da época, HRH The Prince Edward VII. É um sucesso desde então (na quinta temporada de Downton Abbey, os empregados do Conde de Grantham visitam o museu, quando em Londres para o casamento de sua sobrinha, e a história se passa em Ver Mais →

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Abadia de Westminster

Construída no século 11 e reconstruída em estilo gótico no século 13, a Abadia de Westminster não é católica nem protestante, é anglicana (mas foi católica até Henrique 8º, no século 16, romper com o Vaticano). Sua autoridade máxima não é papa, rabino ou pajé, mas uma mulher, Her Majesty The Queen of England, a rainha Elizabeth 2ª, que além de chefe de Estado é também a chefe da Igreja da Inglaterra. É o sítio religioso mais importante não só de Londres, mas do Reino Unido e também dos quinze domínios da Commonwealth (de 53) que ainda reconhecem a monarca britânica como chefe de Estado.

Assim como todos os reis franceses foram coroados na Catedral de Reims desde 1027, todos os reis ingleses foram coroados aqui, nesta abadia em Londres, desde 1066, desde o normando Guilherme, o Conquistador (William the Conqueror, em inglês), que assumiu o trono com a morte de Eduardo, o Confessor. E não vivia só de coroações: a abadia foi e continua sendo palco de casamentos reais (a Rainha Elizabeth 2ª e o Príncipe Philip Ver Mais →

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Lohengrin, de Richard Wagner

E foi a ópera que trata da dúvida sobre o amor — deve o amor pelo outro ser incondicional; a confiança, inabalável? — que nos deu uma das mais populares e a mais linda e melódica das marchas nupciais, a Treulich Geführt, tocada em casamentos no Ocidente há mais de 150 anos (a outra, mais imponente, é a de Mendelssohn, que ele compôs para a peça Sonhos de Uma Noite de Verão). Apesar de o nome do protagonista, Lohengrin, ser também o nome da ópera (e aparecer nos letreiros de tradução do teatro durante o espetáculo), é preciso ter em mente que todos os personagens vão conhecer o nome do cavaleiro do cisne no terceiro ato, após mais de três horas e meia do início desta história que trata de justiça, confiança em Deus (e nos outros) e obrigação com o Santo Graal.

Nesta história musicada que te deixará completamente envolvido apesar da longa duração (com os intervalos são 4h30 de ópera, mas vá sem medo), Elsa, filha do Duque de Brabante, é acusada pelo Conde Friedrich von Telramund, de ter assassinado seu irmão Ver Mais →

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Museu Picasso

Pablo Picasso é daqueles artistas que se dariam muito bem no mundo atual das redes sociais, onipresente que ainda é, mesmo tendo morrido nos “longínquos” anos 1970. É o artista mais prolífico de toda a história da arte. Em seus 78 anos de vida foram quase 150 MIL OBRAS que abasteceram três museus com seu nome, todos em cidades onde viveu, criou e produziu: um em Málaga, onde nasceu (aberto em 2003, com quase 300 obras), um em Barcelona (aberto em 1963, com mais de 4000 obras) e outro em Paris (inaugurado em outubro de 1985, com mais de 5000 obras); sem falar na coleção de 864 obras desse mestre incontestável da arte moderna no Museu Ludwig, em Colônia, e outras milhares de pinturas, gravuras, esculturas e cerâmicas espalhadas nos principais museus de todo o mundo, do Reina Sofía ao MoMA, e em coleções particulares.

O Musée Picasso, que reabriu em 2014 depois de cinco anos em reforma, fica no Hôtel Salé, um dos maiores e mais extravagantes châteaux  parisienses construídos no século 17 (apenas uma  construção da época rivalizaria com a casa do coletor de gabela, o famigerado imposto sobre o sal — daí o nome “salé” —, Pierre Aubert de Fontenay: o château  de Ver Mais →

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A Dama Dourada

Não há quadro com história mais incrível no — difícil e muitas vezes obscuro — mundo das artes que Goldene Adele ou Woman in Gold, da fase dourada do pintor austríaco Gustav Klimt, cuja história é retratada no filme A Dama Dourada. Esse é o nome que o quadro recebeu quando foi roubado pelos nazistas para esconder o fato de que a retratada, a grande dame  da sociedade vienense Frau Adele Bloch-Bauer, era judia. São quase 100 anos entre a pintura do quadro em 1907, a morte repentina de Adele em 1925, o roubo do quadro pelos nazistas (junto com outras 67 grandes obras de arte da coleção de Ferdinand Bloch-Bauer, marido de Adele) em 1938, o começo do processo em 2000 e a restituição pela Justiça e venda para o colecionador Ronald Lauder, herdeiro do império de cosméticos Estée Lauder, em 2006, por 135 milhões de dólares; o maior preço pago por um quadro na história até então. O processo judicial complexo e inédito — com desfecho Ver Mais →

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Hopak, a viril dança ucraniana

Uma das coisas que a Simonde ama: as performances masculinas da dança folclórica ucraniana, a colorida e enérgica Hopak (que se manteve firme mesmo com a anexação da Ucrânia à União Soviética por quase 70 anos), cujos movimentos são inspirados nas artes marciais dos cossacos e é uma representação dos ideais de uma sociedade agrária. Pule o vídeo para o 1:30 e deleite-se.

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Música, cerveja e comidinhas no Manioca

A chef  gaúcha Helena Rizzo, do Maní, vai cozinhar, neste próximo domingo, um menu com pratos de inspiração chinesa a pedido do cantor capixaba Silva, que se apresenta no mesmo dia que o cantor paulistano — que também canta em inglês — Thiago Pethit. Tudo regado à cerveja de origem mexicana Sol (mas hoje também fabricada no Brasil). #ILoveSaoPaulo

Em clima de fim de tarde de domingo com amigos (são apenas 200 lugares), com música brasileira, comidinhas, cerveja e michelada  (a cerveza preparada  com molhos inglês e de pimenta, chilli, suco de limão e sal) e num cenário que a gente adora, o Manioca (ali, de paredes coladas com o Maní), a segunda edição do Sol Sunday Sessions acontece neste domingo, dia 26 de julho, das 16h às 22h, com o show  do Pethit às 18h e o do Silva às 19h. Antes, depois e entre os Ver Mais →

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Fondation Louis Vuitton: A arquitetura eclipsa a a...

A concorrência é fortíssima. A construção é tão escultural que você não conseguirá apreciar a arte na primeira visita; precisará voltar outras vezes quando talvez a arquitetura ficar mais invisível  na sua cabeça. Com a água caindo por uma escada-cascata em direção ao edifício-caravela projetado por Frank Gehry — que deixa as “escamas” de titânio que marcou seus últimos projetos culturais e agora adota velas de vidro (que “escondem” a estrutura) —, é como se a Fondation Louis Vuitton fosse um barco futurista eternamente navegando pelos jardins do maior parque da cidade, “pulmão” de Paris, antigo terrain  de caça dos reis franceses, o Bois de Boulogne.

Um pouco distante do centro da cidade e no meio de uma floresta urbana, a Fondation tem uma localização inusitada, e o chegar lá faz parte da experiência. A cada quinze minutos e custando € 1 (R$ 4), saem navettes elétricas (um miniônibus que não polui) da avenue de Friedland, em frente a uma das saídas da estação de metrô Charles de Gaulle-Étoile, do Ver Mais →

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Samba

Difícil não se lembrar dos papéis anteriores dos dois protagonistas de Samba: Omar Sy, que, numa continuação de Intouchables (Os Intocáveis) segue no papel de imigrante ilegal em território francês que, fofo que é, conquista os corações gauleses, e Charlotte Gainsbourg, que já na cena em que ela olha o negro alto e forte sem camisa (e também na cena final, na sala de reuniões), simplesmente NÃO DEIXA a gente não se lembrar dela como a ninfomaníaca depressiva que, no filme de Von Trier, protagonizou uma cena explícita de dupla penetração com dois negros — também africanos, também fortes (entre outros atributos) — na cena mais engraçada do filme. Se você conseguir ultrapassar essa barreira de memória recente, o filme dos diretores Olivier Nakache e Eric Toledano (os mesmos de Intouchables) vale por mostrar uma Paris quase turística (tem o Charles de Gaulle — e vários A380 da Air France —, tem La Defénse, a Torre Eiffel, o Canal Saint Martin, os telhados e suas Ver Mais →

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Londres, o começo

Ao olhar para a civilidade dos londrinos na atualidade (sem que estejam bêbados, claro), é difícil imaginar que as bases de sua cultura (o idioma, o sistema de leis, a religião) não tenham vindo dos civilizados romanos, mas sim dos saxões, um dos povos mais bárbaros, mercenários e assassinos que a nossa história já conheceu.

ROMA FUNDA LONDRES
Londres foi fundada pelos romanos em 44 a.C., quando o Império invadiu a Bretanha e tomou conta da ilha. Durante o reinado expansionista de Trajano (de 98 a 117), o território sob domínio dos romanos chegou até onde é hoje a fronteira da Inglaterra com a Escócia (onde foi construída a muralha de Adriano, que delimitava o extremo norte do Império, cujas ruínas podem ser visitadas até hoje; aliás, a história de Adriano, sucessor de Trajano, merece uma matéria à parte).

No século 2 d.C., Londinium (como Londres era chamada), no seu auge, substitui Colchester como a capital da Bretanha Romana — ou em latim, Britanniatornando-se assim capital provincial mais distante da capital do Império, Roma. Mas, apesar de os bretões (povo Ver Mais →

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Quem morou no Museu do Ipiranga?

Ao visitar palácios históricos, é quase automático tentar imaginar a vida daqueles que ali habitavam: a vida nos corredores, nos aposentos, nos jardins, o que vestiam, o que falavam. Uma vez passeando pelo Museu Paulista, conhecido pelos paulistanos como Museu do Ipiranga (quando ele ainda estava aberto e operante), parei por alguns segundos e fiquei pensando: “ok, Dom Pedro I deu o grito da Independência logo ali, mas todos os membros da família imperial e os governantes da República sempre habitaram o Rio de Janeiro, nunca São Paulo”. O que fazia aquele palácio imponente do século 19 — quando São Paulo tinha apenas 70 mil habitantes — no bairro do Ipiranga?

Ninguém NUNCA morou no edifício eclético-neo-renascentista que abriga o Museu Paulista. O edifício com ares de palácio, desde o início, fora construído como um monumento para Ver Mais →

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Marina Abramović

O artista faz uma performance. O público, que geralmente é apenas espectador, interage com o artista e se torna, junto com o criador, a própria obra, que é filmada, editada, transformada numa instalação-nova-obra e exibida para outros públicos. “Performance vira vida e vida vira arte”. Essa é uma das fórmulas de exposição utilizadas pela artista sérvia — parte da ex-Iugoslávia — Marina Abramović, uma das precursoras do gênero performance art, que já registrava em vídeo suas primeiras apresentações na década de 1970, quando submetia seu corpo a condições extremas, com direito a cortes e sangue, quase morrer no meio de uma estrela de fogo (o fogo consumia o oxigênio e Marina desmaiou) e quase ser baleada quando colocou seu corpo completamente à disposição dos espectadores.

Se antes Marina chocava o público com suas apresentações nuas e/ou arriscadas, hoje, a artista é uma guru do tempo, uma xamã da observação e da paciência. Com nossa atenção Ver Mais →

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Festival Música em Trancoso

Se há 45 anos Campos do Jordão tem seu impecável festival de música clássica que atrai pessoas para a cidade apenas para aproveitar a programação de Arthur Nestrovski / Marin Alsop num clima de montanha, Trancoso segue a mesma direção, sob as mãos de Sabine Lovatelli, da Mozarteum, com um festival de música à altura, mas que mistura do erudito ao popular, que tem tudo a ver com a Bahia. 

O Festival Música em Trancoso — o MeT —, já em sua quarta edição acontece este ano de 7 a 14 de março (de sábado a sábado), no belo Teatro L’Occitane, que fica no complexo Terravista (tem de ir de carro até lá porque é bem longinho do Quadrado).

Na programação, que conta com nomes importantes da música, como a soprano búlgara Vesselina Kasarova, o tenor argentino Enrique Folger, os maestros Roberto Minczuk, Carlos Moreno e Benoît Fromanger, o música Cesar Camargo Mariano e o sambista Paulinho da Viola, entre outros, cada dia é dedicado a um estilo de música: na abertura, no sábado dia 7, From America to France  faz uma viagem de Gershwin a Saint-Säens; no dia 8, Tango Meets Samba traz Piazzola e Caymmi no mesmo programa. Ainda tem um dia dedicado à bossa nova e outro à ópera. Para conhecer a programação completa, é só clicar aqui.

Os ingressos estão sendo vendidos a R$ 100 por noite pelo site ingressorapido (clique aqui, apesar de alguns dias já estarem com ingressos esgotados). Para a comunidade, eles custam R$ 10 (muito legal isso).teatro loccitane musica em trancoso terravistaOs dois teatros, cada um com capacidade para 1000 pessoas, sendo o da direita a céu aberto. :- )
teatro loccitane musica em trancoso terravista
E CONFIRA O NOSSO GUIA COMPLETO  DE TRANCOSO:
Trancoso: Informações Práticas
Trancoso: O Quadrado
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Arte misândrica

Misógino é aquele que sente ódio, aversão ou desprezo pelas mulheres. É um sentimento ainda bastante presente — na música, na literatura, nas opiniões — seja de forma explícita, seja de forma velada, no discurso machista de homens E mulheres, apesar da atração sexual que possa existir entre o interlocutor e o objeto de seu desejo-desprezo. Mas, talvez como uma forma de lutar contra séculos de opressão (ou mesmo se vingar de uma traição, do desprezo e da humilhação por um homem), cada vez mais artistas mulheres produzem obras misândricas, principalmente nos últimos vinte anos, seja através de músicas, como as cantoras Tori Amos, Nicki Minaj e Beyoncé-Who-Runs-The-World-Girls-Knowles, ou mesmo nas artes plásticas, como Sophie Calle (que, na obra intitulada Take Care of Yourself, expôs o email que o seu ex-namorado lhe escreveu para terminar o relacionamento Ver Mais →

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Saint Laurent, agora, por Bertrand Bonello

Ambos os filmes têm o mesmo tema e foram lançados em 2014. Mas tudo é mais bonito no Saint Laurent de Bertrand Bonello em comparação com o Yves-Saint Laurent de Jalil Lespert: os atores (Gaspard Ulliel!!! — lindo, pelado e em nu frontal —, Louis Garrel!!!, Aymelide Valade!, e mesmo Jérémie Renier, que acompanho desde As Rosas Selvagens, tem seu charme), os enquadramentos, a composição das cenas, os móveis design  do apartamento de Jacques de Bascher (o amante de Yves), a bela fonte que dá forma ao título do filme e que informa os anos em que as cenas se passam (meio à la Tom Ford, preciso dizer).

Como cinema também agrada mais. O Saint Laurent de Bonello, que não teve a aprovação do parceiro-de-toda-a-vida de Yves, Pierre Bergé, mas que teve o apoio de Henri-François Pinault, CEO da Kering, holding de luxo que hoje é dona da marca do estilista que revolucionou a maneira da mulher se vestir, é mais sutil e menos didático (só faz uma alusão à Dior), mais emblemático e menos romantizado que a versão de Lespert, que se Ver Mais →

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A beleza da juventude masculina no olhar de Didio

O Brasil é um país de homens lindos. E, felizmente, temos um fotógrafo especialista em descobrir, explorar e espalhar essa beleza para o mundo. Reconhecido internacionalmente, faminto por uma boa foto e apaixonado pela juventude masculina, há mais de 20 anos Didio nos inspira com imagens — naturalistas, sem artificialismos, masculinas e que captam a essência — dos modelos mais lindos do Brasil. Apesar de ser um fotógrafo de moda, a roupa tem um papel completamente secundário em seu trabalho. O foco é sempre o modelo, sua personalidade, atitude e espontaneidade.

É uma rotina incansável: semanalmente, Antônio Bezerra, seu nome de batismo, casado há 18 anos com o booker  Alex Dugacsek e pai do Baco (um schnauzer de 17 aninhos que adora ser fotografado; ele posa!), conhece, conversa — muito, já que, pra ele, conhecer a pessoa, Ver Mais →

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As Bodas de Fígaro

As duas primeiras peças que compõem a trilogia de Pierre Beaumarchais, 1. O Barbeiro de Sevilha e 2. O Matrimônio de Fígaro, se transformariam em óperas conhecidas mundialmente: O Barbeiro de Sevilha duas vezes, primeiro por Giovanni Paisiello e depois por Gioachino Rossini (que é a versão mais famosa), e O Matrimônio, que recebeu o título de As Bodas de Fígaro e seria uma das obras-primas do repertório operístico de Mozart (a terceira, La Mère Coupable, também viraria ópera de Darius Milhaud). Apesar da censura ao texto de Beaumarchais em Viena (a cidade ainda fazia parte do Sacro Império Romano-Germânico, antes mesmo do Império Austríaco e do Império Austro-Húngaro), o bem articulado libretista italiano Lorenzo da Ponte retiraria as partes ofensivas à monarquia, à religião e à ordem pública e conseguiria a aprovação do libretto com o Imperador José II antes mesmo de Mozart começar a trabalhar a música desta opera buffa (ópera cômica), — apesar dos esforços de sabotagem de Antonio Salieri, o arqui-inimigo de Mozart na corte. Com sua estreia em Viena, Ver Mais →

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Sala São Paulo

Assim como o Orsay, museu parisiense dedicado ao Impressionismo, a Sala São Paulo ocupa uma estação de trem, a Júlio Prestes, que era a estação central da Estrada de Ferro Sorocabana, por onde safras de algodão e café do interior paulista chegavam à capital até os anos 1920. A única diferença com relação ao Orsay, no entanto, é que a Júlio Prestes ainda segue operando como uma estação da CPTM, o que torna a Sala ainda mais especial: essa dupla-ocupação do edifício neoclássico — do auge da música erudita ao transporte popular, dos notas puras da música ao barulho dos trens nos trilhos — aconteceu na década de 1990, quando o jardim interno da estação se converteu na mais incrível sala para concertos (construída exclusivamente para esse fim) da América Latina, que hoje é a sede da OSESP, a Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo, e também do Cultura Ver Mais →

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Ron Mueck

Lembro-me bem da repercussão que teve a primeira exposição de Ron Mueck na Fondation Cartier, que é a origem da exposição no Brasil este ano, em 2005. Recebia vários e-mails  com fotos da exposição (não existia Facebook para compartilhar na época), muitas vezes, de pessoas que não tinham o menor contato com o mundo das artes. Lembro-me também de como eu me senti quando vi uma obra sua na Royal Academy of Arts em Londres, back in 1997, na Sensation, uma das exposições mais polêmicas da história da arte, quando seu trabalho como artista foi exposto pela primeira vez.

A pronúncia correta de seu nome é Ron “Muick”. É australiano (nasceu em Melbourne, em 1958), não tem formação artística tradicional/acadêmica e faz pouco mais de 15 anos que Ver Mais →

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Desh, de Akram Khan

Um palco mal iluminado, sem música. O bailarino veste uma calça saruel, carrega uma lanterna, e passando a mão na parede e no chão — como se quisesse ver a poeira impregnada nesta viagem de reflexão sobre a sua relação com o pai já morto —, ele logo pega uma marreta e, com toda a força, bate no solo que representa suas origens bengalesas. Seja através das marretadas, das relações que o bailarino mantém com os objetos de cena ou dos movimentos ágeis e bruscos, existe uma agressividade latente em Desh, o primeiro solo de Akram Khan, coreógrado britânico de pais bengaleses, que é um dos mais geniais de sua geração. Agressividade essa sempre tão presente — e tão natural — entre pais e filhos, como na impaciência típica em diferentes fases da vida (dos pais quando os filhos são crianças e cheias de perguntas, dos filhos conforme os pais vão envelhecendo e Ver Mais →

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Budapeste e o filme de Wes Anderson

O filme O Grande Hotel Budapeste recria signos importantes do século 20. Logo na primeira panorâmica do hotel, há uma referência nem tão sutil ao sanatório alpino d’A Montanha Mágica, obra-prima do escritor alemão Thomas Mann. O volumoso livro é descrito como “uma viagem à decadência” pelo acadêmico Malcolm Bradbury. Tampouco é casual a escolha de Budapeste para o nome do filme: há óbvias coincidências históricas no enredo, já que Budapeste foi símbolo das grandes cisões europeias por quase todo o século 20 — notadamente, durante o entreguerras (período entre a Primeira e a Segunda Guerra Mundial) e a Guerra Fria (pós-Segunda Guerra até a extinção da URSS em 1991).

Até 1918, Budapeste foi também a segunda capital do extinto Império Austro-Húngaro (a primeira era Viena) e acabou por mais de dois séculos — seja como Império, seja como Hungria — oscilando entre as dominações do Oriente (Moscou) e do Ocidente (o eixo europeu, Berlim-Paris-Londres). Esmagada entre esses dois eixos de poder, buscou autonomia, fosse recorrendo ao nacionalismo chauvinista, fosse resistindo diretamente às diretivas soviéticas na Cortina de Ferro. Nesse sentido, o hotel e os personagens também metaforizam perfeitamente esse epicentro da geopolítica moderna, o Império Austro-Húngaro e os desdobramentos posteriores.

A começar pela própria ambientação do hotel, que salta do estilo faustoso, ainda que decadente do Império à quase assepsia do design socialista. Vale lembrar que trinta anos depois da Revolução Russa, em 1917, um terço da humanidade viveria sob regimes socialistas — incluindo a própria Hungria, de 1949 a 1989 — e o crescimento do ideário comunista como uma alternativa ao capitalismo era o maior temor das potências ocidentais. Nesse sentido, no hotel, vai-se dos lustres rococó ao padrão geométrico e abstrato das paredes. Sem falar no personagem Zero, que é uma das alegorias mais diretas ao Império Otomano, o “grande enfermo da Europa”, esfacelado no período entreguerras (o Império Otomano foi extinto em 1922) e que, gradativamente, vai ganhando poder geopolítico com a criação da República da Turquia.

Texto escrito por Ivo Yonamine, bacharel em Direito, tradutor, revisor e apaixonado por história. 

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Lucy, o filme, de Luc Besson

Descoberta na Etiópia em 1974, Lucy viveu há 3.200.000 anos e é o esqueleto mais antigo de um ancestral do ser humano já encontrado. Não casualmente é o nome do filme diretor francês Luc Besson — que a gente ama desde La Femme Nikita, de 1990, e O Quinto Elemento, de 1997 — e nome da personagem da cada vez mais apaixonante Scarlett Johansson. Mas é Lucy, a Hominini, que/quem abre o filme, bebendo água em um lago num planeta bem diferente do que conhecemos hoje.

Apesar de todas as nossas sofisticadas tecnologia, ciência e da nossa erudição, há infinitas questões da vida que seguem não respondidas e, diante da complexidade do Universo E das nossas emoções, várias vezes me perguntei se, talvez, o nosso cérebro simplesmente não fosse apto para entender ou formular as respostas para perguntas como Ver Mais →

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Véus de mármore

Desde a Vitória de Samotrácia (de 200 a.C., hoje em posição de destaque no Louvre), uma das coisas que mais me fascinaram na vida foram os panos da Virgem Maria na Pietà, obra-prima de Michelangelo, escultura que está na Basílica de São Pedro, e da Santa Teresa, também uma obra-prima, de Bernini, no altar da Santa Maria della Vitoria, ambas as esculturas em Roma. O contraponto da leveza do tecido com o peso e a dureza do mármore e as dificuldades técnicas que implicam o panejamento, que é a escultura de “panos na pedra”, sempre  impressionam. Mas Antonio Corradini (1688 – 1752), escultor barroco vêneto do século 18, deu um passo além com suas mulheres veladas, esculturas delicadíssimas em mármore que não só retratam tecidos finíssimos, colados à pele, mas dão a impressão de que estão sofrendo a ação do vento ou da água. E não há nada mais sexy  que um véu sobre um corpo nu, como faria séculos mais tarde o fotógrafo norte-americano Herb Ritts. Ver Mais →

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A Velha, dirigida por Bob Wilson

Tenho muitas dúvidas quanto à capacidade de uma peça que se utiliza de uma linguagem circense, com uma história-não-história-comédia (tragédia?), absurdista-surrealista com frases que se repetem ad infinitum, que envolve fome, morte-assassinato (ou apenas um pesadelo?), sem personagens (seriam A e B a mesma pessoa, o escritor em apuros?), que nos remete à Beckett, Ionesco ou Kafka (não tente entender a história), se fazer gostar pelo público de forma tão unânime. Mas parece que a última obra do dramaturgo norte-americano Robert Wilson, ou just  Bob Wilson, conseguiu a proeza, não só no Velho Mundo, como também no Brasil.

Não há como não se deslumbar pela beleza plástica e a sofisticação da peça The Old Woman (A Velha, em português), baseado na única novela (de 1939) do poeta e dramaturgo absurdista russo Daniil Kharms, ou Daniil Ivánovitch Iuvatchóv, seu nome verdadeiro, que a escreveu durante a Rússia stalinista. Se você algum dia tentou “controlar a luz”, essa matéria-imaterial que se espalha pelos ambientes na velocidade dela mesma sem pedir permissão, seja ao tentar iluminar um objeto para ser fotografado ou para dar aquele efeito na sala durante um jantar — SEM conseguir o efeito desejado —, vai entender o preciosismo e o rigor extremo e absoluto do trabalho do multitalento de Robert Wilson.

A luz dá o tom: encanta, colore (sem a luz, todo o cenário da peça seria simplesmente branco) e transforma o palco, os objetos e os atores, dando profundidades infinitas. Bob Wilson é conhecido por deixar um ator parado durante horas no palco, imóvel como uma escultura, para afinar a luz de uma determinada cena e, especialmente nesta peça, antes mesmo de pensar o texto, foi o trabalho de iluminação que deu início ao projeto.

Willem Dafoe e Mikhail Baryshnikov possuem uma sinergia e carisma incríveis no palco, apesar de cumprir com o rigor dos movimentos (correm, pulam, dançam, maquiados como palhaços), do texto (em inglês e em russo) e até mesmo da voz (Baryshnikov em vários momentos se utiliza de um falsete para contrapor à voz grave de Dafoe), exigidos pelo diretor.

E a graça vem do absurdo da realidade surreal: as SEIS velhas que caem do terraço e se espatifam no chão, uma após a outra, pela curiosidade de ver a velha que havia caído anteriormente; a discussão que se inicia e se alastra pelo bairro porque o personagem não sabe mais se o sete vem antes do oito ou vice-versa; ou ainda o operador de milagres que não opera nenhum milagre em toda a sua vida, nem mesmo o de reverter a expulsão pelo proprietário de seu próprio apartamento. E a sensação, ao sair do teatro, é uma mistura de prazer — por ter assistido a uma peça única com grandes nomes das artes no mundo (da dança, do cinema e do teatro) — com estranhamento — pelos mesmos motivos.

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O Grande Hotel Budapeste

A primeira coisa que chama a atenção no filme são as proporções de tela que o diretor Wes Anderson escolheu para a exibição: 4:3 (ou 1,33:1), a “janela clássica” dos filmes 35 mm para retratar as cenas que se passam nos anos 1930; 1,85:1, usada nos cinemas americanos e ingleses a partir dos anos 1960 para as cenas de 1968; e 2,35:1, a “janela panorâmica” para as cenas que se passam em 1985 (a proporção widescreen padrão que o cinema usa hoje é de 2,39:1 ou 12:5). Apesar da decisão do diretor — que eu respeito —, o que eu queria mesmo, e muito, era ver o lindo The Grand Budapest Hotel numa enorme tela iMax, em 3D, e poder “entrar” no hotel, na cozinha da Mendl, no palácio de Madame Céline Desgoffe-und-Taxis, sentir o cheiro do L’Air de Panache

O filme é a história (sim, diferentemente de outros filmes do diretor esse tem uma história) da amizade que se desenvolve entre o lendário concierge charmosão Gustave H e o novo mensageiro, Zero, que conta para um escritor a vida de Monsieur Gustave durante a época de ouro do Grande Hotel de Nebelsbad na República Alpina Ver Mais →

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Marilyn Monroe deslumbrante antes de sua morte

Esse é um dos últimos vídeos de Norma Jean Mortenson, aka Marilyn Monroe, num teste de cabelo, maquiagem e figurino para o filme que ela estava gravando Something’s Got To Give, em 1962, que ficou incompleto com sua morte. O filme que ia ser estrelado por Monroe, Dean Martin e Cyd Charisse (as pernas mais belas do cinema), teve vários problemas. Monroe faltava às gravações, foi demitida, Dean Martin disse que só contracenaria com ela (quase foi demitido também). O negócio foi parar na Justiça com multas milionárias, Monroe foi readmitida, as gravações do filme iriam recomeçar no outono de 1962, mas ela, aos 36 anos de idade, não estaria viva para as gravações e o filme nunca seria terminado. Se alguém, ainda nos dias de hoje, tem alguma dúvida sobre a beleza estonteante e o sex appeal dessa mulher, o vídeo abaixo simplesmente acaba com todas elas.
Obrigado ao Rodrigo Vieira por ter compartilhado este vídeo e ter me encantado à meia-noite de uma quarta-feira.

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Onde jazem os reis de França

Em Reims, cidade da região de Champagne-Ardenne, foram coroados todos os reis da França, de 1027 a 1825 (com exceção de apenas dois). De Henri 1º a Charles 10, passando por todos os Luíses: nove no total, de Luís 7 a Luís 16. Mas, se eles todos foram coroados em Reims, foi no subúrbio de Paris, na Basilique Saint-Denis, que eles foram enterrados. Hoje, todos os ossos dos homens e mulheres mais poderosos da França ao longo de mil anos de monarquia (de Clóvis, o responsável pela derrota dos romanos e pela  introdução do cristianismo na França, a Luís 14, o Rei-Sol-o-Estado-sou-eu, passando por Carlos Magno, o “Pai da Europa”) estão jogados e misturados em duas caixas de pedra. Durante a Revolução Francesa, a turba enlouquecida invadiu a Basílica, saqueou os túmulos e jogou todos os ossos num terreno baldio nas redondezas. E lá eles ficariam, jogados ao relento, por quase 25 anos até a restauração da monarquia em 1817, quando eles foram recolhidos e quando já era impossível identificar que fêmur era de quem. Ver Mais →

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Etiqueta em concertos

PONTUALIDADE
— Chegue com antecedência para tomar um café e apreciar a arquitetura, as pessoas, antes de o concerto começar. Nada pior que chegar na sala atrasado, correndo, esbaforido. Você mal consegue sentir a música quando ela começa. Ah, aproveite para fazer xixi. Sair da sala no meio do concerto não é uma opção.
— Concertos não têm a regra dos “três sinais” comum no teatro, que sempre nos dá aqueles quinze minutinhos de tempo extra. Se o concerto está marcado para começar às 21h, ele vai começar às 21h.

PROIBIDA QUALQUER TIPO DE DISTRAÇÃO
SILÊNCIO TOTAL enquanto se ouve a música. Se precisar tossir ou espirrar, use um lenço para diminuir o barulho; se tiver uma crise de tosse, saia da sala da maneira mais discreta possível, ciente de que você não vai mais poder retornar ao seu assento.
— Se é proibido filmar, gravar ou fotografar o espetáculo, simplesmente não o faça.
— Telefones celulares, tablets etc. devem permanecer DESLIGADOS durante o concerto, não só no modo silencioso. A luz que as telas emitem também incomodam, distraem. Assim, se você quiser levar seu filho pequeno — que não tem paciência para permanecer no concerto — e acha que pode deixá-lo com um smartphone  jogando para ele se distrair, não o leve. É horrível ir ao concerto e ver uma tela colorida e eletrizante emitindo luzes coloridas ao seu lado ou na fileira da frente.
— Brincos e pulseiras podem fazer barulho. Atenção na escolha dos acessórios.
— Abrir balar durante o concerto? NÃO. A acústica das salas de concerto é tão perfeita que é capaz de o maestro ouvir e querer uma bala. Você não vai querer dividir, né?
— Última regra  de ouro do silêncio absoluto: NÃO comente sobre o concerto durante o concerto. Espere o intervalo ou o fim para dividir suas impressões. Se o seu acompanhante não tem o hábito de frequentar concertos e quer informações sobre a música, oriente-o antes e não durante o concerto.

APLAUSOS
— Talvez a parte mais “complicada”. É tradição aplaudir apenas ao final das obras. Geralmente, uma obra é composta por vários movimentos, e existem pausas entre eles. Se você não conhece a música completa, é difícil saber quando acabou (mesmo seguindo o programa, às vezes o maestro faz uma pausa maior entre movimentos; outras vezes, você mal percebe que um movimento acabou e outro começou). Conclusão: na dúvida, não aplauda até ter certeza que não tem mais nenhum movimento para ser tocado. E NÃO siga os outros porque aplauso é contagioso: quando alguém começa errado, vai um monte atrás.
Se a música te emocionar, aplauda, grite, levante. Sem vergonha.
— É fundamental que você se sinta confortável. Na Sala São Paulo, por exemplo, não é obrigatório o uso de trajes sociais, mas também não é permitida a entrada de pessoas usando bermudas, shorts e chinelos. Jeans, camiseta e tênis é ok.

DEU SONO?
— Se bater aquele soninho, pode cochilar (a não ser que você ronque). Nada mais luxuoso que ter a trilha sonora dos seus sonhos sendo executada ao vivo por uma competente orquestra em um templo de música.

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Her

Nunca acreditei em livre-arbítrio. Sempre achei que nós também funcionamos por algoritmos, esse código-equação cheio de regras que determina o funcionamento de programas de computadores; apenas com variáveis mais complexas. Enquanto nos softwares as regras talvez sejam mais lógicas, o nosso algoritmo traz variáveis como a nossa personalidade, o ambiente no qual crescemos, a relação que tivemos com nossos pais, as pessoas que encontramos ao longo da vida, as experiências acumuladas, as alegrias, as tristezas, nossos desejos, talentos, traumas. A maneira como vemos, vivemos, agimos e reagimos na vida é SÓ o resultado dessa equação. E essa fórmula está sendo constantemente alimentada: em cada notícia que lemos, em cada conversa, em cada troca. E não há como fugirmos dela. Bom, essa também é Samantha, o sistema operacional que divide com Theodore (interpretado por Joaquin Phoenix) o protagonismo do filme Her, que trata da Ver Mais →

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Sua obra rende um bom selfie?

Artistas plásticos obcecados pela fama já podem colocar mais uma variável em sua fórmula midiática: grau de interação com a obra que favorece selfies “criativas”, engraçadinhas e fotogênicas. Nas redes sociais, é mídia espontânea na certa. Por que tem gente indo às exposições não para conhecer a obra do artista mas para tirar fotos de si mesmo.

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Zero Gruppe

Com o quase-total colapso do país após o fim da Segunda Guerra Mundial, quando a Alemanha foi dividida em duas e assim permaneceria pelos próximos quarenta anos, os alemães se referiam a 1945 como Stunde Null (a hora zero). Nove anos depois, em 1954, dois artistas de Düsseldorf quiseram recriar esse mesmo sentimento no campo das artes abandonando os materiais utilizados até então e preferindo os “não-artísticos”, como o tecido, o papelão, a madeira, o isopor, o plástico e, principalmente, a luz (e suas possibilidades de movimento); recusando a arte figurativa, a pincelada autoral; em exposições que duravam apenas uma noite: era a vernissage — em seus próprios ateliers — e nada mais… E fundaram um grupo não muito organizado que atraiu a atenção de outros grandes artistas da época, não só da Alemanha (Piero Manzoni, Yves Klein, Lucio Fontana, Jesús Rafael Soto, Almir Mavignier, Jean Tinguely etc.). Mais de 130 artistas participariam do projeto “Zero”.

O Zero Gruppe se transformaria em uma década num dos mais conceituados movimentos de vanguarda do século 20.  Assim como a Bauhaus (também alemã), escola que começou após o fim da Primeira Guerra Mundial, visava renovar a arte, a arquitetura, o design e o artesanato (e influenciar uma geração de artistas traumatizada pela guerra), e que foi fechada com a ascensão de Hitler ao poder (em 1933) porque a escola era muito “internacional”, o Zero Gruppe é um dos movimentos mais importantes da arte do século 20. Mas, diferentemente da Bauhaus que foi obrigada a ser fechada, o grupo programou seu fim com uma performance, em 1966, incendiando um carro e jogando-o no rio, numa festa com mais de mil convidados.

NA PINACOTECA DO ESTADO DE SÃO PAULO
Para quem quiser conhecer o trabalho deste movimento numa belíssima e bem curada exposição, está em cartaz na Pinacoteca, até o dia 15 de junho de 2014, a exposição Zero, que rende ótimas fotos para o Instagram. Ver Mais →

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Por que os atores da Comédie Française usam o no...

Por que a Comédie Française, esta instituição cultural francesa fundada por Luís 14 e Molière em 1680 e que ocupa o mesmo prédio desde 1799, é o único teatro do Estado francês, o único teatro que tem uma companhia permanente de 63 atores contratados exclusivamente, que apresentam uma média de 850 peças por temporada-ano, em três salas (Richelieu, a sala mais bonita, o Vieux-Colombier e o Studio-Théâtre), com um repertório com mais de 3 mil peças de teatro (só as peças de Molière foram encenadas 33.400 vezes, de 1680 a 2009). Assim, quando eles são convidados para atuar em algum filme (e parece que isto está virando uma tendência, já que quase todos os atores da trupe, quando nas telas, concorrem aos prêmios de melhores atores do César), eles são dispensados temporariamente, mas não perdem o vínculo com a Comédie Française. Por isso, no filme Yves Saint Laurent, por exemplo, o protagonista Pierre Niney é sempre apresentado como “Pierre Niney de la Comédie Française”.

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Yves Saint Laurent

O roteiro — seja pela própria história do estilista seja por histórias próximas — a gente já conhece e se repete, se repete, se repete: talento genial lidando com as grandes pressões do mundo cercado por uma entourage  de colegas talentosos, lindos, ricos, michês e arrivistas, que curtem a vida adoidado (tudo bem, nem todo mundo tem Karl Lagerfeld na sua turma). E como se já não bastassem suas fragilidades, sofre ainda mais com os excessos de aditivos como drogas e álcool. Na narração de Pierre Bergé, companheiro mão firme que viveu por cinquenta anos com Yves Mathieu Saint-Laurent, o filme de Jalil Lespert começa com uma visita de Saint Laurent à sua família em sua Oran natal (Argélia francesa), logo que começa a despontar na carreira (já trabalhando na Maison Dior, onde foi contratado aos 19 anos). Logo em seguida, Pierre Bergé já idoso — e Saint-Laurent morto (ele faleceu em 2008) —, leiloa a belíssima coleção de arte que o casal amealhou ao longo da vida (repleta de obras compradas em pares, para os dois), no leilão da Christie’s que foi o grande destaque de 2009 e arrecadou quase 400 milhões de euros.

Se você não curte moda, vai ser difícil gostar do filme, que é bem a vida do dia a dia, nessa história nada original, super cronológica (a contratação e demissão de Yves da Maison Dior; o lançamento de sua maison haute couture; o vestido Mondrian de 1965; o lançamento do prêt-à-porter), sem grandes clímax, sem grandes emoções, nada nada nada Saint Laurent. Só dá uma animada quando entra a trilha na poderosa voz de Maria Callas, num dos desfiles mais deslumbrantes do mestre, na coleção de alta costura mais cara de sua história, intitulada Les Ballets Russes, do outono-inverno 1976. A cena foi gravada no Westin Hotel, onde o desfile aconteceu originalmente e com as roupas do arquivo da Fundação Yves Saint-Laurent.

O que vale a pena no filme, no entanto, além da moda e do luxo da vida de Saint-Laurent e Bergé, são as atuações dos atores da Comédie Française, Pierre Niney (ainda mais bonito que o Yves original) e Guillaume Galienne.

Agora, a gente aguarda a estreia (prevista para o fim do ano) de Saint Laurent, dirigido por Bertrand Bonello, apoiado pelo todo-poderoso François Henri-Pinault, CEO da Kering, conglomerado que é dono hoje da marca Yves Saint Laurent, que autorizou o uso da logomarca e dos desenhos de Yves e que o Pierre Bergé queria vetar.

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Hou Yi e a origem do Sol

De repente, dez sóis surgiram no céu. Os sóis tinham uma mãe, a deusa Yi He (que não era Sol), que escolhia apenas um dos dos dez filhos para, numa carruagem de ouro, dar uma volta pelo céu. Só voltavam à noite. O passeio-rodízio iluminava a nossa Terra diariamente e os homens viam apenas um Sol. Durante milhões e milhões de anos foi assim. Um dia, os filhinhos sóis entediados e sem entender por que só podiam passear sozinhos sem a companhia uns dos outros resolveram se reunir. Discutiram e decidiram que amanhã seria um grande dia: o dia em que passeariam juntos. Amanheceu. Os DEZ subiram na carruagem de ouro. A mãe, ao ver a cena, desesperada, tentou impedir que os filhos travessos saíssem. Mas sem sucesso, chorou.

Ao se aproximar da Terra, que foi ficando cada vez mais vermelha e começou a arder em chamas com o calor excessivo, os sóis se alegraram. Achavam que a movimentação dos homens e animais correndo de um lado para o outro era um sinal de boas vindas e ficaram ainda mais alegres. O povo, desesperado, procurou o imperador que resolveu escrever um comunicado Ver Mais →

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As pequenas princesas de Duque

As Marias da artista colombiana Adriana Duque ocupam cenários e vestem roupas (incluindo um contemporâneo fone de ouvido incrustado com pérolas e pedrarias; seriam coroas?) impecavelmente cenografados e produzidos, que nos lembram a mesma postura destemida da poderosa — apesar de também uma criança — Infanta Margarida Teresa de Habsburgo, retratada inúmeras vezes em vários momentos de sua vida por Diego Velázquez no século 17 (é ela a figura principal da obra-prima do pintor espanhol Las Meninas). As referências não param por aí: a artista também se inspira no Renascimento, na Era de Ouro da pintura holandesa (também o século 17), no Barroco e no Rococó para criar essas fotografias conectadas à história da pintura, nas palavras do curador Eder Chiodetto, que enchem os nossos olhos. Seja com o esplendor dos tecidos das cortinas, dos vestidos ou dos estofados no primeiro plano, seja com a simplicidade colorida das naturezas mortas que nos remetem às cozinhas de Vermeer. As obras de Adriana Duque estão em exibição na Zipper Galeria até o dia 12 de abril. Adriana fez as fotos com uma câmera Hasselblad e todas as fotografias foram produzidas em edições de cinco.

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Maria 14, 2014, fotografia, 150 x 180 cm, de Adriana Duque, exposta na Zipper Galeria. Imagem: Divulgação.

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Chique é xixi no corredor

Por mais de cinquenta anos, de 1682 (quando a corte se muda para a Versalhes) a 1738 (quando Luís 15 encomenda o primeiro banheiro com vaso sanitário), o Palácio de Versalhes — com 2300 ambientes e uma corte de quase 20 mil pessoas (cinco mil morando no château) — não tinha NENHUM banheiro. E o primeiro banheiro — luxuosamente projetado e construído apenas em 1738 — era de uso exclusivo do rei. O que faziam os outros milhares? Damas da corte como a princesa d’Harcourt (sim, PRINCESA), após uma farta refeição, simplesmente saíam da sala de jantar, arregaçavam as volumosas saias e se aliviavam no corredor. Já o duque de Vendôme (sim, DUQUE, um dos mais altos graus da hierarquia nobiliárquica), herói de guerra e figura poderosa em Versalhes, como era muito rico, tinha uma chaise percée (em português, uma cadeira “furada”), que era um assento sanitário. E ele fazia suas necessidades na frente de qualquer um. Mas qualquer um mesmo. Certa vez, o bispo de Parma chegou ao palácio em uma missão diplomática e encontrou Vendôme fazendo o número dois em sua cadeira. E o bispo, um “estrangeiro”, ficou horrorizado quando, no meio das negociações, o duque se levantou e começou a limpar o bumbum, ali, bem na sua frente. Esse era o comportamento padrão em Versalhes; entre nobres e plebeus. Comentava-se que alguns dos corredores dourados do suntuoso château, muito frequentado pelas damas necessitadas, ainda exalavam um odor torturante mesmo muito tempo depois de a Revolução ter dado fim à corte. Ver Mais →

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Milão, o começo

Ocupando um local privilegiado — e estratégico — que foi objeto de desejo entre diversas tribos e nações ao longo dos séculos, Milão esteve sob o domínio de diversos povos (etruscos, romanos, godos, lombardos, francos, espanhóis, austríacos, franceses), até finalmente fazer parte da Itália… no século 19 (!). Os primeiros a se estabelecerem às margens do Rio Po (rio que corta a Itália de leste a oeste) foram os celtas, entre os séculos 7 e 4 a.C. E assim como toda a Europa (e parte da Ásia e da África, porque os cara eram megalomaníacos), a região foi tomada pelo Império Romano, que lhe deu o nome de Mediolanum em 222 a.C. (e olha que os celtas tinham a doce ilusão, coitados, de expandir seu território para o Sul, mas encontraram os romanos no meio do caminho expandindo para o Norte e seus planos foram por água abaixo).

Mediolanum, que significava ‘no meio da planície’, se transforma em capital da Transpadania (região que abrigava também as cidades de Como, Brescia, Bergamo, Pavia até Ver Mais →

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Ninfomaníaca Volume II

Se você assistiu ao Volume I e viu as “cenas do próximo capítulo” nos créditos finais e achou que o filme finalmente aconteceria no Volume II, sinto muito; por você e por mim. Ninfomaníaca Volume II segue denso, infantil, quase bobo em todas as análises cheias de referências eruditas e ordinárias (das fugas de Beethoven a nós de alpinismo, passando pelo Grande Cisma), mas sempre rasas e em associações nem sempre inteligíveis. A diferença é que Joe, a protagonista, que agora é mãe, passa a explorar os limites — os seus e os nossos em ver as cenas — do sexo (ainda que sem prazer), da sexualidade e da moralidade burguesa e hipócrita da sociedade (e a gente não tem uma cena como a Uma Thurman no Volume I que faz valer o filme). Sadomasoquismo (a propósito, essa seria a melhor sequência do filme com Jamie Bell interpretando K), sexo interracial (onde não só a cor da pele é diferente, mas a cultura do sexo e nem existe possibilidade de comunicação), pedofilia, virgindade, assexualidade são dos temas abordados e vividos física ou psicologicamente pelos personagens. E não sei se já estamos anestesiados pelas catarses dos grandes filmes de Lars von Trier (Dançando no Escuro, Dogville) e ele até tenta um desfecho tão inesperado quanto inverossímil, mas para cinco horas e meia de filme no total, Ninfomaníaca nos faz pensar que a provocação e a polêmica são as únicas formas que von Trier tem encontrado para garantir bilheteria para seus últimos filmes. :- \

A única questão que o filme aborda sobre a qual vale a pena refletir é: se Joe fosse um homem, viciado em sexo ou apenas safado, mulherengo, e tomasse as mesmas decisões de vida da personagem no filme, o sofrimento seria o mesmo?

Para ler sobre a minha esperança de um grande filme quando do lançamento do Volume I, clique aqui.

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London Grammar

London Grammar é uma banda inglesa que lançou seu primeiro álbum em 2013 e já conquistou milhares de corações — ou os destruiu — all over the world. As músicas tristes e melancólicas — perfeitas para momentos de desilusão amorosa — são interpretadas pela voz potente de Hannah Reid (a primeira vez que escutei achei que era uma voz masculina). Strong, Nightcall, Wasting My Young Years já são favoritas. Se você curte Florence, Feist ou mesmo Lana del Rey, vai gostar. É só clicar abaixo e escutar. Ver Mais →

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Zaz no Brasil

Atenção, atenção! Uma de nossas divas francesas vivas, a cantora de voz grave, rouca, com ares — e letras — de pura liberdade e uma certa rebeldia, Isabelle Geoffroy, aka ZAZ, fará shows em Belo Horizonte (19 de março), no Rio (20 de março, no Circo Voador) e em São Paulo (nos dias 22 e 23 no Sesc Pompeia). Em São Paulo, os ingressos vão custar R$ 40 e começam a ser vendidos pela internet  apenas no dia 10 de março. Coloque a data na agenda. No sábado dia 22, o show é às 21h30, e, no domingo dia 23, às 19h30. Can’t wait. Confira abaixo algumas de nossas músicas prediletas para entrar no clima. Os ingressos para o Rio já estão à venda, clicando aqui.

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Trapaça

Edward Ellington foi o maior compositor de jazz  da história. Negro numa América ainda institucionalmente racista e filho de dois pianistas, o “Duque”, como passou a ser chamado, não foi apenas um gênio musical, foi também um dos homens mais elegantes do século 20. Tinha controle total sobre sua imagem. Na sua fala sempre precisa e agradável, nunca se explicava, só se escondia. A persona que Duke Ellington criou para si e a música Jeep’s Blue — que “salva” várias vezes a vida de Sydney, personagem de Amy Adams — não poderiam ser melhor símbolo para o início do novo filme de David Russel, Trapaça (no original, American Hustler).

Trapaça não é apenas um filme de dois vigaristas que são forçados a colaborar com o FBI quando são pegos. É um filme que trata da luta e das sabotagens — com os outros e consigo — que desenvolvemos para sobreviver neste mundo, que não é para principiantes. Assumir uma nova identidade, criar esquemas ilícitos para ganhar dinheiro à custa da boa fé Ver Mais →

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The Great Contemporary Art Bubble

Damien Hirst, o big star  da arte, representado pelas duas maiores galerias de arte contemporânea do mundo — a White Cube e a Gagosian —, tem uma fábrica com 150 assistentes, produzindo suas “obras-primas” em série, em escala nada artesanal (de acordo com um catalogue raisonné dos quadros de bolinhas coloridas de Hirst — ainda não lançado pela editora —, entre 1986 e 2011 foram pintados 1365 spot paintings! Sem falar nas centenas de quadros de borboletas). Corta. Quando perguntado por Ben Lewis, o diretor do filme The Great Contemporary Art Bubble, quantos quadros de listras Anselm Reyle já tinha produzido (apenas com variações de cores e texturas, assim como as bolinhas de Hirst), o artista plástico alemão (que tem 60 assistentes), representado pela Gagosian, disse: “difícil de dizer, mas acho que uns 200 ou 250”. Tanto Jay Joplin, da White Cube, quanto Larry Gagosian, da galeria que leva seu nome, se recusaram a dar entrevistas para o documentário interessantíssimo que investiga a bolha no valor das obras de arte contemporâneas entre 2003 e 2008 (que teve seu preço médio aumentado em 800% durante estes anos; as obras de Reyler aumentaram de valor 20 vezes), até o ano em que a quebra do quarto maior banco de investimentos dos EUA levou o mundo a uma crise global. Como os preços de obras produzidas em larga escala, de qualidade duvidosa, atingiram níveis estratosféricos?

The Great Contemporary Art Bubble não é um filme que aborda a qualidade das obras ou dos artistas, ou ainda faça uma análise da arte contemporânea. O que Lewis, que é colunista de arte do jornal inglês The Guardian, investiga é apenas o método como as obras são precificadas (a eterna oferta e a demanda) e como o esquema criado por colecionadores, galerias, consultores de arte, museus e investidores (que adoram uma especulaçãozinha) pode afetar a economia como um todo (o que decepciona é ver artistas e instituições que a gente ama fazendo parte desse processo nada transparente, nada artístico). Ah, tem também o fato de o número de bilionários do mundo ter aumentado muito nos últimos anos, principalmente nos mercados emergentes, onde arte contemporânea é hype (e é uma brincadeira que os novos ricos, entre eles, têm gostado bastante de jogar).

O mercado de arte, apesar dos bilhões de dólares que movimenta, diferentemente do mercado financeiro, das commodities, não é regulamentado. E o que acontece quando colecionadores como os irmãos Mugrabi e Aby Rosen detém 10% de todos as obras importantes de Andy Warhol? (Só os Mugrabi possuem 800 quadros do artista.) Ou quando Larry Gagosian e Jay Joplin — entre outros galeristas, já que parece que é uma prática bastante comum — participam dos grandes leilões dando lances nas obras dos artistas que representam, simplesmente para aumentar o valor de mercado e, consequentemente, valorizar seus estoques? #CartelFeelings Nos outros mercados, existem leis para que alguém não detenha tanto de alguma coisa a ponto de conseguir influenciar seu preço e caracterizar monopólio. Nos anos 1990, um empresário japonês foi processado por ser dono de 5% das reservas de cobre do mundo. Mas no mercado das artes, esses limites não existem e o que gente vê é especulação, manipulação de preços, fraude; tudo em segredo.

O QUE ISSO TEM A VER CONOSCO?
Os artistas são os rock stars  dos nossos dias. Na Grã-Bretanha, hoje, mais pessoas vão a exposições de arte que a jogos de futebol. O público dos museus não para de aumentar. Bilhões de dólares têm sido gastos na construção de novos espaços culturais em todo o mundo. E o problema é que esse sistema especulativo e escuso do mercado das artes acaba por influenciar nas decisões dessas instituições, que usam dinheiro público.

Quando uma obra é vendida por milhões de dólares num leilão, a mídia que isso gera é enorme; as manchetes transformam o artista em uma estrela (não é, Jeff Koons?); os museus, cada vez mais dependentes das receitas vindas da visitação do público, acabam sendo influenciados e preferem apostar em artistas com maior capacidade de atrair público. E uma vez que um Damien Hirst é “validado” e ganha lastro através de uma exposição individual na Tate Modern (que também gera enorme mídia, por ser uma instituição de arte reconhecida — e amada), automaticamente, seu valor de mercado se consolida (e a gente se encanta; é o mesmo que pegar um sapato estranho da Prada — o que é sempre comum — e colocar numa prateleira da 25 de março ou dentro de uma elegante loja na Madison Avenue, com ele estampado em todas as maiores revistas de moda do mundo: a ambientação, a grandiosidade influenciam o valor que damos às coisas). E, assim, com os preços inflacionados, os museus precisam pagar fortunas para ter um quadro de um desses artistas. Ou então, os colecionadores, que tiveram suas fortunas multiplicadas por 20 (lembrando: graças à especulação), decidem doar os quadros milionários para as instituições de arte e conseguem deduzir outros milhões de dólares no pagamento de impostos.

Todo mundo perde. Perde o Estado e perdemos, nós, apreciadores das artes, que passamos a desconfiar da qualidade dos artistas, que esperamos isenção das grandes instituições e que vemos na arte uma forma de inspiração espiritual e verdadeira.

O mais interessante do documentário de Lewis é que o timing  não poderia ser mais perfeito. Sua pesquisa aconteceu em 2008, ano em que Damien Hirst decidiu dar um passo arriscado, fazendo um leilão independente, desvinculado das galerias que o representam, direto com a Sotheby’s. 2008 também foi o ano em que houve a maior crise financeiro do mundo, desde a Grande Depressão de 1929 por causa da concessão de crédito indiscriminada na economia (o mercado estava cheio de dinheiro pra quem quisesse). Obviamente, as galerias que representavam Hirst estavam aflitas com a possibilidade de um fracasso do leilão, que faria com seus estoques de obras de Hirst perdessem valor. O leilão, suportado pelo suas galerias, a White Cube e a Gagosian, foi um “sucesso” e arrecadou 111 milhões de libras esterlinas. Mas não adiantou. No começo de 2009, alguns meses depois da quebra da Lehman, o preço médio das obras de arte contemporânea cairia numa média de 75%. (Tudo bem, o mercado aqueceu não muito tempo depois). 

Pode ser que Andy Warhol tinha razão quando disse, em 1975, que “making money is art”. Talvez, marketing e showbiz também sejam formas genuínas de expressão na arte contemporânea.

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O Lobo de Wall Street

Assim como na vida real, não, o bad guy  não se ferra no final. Moralismos à parte (muitos dos familiares dos envolvidos e pessoas prejudicadas pediram boicote ao filme), os valores por trás do modo de vida de Jordan Belfort, o rapaz simples que se tornou milionário em pouco tempo vendendo ações de empresas de fundo de quintal para pessoas humildes e ignorantes prometendo um futuro — não cumprido — de riqueza e prosperidade, são a base do sistema capitalista. Dos operadores de Wall Street às letras do funk-ostentação, na evangelização do dinheiro o importante é tê-lo. E demais é um limite que não existe.

O Lobo de Wall Street, novo filme de Martin Scorsese, quinta parceria entre o diretor e Leonardo diCaprio, é um filme cheio de energia, drogas, dinheiro (milhares de Benjamins  na tela), mulheres nuas, grifes, boy toys, sexo, orgias (no escritório, em casa, em aviões fretados); sem nenhum pudor, assim como os personagens (reais, devemos nos esforçar para lembrar). Muito bem contada (o filme é baseado na autobiografia homônima de Belfort lançada em 2008), não se sente as três horas de filme passarem.

DiCaprio está excepcional e entregue (especialmente nas cenas em que ele discute com Naomi sobre “Venice” e abusa da expressão corporal tentando chegar à sua Lamborghini branca; ah, ele também aparece pelado várias vezes e tem até uma vela vermelha — e acesa — enfiada em suas nádegas, pela Venice); Margot Robbie interpretando sua esposa é belíssima; e ainda contamos com a participação mais que especial — e com frases ótimas — de Joanna Lumley, a eterna socialite-and-addicted  de Absolutely Fabulous. #WeLoveYouForeverPatsy No quesito glamour, também é ótimo ver o figurino de Naomi (a esposa de Belfort no filme, que na vida real se chama Nadine), seguindo a moda grifada da época: os modelos Versace (na época by  Gianni) e o look  camisa de seda e bota da primeira coleção de Tom Ford para Gucci (outono-inverno de 1995).

Nos anos 1990, as pessoas que investiram no mercado de ações através da empresa de Jordan Belfort perderam US$ 250 milhões de suas economias. Em 1998, ele foi indiciado por lavagem de dinheiro e fraude. Pagou uma multa de US$ 110 milhões e cumpriu 22 meses de prisão. Hoje, ele está fora do mercado e é um palestrante motivacional. Continua rico e influenciando um monte de gente com o seu sucesso (e que o filme, já indicado ao Oscar, corrobora). Numa sociedade que tem o dinheiro como objetivo principal de vida, pessoas que conseguem ganhar muito em pouco tempo, mesmo prejudicando milhares de pessoas são sempre respeitadas, não importa o quão repugnantes elas sejam. Ainda mais com suas roupas impecáveis e o discurso sempre afiado e confiante.

TheRealWolfThe Real Wolf: o bonitão Jordan Belfort no auge dos negócios. 

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Ninfomaníaca Volume I

A partir das cenas dos “próximos capítulos” que passa junto com os créditos finais da primeira parte (o filme tem cinco horas e meia de duração e foi dividido em duas partes, cinco capítulos na primeira, três, na segunda), Nymphomaniac Volume I não passa de uma introdução. Uma introdução profunda, repleta de interessantíssimas metáforas e paralelos sobre o sexo, em suas mais variadas etapas da vida e situações (além de inusitadas, até engraçadas, intervenções de números, gráficos e imagens que mais lembram apresentações em Powerpoint).

Joe é a narradora de sua própria história. Encontrada machucada e desacordada na rua, sob a neve (ainda não sabemos por quê), por um homem mais velho que a acolhe em sua casa, objetos como um anzol, um quadro, um livro, um tocador de fita cassetes ou um garfo de bolos junto com um rugelach (“que é um croissant e nunca deveria ser servido com garfos de bolo”, na opinião de Joe) despertam nela lembranças de sua infância e adolescência, que ela conta, sempre de forma autopunitiva, para Seligman, esse homem cultivado, com nome judeu mas não religioso, pragmático, e para quem a moral não tem muito peso (“If you have wings, why not fly?”).

Apesar de estar escrito no cartaz do filme a frase “Forget About Love”, sexo e amor estão sempre se cruzando, seja quando ela ainda adolescente cria com as amigas uma seita com regras claríssimas para se rebelar contra o amor romântico (só se pode sair uma vez com cada homem) cujo lema é mea vulva maxima vulva, seja quando ela passa a sentir um interesse além do sexual com Jerôme (Shia LaBeouf, que se consolida como o galã mais sexy e atrevido do cinema atual), ou ainda quando seu vício em sexo (em alguns momentos de sua vida ela transa com dez caras diferentes por noite) acaba por influenciar casamentos alheios, gerando problemas que acabam por render uma incrível cena com Mrs. H (interpretada por Uma Thurman).

Para Joe, sexo é prazer físico, é fonte de alívio para situações difíceis, é fuga, faz parte de um jogo de poder e sedução com o sexo oposto, é o preenchimento de um vazio existencial. E, apesar de, para ela (pelo menos até essa parte da história), o sexo ser algo que lhe traga mais angústia que felicidade, em diferentes proporções, não vejo muita diferença no papel que o sexo exerce em nossas vidas no mundo de hoje.

“Perhaps the only difference between me and other people is that I’ve always demanded more from the sunset. More spectacular colors when the sun hit the horizon. That’s perhaps my only sin.”

Aguardando ansiosamente o Volume II.

ShiaLaBeouf_Jerome_Nymphomaniac

Shia LaBeouf como Jerôme

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Um Estranho no Lago

Atenção: esse texto contém spoilers. Um Estranho no Lago poderia se chamar La “pégation” sur l’herbe, uma alusão ao quadro O Almoço na Relva de Édouard Manet que deu início ao colorido movimento impressionista. Mas, em alguns minutos de filme, a leveza da pegação descompromissada, o naturismo sob a luz do verão e a tranquilidade da água do lago — onde homens gays  passam seus dias a nadar, tomar Sol e passear pelo bosque atrás de sexo casual —, dá lugar à tensão da perigosa atração que Franck (lindinho), o protagonista, passa a sentir por Michel, depois de vê-lo matar por afogamento um garoto com quem saía. Em alguns grupos sociais, é comum que mulheres e homens gays  se apaixonem por homens perigosos, que, muitas vezes, colocam sua vida em risco. Ainda mais quando o homem perigoso é lindo e atraente, como no caso de Michel. E, assim como uma namorada de traficante, Franck passa a ser cúmplice do crime, seja mentindo para o Ver Mais →

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São Paulo em Hi-Fi

Festas nababescas. Em 1976, Wilza Carla chegou à Festa da Broadway na Medieval vestida de odalisca sobre uma elefoa. Repito: a atriz Wilza Carla, vestida de odalisca, desceu a Rua Augusta — não de carro ou ônibus ou carruagem ou cavalo, mas — em cima de um ELEFANTE para chegar a uma festa. Darby Daniel, fantasiado de Branca de Neve, era carregado por sete anões dentro de um caixão de vidro enquanto um príncipe sobre um cavalo branco o aguardava na porta da boate. Já Kaká di Polly não precisava de grandes eventos para suas chegadas triunfais. Num carro conversível tomando champagne, jogando seu casaco de pele branco sobre uma poça de água para pisar no chão e não molhar seu sapato ou dentro do baú de um caminhão da Granero vestida de borboleta, o importante era chamar a atenção. Não havia limites para os excessos, estamos na era Disco. E era assim que as bichas chegavam à boate. Bicha poderosa era aquela que parava tudo.

Muito mudou na noite gay  de lá pra cá. Na Medieval, garçons usavam luvas e candelabros decoravam as mesas. Foi a primeira grande boate gay de São Paulo, inaugurada em 1971. Os shows, inspirados nos cabarés parisienses e na Broadway, atraía a alta sociedade paulistana e gente famosa. Diferentemente dos shows do Lido e do Moulin Rouge, as estrelas do palco da Medieval não eram mulheres, mas travestis e transformistas. No Village, os copos eram de cristal e o café da manhã era servido, às 6h da manhã, em bandejas de prata. Os gays se vestiam pra sair à noite: camisas, relógios e sapatos que “deslizavam” na pista eram o look du jour. Tudo acontecia no Centro da cidade. E numa era pré-internet, essas casas tinham um significado muito maior na vida de gays e lésbicas: eram local de identificação, de socialização, de segurança e, principalmente, de liberdade (O Brasil estava sob a ditadura e sair à noite para um lugar abertamente gay era um gesto muito mais transgressor do que hoje: prisões arbitrárias de gays eram comuns; transformistas não podiam andar com perucas na rua para não serem presas, tinham de carregá-las na mão).

Da Medieval à Corintho, inaugurada em 1985, o filme São Paulo em Hi-Fi, do cineasta Lufe Steffen, é um emocionante testemunho da noite ou, mesmo, da vida gay paulistana das décadas de 1960 a 1980, período que foi marcado por fases tão distintas como o glamour, o exagero e a liberação sexual (personificadas em figuras como Ney Matogrosso, Dzi Croquettes, David Bowie), até a chegada da AIDS no fim dos anos 1980 que marginalizou a comunidade gay de uma maneira muito triste e cruel. “Só os gays tinham, só os gays transmitiam”, em um dos depoimentos do filme. O preconceito ressurgiria em nível máximo.

Tudo estava começando: além da primeira boate (na década de 1960 não existia boate gay em São Paulo, olha só) foi nesta época que surgiram os primeiros grupos organizados para discutir os direitos gays; foi também quando o Celso Curi começou sua Coluna do Meio (no jornal Última Hora, sem pseudônimo, o que lhe rendeu um processo do Ministério Público por “união de seres anormais” por causa do seu Correio Elegante, em que gays  mandavam cartas para conhecerem outros gays); quando surgiu o jornal O Lampião da Esquina, um jornal tabloide assumidamente homossexual, que era distribuído do Amapá ao Rio Grande do Sul...

Outro ponto interessante do filme é ver a imagem dos entrevistados hoje e nas fotos antigas, novinhos, se divertindo, quando vivemos em uma época em que — não apenas no mundo gay — a juventude, o corpo, a imagem são os principais valores que cultivamos. “Éramos jovens, sabíamos dançar, nos vestíamos bem e achávamos que não morreríamos nunca”, nas palavras do jornalista Mario Mendes.

São muitas as cenas de shows da época e fotos dos acervos dos personagens que deram seus depoimentos. Além de um importante registro histórico da comunidade LGBT paulistana, São Paulo em Hi-Fi é um interessante recorte da história da cidade. De uma época em que o glamour, o sonho e a fantasia, pelo menos no mundo gay, eram realidade.

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As muitas faces de todos nós

Na era maniqueísta em que vivemos, ou você é lindo, do bem, “incrível” ou você é do mal; ou você é PT ou você é PSDB; ou você é preto ou branco – cinquenta tons de cinza, parece, só em literatura de qualidade duvidosa. É como se não tivéssemos todas as qualidades e defeitos em potencial dentro de nós. Eu, por exemplo, me percebo ora generoso ora egoísta; posso ser um grande amigo, mas também um chato insuportável. Depende da situação, do contexto, com quem. Por que os grandes homens, mesmo eles, seriam diferentes? E é interessante como isso reverbera nos nossos “ídolos”, seja com Mandela, com Gandhi, ou com Jesus. Todos são idolatrados e considerados seres “iluminados”. Mas, Mandela foi adepto da luta armada contra o regime racista (foi condenado à prisão perpétua por planejar ações armadas) e próximo de líderes comunistas (Castro, Guevara, Khadafi, Arafat, líderes que as potências ocidentais – e muitos de nós – desprezam); Gandhi, que nunca abaixou a cabeça, era simpático à jihad; e Jesus foi um revolucionário com “R” maiúsculo (“bem aventurados os pobres de espírito pois é deles o reindo dos céus”, ou ainda: “quão dificilmente entrarão no reino de Deus os que têm riquezas! Porque é mais fácil passar um camelo pelo fundo de uma agulha do que entrar um rico no reino de Deus.”). Todos eram obcecados com suas convicções e, talvez por isso, contribuíram imensamente com o curso da história. Mas fico pensando se a maioria das pessoas que hoje escrevem lindos textos sobre esses “mestres” inspiradores e imaculados gostariam de tê-los como empregados ou mesmo como amigos. Afinal, quem hoje em dia gostaria de pertencer à turma de um cara que anda com prostitutas e leprosos ou de outro que só vestia trapos?051256Na obra do artista italiano Marco Cianfanelli, construída em Howick, KwaZulu-Natal, na África, 50 colunas de aço de até 10 metros de altura espalhadas por 35 metros formam a imagem de Nelson Mandela quando observada de um ângulo específico. Para ver a escultura vista de outro ângulo, clique aqui.

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Racista, eu?

Escravizamos os negros para o bem dos nossos lucros. Com a riqueza gerada com base na privação de direitos, vontade própria e liberdade de 5 milhões de negros sequestrados na África (os que chegaram vivos, já que quase 700 mil vidas se perderam nos navios negreiros, sendo que alguns historiadores calculam que pode ter sido o dobro o número de escravos trazidos), durante 388 anos, construímos o nosso Estado, o nosso Brasil. A escravidão foi a base da vida econômica do império português na África e na América. E como eles trabalharam. Crescemos e construímos Estados melhores graças a eles, que trabalhavam 16 horas por dia, sem qualquer direito ou regalia. O Brasil foi o último país do mundo a abolir a escravidão. E foi assunto tão relevante que foi uma das causas da queda da monarquia. Quando os libertamos, os deixamos completamente desassistidos, sem as qualificações ou ajuda necessárias para que alcançassem o mesmo padrão de vida dos brancos. “Olha, nós te escravizamos, você não teve educação ou saúde, mas agora você está livre para ser feliz! Boa sorte aí! Se vira!” O resultado: marginalização, preconceito, discriminação, racismo. Até hoje. 70% das vítimas de assassinato no Brasil são negros (e muitos são mortos por quem deveria proteger a todos nós, a Polícia Militar). Não vemos negros nos grandes restaurantes, em altos cargos nas corporações ou morando em bairros de classe média alta como Jardins, Higienópolis, Itaim (basta uma caminhada num fim de semana ensolarado pelas ruas dos bairros). Será por quê? E, ainda assim, quando o assunto são as cotas para negros nas universidades, ainda ouvimos: “nós, brancos, alcançamos o sucesso com nossos esforços” ou “os negros estão onde estão por falta de força de vontade: se eles estudassem mesmo, não precisariam de cotas para entrar na faculdade”. O ESTADO que ESCRAVIZOU por quase QUATROCENTOS ANOS, tem SIM de criar políticas públicas para diminuir a desigualdade racial e social. O sistema de cotas para negros nas universidades pode não ser a solução ideal, mas é um caminho. É preciso olhar com carinho para a nossa história. Assim como a história do mundo é uma história das migrações, a história do Brasil é uma história das relações raciais.Rugendas_620

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Neue Galerie

Assim como a Frick Collection e a Morgan Library, a Neue Galerie é o resultado do sonho de um colecionador apaixonado. A única diferença é que Ronald Lauder, herdeiro do império Estée Lauder, aos 80 anos, ainda está vivo. A coleção que forma a Neue Galerie (“Galeria Nova”, em alemão, inspirada na Neue Galerie de Viena) apresenta e retrata, com obras importantes (é o maior acervo dos incríveis Gustav Klimt e Egon Schiele fora de Viena), o dinamismo e o vanguardismo da arte e do design  germânico (principalmente alemão e austríaco) do início do século 20. 

Pense em quadros, esculturas, cartazes e móveis de Klimt, Schiele, Wiener Wersktätte (sem a qual a Bauhaus ou o Art Déco talvez não tivessem existido), Kandinsky, Klee, Bauhaus, Blaue Reiter, Breuer, Ludwig Kirchner, Mies van der Rohe, elegantemente organizados num château  de cinco andares, projetado por Carrère & Hastings (os mesmos arquitetos da New York Public Library), em plena Quinta Avenida. Pense nos artistas nos cafés em Viena; pense nos cabarés em Berlin. Imperdível.

Serge Sabarsky, austríaco de Viena, grande amigo de Ronald Lauder, veio para Nova York em 1939. Em 1950, Herr  Sabarsky começou a colecionar arte e, em 1968, abriu uma galeria na Madison com a 77 especializada na arte expressionista alemã e austríaca. A coleção da Neue Galerie surgiu a partir da amizade de 30 anos dos dois, que compraram o château  em 1994, inaugurando a instituição em 2001. E é aqui que está um dos quadros mais emblemáticos — e com uma das histórias mais fascinantes do mundo da arte (saiba tudo clicando aqui) — de Gustav Klimt: Adele Bloch-Bauer I, de 1907, pela qual Mr. Lauder pagou US$ 135 milhões em junho de 2006. Outro marco é Berliner Strassenszene, do Ernst Ludwig Kirchner, de 1913 (as duas obras estão na galeria aqui no post). A Neue Galerie fica na Quinta Avenida, entre o Metropolitan e o Guggenheim (a três quadras de cada uma das duas instituições) e possui um delicioso café, o Cafe Sabarsky, com deliciosos pratos, sanduíches e ainda mais deliciosas tortas típicas alemãs (só atenção porque os horários da galeria e do Cafe são diferentes), e uma livraria que é um charme só.

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O mercado de arte e os curadores

I am thinking of course of that awful art world species: the curator. When I started writing about art, there were no curators. Now they are everywhere. They go to the same biennales; speak the same meaningless art language; and control the art world from within by privileging their creativity ahead of the artist’s. For 5,000 years art survived perfectly well without curators. Now they are its gate keepers. What we need is a revolution, akin to the impressionist revolution in 19th-century France. Just as the impressionists overthrew the salon and put artists back at the centre of the art world, so someone out there needs to overthrow the Tate empire. Come on Hackney. Rise up.Waldemar Januszczak, em uma carta para o jornal britânico The Guardian.

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Maria Callas who?

Uma senhora, no início dos anos 2000, entra numa loja de CDs e pede a uma jovem vendedora para ver os álbuns de Maria Callas. A jovem prontamente responde: “Vem cá, eu vou te mostrar, mas a pronúncia não é essa… É Maráia Kérry.” #HistóriasVerídicas

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Universo adolescente com a batida perfei...

Sua aparência e voz potente não são de uma garota de 16 anos. A neozelandesa Lorde lançou esse ano seu primeiro álbum The Love Club, e a música Royals já conquistou corações na Oceania, na Europa e nos Estados Unidos. Trata com fidelidade o tédio do universo adolescente: “(…) a verdade é, metade do tempo não estamos fazendo nada além de brincar com isqueiros ou esperar numa estação. Por isso, isso tinha de ser real. E eu estou nessa estação toda semana. Esses garotos são meus amigos…”.

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Décadence avec élégance

Nos idiomas latinos, como francês e português, a palavra decadência só tem como significado declínio, degradação, caminho para a ruína. É só em inglês mesmo que decadence, além de significar algo negativo, também significa excessiva e irrestrita auto-indulgência e satisfação sem limites de seus próprios desejos e caprichos, que, convenhamos, pode levar à ruína? Ver Mais →

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Picasso-ele-mesmo em diferentes fases

tumblr_mrw46zOdo61qanhszo1_1280 1896: Autoportrait mal coiffé, Barcelona, Óleo sobre tela, 32.7 x 23.6 cm, no Museu Picasso, Barcelona.tumblr_mrw46zOdo61qanhszo2_1280

tumblr_mrw46zOdo61qanhszo3_1280 1899: Self-portrait, Barcelona, Carvão sobre papel, 22.5 x 16.5 cm, no Museu Picasso, Barcelona.tumblr_mrw46zOdo61qanhszo4_1280 1901: “Yo”, Paris. Óleo sobre cartão, Mrs. John Hay Whitney Collection, New York.S0003423 Yo, Picasso (Self-Portrait), 1901. Oil on canvas, 29 x 23 7/8" (73.5 x 60,5 cm). Zervos XXI, 192. Image licenced to Elvira Allocati Scala Group S.p.A. by Elvira Allocati Usage :  - 2000 X 2000 pixels  © Art Resource, NY / Art Resource 1901: “Yo Picasso”, Paris, Óleo sobre tela, Coleção particular.tumblr_mrw46zOdo61qanhszo6_1280 1901: Self-portrait with Cloak, Paris, Óleo sobre tela, 81 x 60 cm, no Musée Picasso, em Paris.tumblr_mrw46zOdo61qanhszo7_1280 1906: Self-portrait with a Palette, Paris, Óleo sobre tela, 92 x 73 cm, no Philadelphia Museum of Art.tumblr_mrw46zOdo61qanhszo8_1280

tumblr_mrw46zOdo61qanhszo9_1280 1907: Self-portrait, Paris, Óleo sobre tela, 50 x 46 cm, Narodni Gallery, em Praga.tumblr_mrw46zOdo61qanhszo10_1280 1972: Self Portrait Facing Death, Mougins, 30 de junho de 1972, Lápis e crayon sobre papel, 65.7 x 50.5 cm, Fuji Television Gallery, em Tóquio.

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Kabuki-za V

Para quem gosta de artes, assistir a uma peça do gênero kabuki no teatro Kabuki-za é uma das experiências mais incríveis do Japão. O kabuki, junto com o no, o bunraku e o buto, é um teatro tradicional japonês que (apesar de – ou justamente por – ser luxuoso, assim como a ópera, era destinado às massas) surgiu no século 18. Todos os atores (homens, já que mulheres até hoje não são permitidas) estudam praticamente a vida inteira para especializar-se em um único tipo de papel (algo impensável para a nossa dramaturgia ocidental). Os tecidos são fabulosos; os gestos, exagerados ou elegantíssimos; a dramaticidade com que atuam é de tirar o fôlego (não se consegue imaginar tamanha “intensidade” ao ver a placidez e a delicadeza dos japoneses nas ruas de Tóquio).

Como é falado em japonês antigo, mesmo que você fale japonês, alugue um tradutor simultâneo (em vários idiomas) para entender as falas. O que é incrível é que pelo próprio fone (que você coloca em apenas um ouvido) você também escuta a peça ao vivo, o que é perfeito, já que a tradução não compromete negativamente a apreciação da peça.

As peças – ou conjunto de peças – têm geralmente 4 horas de duração com vários atos (a programação começa pela manhã e vai até à noite), mas também pode-se comprar ingressso para um único ato, ou em japonês makumi  (só que esses ingressos só dão direito de assitir a peça no último andar do teatro, lá no alto do quarto andar, o que compromete a vista). Se estiver com tempo (eu sei que é raro), compre o bilhete integral em um lugar melhor, porque você não vai se arrepender. Deixe-se levar e ser envolvido pela história. Só não se esqueça de alugar o tradutor, porque sem entender a história, a peça vira um nonsense  total (as histórias – mitológicas, de honra e amor – têm às vezes uma lógica muito própria :-)

O teatro, panteão do kabuki (todos os atores míticos passaram e estão aqui), foi inaugurado originalmente em 1889, mas um incêndio o destruiu em 1921, um terremoto destruiu sua tentativa de reconstrução em 1923, bombas o destruíram durante a Segunda Guerra Mundial em 1945, e sua última “destruição” foi em 2010 para ser reinaugurado em 2013 (por isso Kabukiza “V”: é a quinta “versão” do teatro) com toda a pompa, tradição e tecnologia sob a supervisão do starchitect  Kengo Kuma.

A não ser pelo prédio comercial de 28 andares construído atrás do teatro, as mudanças para o novo Kabuki-za foram mais estruturais que estilísticas. O teatro foi inteiramente destruído e reconstruído com as mesmas dimensões (mudou-se, no entanto, os materiais: todas as vigas que sustentam o teto, antes de madeira, e apesar de parecerem madeira hoje, são de alumínio); a sala de espetáculos possui exatamente as mesmas medidas, mas o fosso do palco está maior e as poltronas agora têm uma tela onde são exibidas informações sobre as peças e legendas; e o prédio do teatro hoje está melhor preparado para abalos sísmicos e, segundo Kuma-san, vai durar mais cem anos.

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I Want A Little Sugar In My Bowl

I Want A Little Sugar In My Bowl fez parte do álbum Sing The Blues, lançado em 1967, por Nina Simone, baseada em uma música de Bessie Smith. Uma das minhas músicas prediletas.

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Português é muito mais divertido em Portugal

Eu já tinha ouvido Amsterdão (para Amsterdam), Ilhas Caraíbas (para Caribe), mas hoje eu li Nova Jérsia (para New Jersey) e Bordéus (para Bordeaux)*. Os portugueses definitivamente se divertem muito mais com a língua portuguesa do que a gente.

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E falando em juventude vazia e perversa…

Escrevendo sobre The Bling Ring, dessa juventude vazia de sentido, cínica e perversa, me lembrei de um livro que marcou meus 20 anos: Hell Paris 75016, da escritora francesa – que viveu elle même  as drogas, a noite, o consumismo desenfreado da jeunesse dorée parisienne, Lolita Pille. Pra reviver — porque Hell  é como Lolita  do Nabokov, o começo dá completamente o tom do livro — segue o primeiro parágrafo, em tradução livre:

“Eu sou uma vagabunda. Daquelas que você não suporta; da pior espécie, uma vagabunda do 16éme (bairro chique de Paris), mais bem vestida que a amante do seu chefe. Se você é garçom de um lugar ‘da moda’ ou vendedor de uma boutique de luxo, você, sem dúvida, me deseja a morte, a mim e aos meus amigos. Mas não se mata a galinha dos ovos de ouro. E minha espécie insolente perdura e se prolifera… (…) Eu sou um produto da geração Think Pink, meu credo: seja bela e consuma.”

São Paulo, 21 de agosto de 2013. 

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The Bling Ring

Elas falam Balmain, Chanel, Birkin com a mesma intimidade com que elas falam de suas amigas mais próximas. The Bling Ring seria cômico se ele não fosse um filme que refletisse exatamente os valores invertidos da sociedade em que a gente vive. Principalmente da elite cool, sempre admiradora do dinheiro e do poder cujas procedências nunca são consideradas desde que a “imagem” dos poderosos du jour  e sua companhia renda boas fotos no Facebook e no Instagram, tragam influência entre os pares e sirvam aos seus interesses. (Aliás, nada importa a não ser o dinheiro: a pessoa pode ser mal educada, corrupta, insuportável; a entourage  será sempre fiel até o dinheiro acabar.)

Sofia Coppola em Bling Ring, nome dado à quadrilha de jovens de classe alta que invadem as mansões das celebridades que admiram para roubar-lhes as roupas e os acessórios que eles sempre sonharam em consumir, está menos “silenciosa”, mais rápida no ritmo do filme, mais didática Ver Mais →

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Ferrugem e Osso

A história tinha tudo para ser contada de uma maneira piegas e beira o fantástico: o amor entre um boxeador bonitão – e garanhão – desempregado que se envolve em negócios escusos com uma treinadora de orcas que perde as pernas em seu trabalho num acidente. Mas, as cenas são lindas (inclusive as cenas cheias de violência e as cheias de amor), intensas e repletas de nuances; o filme é contado de uma maneira real, humana e delicada; Marion Cotillard e Matthias Schoenaerts se consolidam como dois gigantes do cinema francês (apesar de Schoenaerts ser belga); o que faz de Ferrugem e Osso (De Rouille et d’Os ) um grande filme; mais um para a cinematografia do diretor Jacques Audiard.

A história de Alain (Schoenaerts) e Stéphanie (Cotillard) se desenvolve através de encontros/momentos de dor e só se torna possível graças a ela. E, apesar de durão, Ali – como é chamado pelo filho – é um homem generoso e amoroso, responsável por inúmeros momentos de sensibilidade e delicadeza.

Filmaço.

São Paulo, 11 de agosto de 2013. 

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A Single Man

Robes de cashmere, casas ao melhor estilo Wallpaper* (já a de Charlie lembra a casa de Frances Brody, também em Los Angeles), taças de cristal Saint Louis, guarda-roupa Tom Ford men’s wear, cigarros rosa Ben Sherman, linda papelaria. A Single Man  é tudo o que a gente poderia esperar de um filme assinado por um dos grandes nomes da moda comercial dos últimos quinze anos (e hoje uma das coisas mais interessantes na moda masculina).

A história (baseada no livro homônino escrito por Christopher Isherwood, um dos primeiros romances do movimento de liberação gay  da década de 1960) pode parecer um pouco panfletária, datada, em tempos de superexposição gay  (apesar de muitos gays  ainda enfrentarem os mesmos tipos de medos e problemas), e não tem como pensar, em alguns trechos, que estamos assistindo a um comercial de perfume (a gente fica esperando aparecer “The new fragrance by…” a qualquer momento). Mas Tom Ford (por ele mesmo), Colin Firth (em interpretação sutil e intensa à la fois ), Julianne Moore (linda e cada vez mais expert  em interpretar histéricas; sua risada nervosa é sempre imperdível), a lindíssima trilha sonora (vale a pena comprar) e o clima sexy  de muitas cenas fazem de A Single Man  um filme especial e um favorito (como Gosford Park  do Altman). Ver Mais →

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Cine Caixa Belas Artes abre em maio

O mais legal da cerimônia de anúncio ontem (28 de janeiro) foi ver que, se não fosse a mobilização dos ativistas do Movimento Cine Belas Artes, o cinema teria sido apenas mais um espaço emblemático da cidade fechado para dar lugar a uma igreja ou a uma loja (bem mais lucrativos que um cinema que se dedica a filmes não blockbusters). A galera incomodou BASTANTE todos os atores do processo durante esse tempo, promovendo a abertura do processo de tombamento, CPI, audiências, abaixo-assinados. Mas, depois de três anos (fechou em março de 2011), o Cine Caixa Belas Artes reabre em maio. Além da parceria com o Riviera (o Sturm já está conversando com o Facundo), o cinema vai ter ingressos 20% mais baratos que os cinemas da Paulista (pipoca e doces também mais baratos), meia entrada para todos os trabalhadores às segundas-feiras, acesso das escolas públicas ao cinema (com custos de transporte e alimentação garantidos pelo programador), além de ter uma sala só dedicada aos filmes brasileiros, que têm conseguido financiamento para produção mas não têm onde exibir os filmes, olha só. E voltam os “noitões”, com exibição de filmes durante toda a madrugada nos fins de semana com direito a café da manhã no final. No mais, os “valores de fundação” do Cine Ritz (primeiro nome do Belas Artes), aberto em 1943, seguem os mesmos: “Espetáculo, polêmica e cultura”, cinema que provoca debate e reflexão. Tem como não amar?

São Paulo, 29 de janeiro de 2014. 

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Bastardos Inglórios

É Quentin Tarantino. É bom. O recorte histórico é interessante. Tem que ver. //Apesar de retratar um dos momentos mais negros e cruéis da nossa história, Inglorious Basterds é ensolarado (sua luz quente nos transporta ao Midi francês), inteligente (com texto multilíngue afiado e um interessante recorte da história da Alemanha nazista – e sim, esses judeus rebeldes que assassinavam nazistas existiram), escrachado e cínico (características do cinema tarantiniano), e ainda nos oferece a possibilidade – essa que é uma das qualidades da ficção – de fazer pensar – e ver – um final que muitos de nós gostaríamos de ter visto: a queda do nazimo pela vingança do povo que sofreu suas atrocidades.

Tudo bem que esses judeus são norte-americanos (sempre eles, os justiceiros do Cinema e da História); usam tacos de baseball  para fazer justiça; Tarantino (para não perder o costume) dá seu toque western  através das fontes do letreiro e de algumas músicas (adoro, principalmente num filme que trata de assunto que não tem nada a ver); falam um inglês repugnante (aquele dos estados do Sul dos Estados Unidos) em contraste marcante com a elegância, a postura e a erudição de europeus poliglotas (com exceção dos alemães nazistas, claro). Mas Quentin Tarantino, talvez um dos símbolos-mor – e produto – dessa cultura de massa norte-americana, faz de seu Inglorious Basterds ainda mais interessante ao trazer para o filme o mundo e a estética do cinema alemão da época – o da propaganda política – e discutir a obra de Leni Riefenstahl, citar diretores alemães (engajados ou não), e, na sequência final, fazer uma referência à Veronika Voss de Fassbinder.

A sensação ao assistir ao filme é a de que Tarantino chega à maturidade. Diferente de seus filmes anteriores (exageradamente vulgares, repulsiva e explicitamente violentos, e apresentando uma forma de arte atraente mas discutível, e que sempre gera debates calorosos), Inglorious Basterds é um belo filme que favorece o roteiro, os diálogos, e em que a violência – claro que ela está lá; sempre explícita – é apenas um acessório. Definitivamente, um turning point  na carreira de Quentin Tarantino.

I know this is a silly question before I ask it, but can you Americans speak any other language besides English?” Bridget von Hammermark, atriz alemã interpretada por Diane Kruger

Outras curtas observações:
— É até engraçado ver o nome de Brad Pitt como protagonista da história. Quem leva o filme do começo ao fim é o coronel inteligente, bonachão e cínico ao extremo, Hans Landa (interpretado por Christoph Waltz).
— Mike Myers, irreconhecível, faz uma ponta no filme como um alta-patente do exército britânico.
Kitsch a perder de vista a roupa da linda tradutora franco-italiana Francesca Mondino durante o almoço de Goebbels.
Elenco cheio de charmosões (Brad Pitt, Eli Roth, Michael Fassbender, Til Schweiger, Denis Menochet, Gedeon Burkhard e vários figurantes alemães).
— Linda e épica a cena final com a imagem de Shoshanna reproduzida na fumaça.
— Por que “Inglorious BastErds” ao invés de BastArds? Quentin Tarantino não explicou e disse que não vai explicar.

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Estreia de Attila no Met, em Nova York

Uma première  está sempre cercada de ansiedade por parte daqueles que dela participam. Ainda mais quando Miuccia Prada estreia assinando figurinos para uma ópera, Herzog & de Meuron – ganhadores do Pritzker Prize 2001, o Oscar da arquitetura – idealizam a cenografia, Pierre Audi dirige a cena e o maestro Riccardo Muti conduz a música. E a estreia da nova montagem de Attila no Metropolitan Opera de Nova York (Met, para os íntimos) não fugiu à regra das noites operísticas. Débuts, acertos, bravos e vaias, marcaram a noite de 25 de fevereiro.

A estreia de Attila, em 1846, no teatro veneziano La Fenice (reaberto em 2003 depois de uma grande reforma), não foi diferente. A nona ópera de Giuseppe Verdi surgiu como uma composição jovem e com vigor patriótico mostrando nuances humanas dos personagens, característica que permearia todas as obras e definiria o estilo do compositor. Os críticos inicialmente não apreciaram a obra, que conta a história do impiedoso rei huno e de sua invasão ao Império Romano no século 5 d.C., mas sua energia patriótica contaminou as massas em performances por toda a Itália, no contexto político do Risorgimento (movimento que buscou a unificação da Itália que, na época, era um grupo de pequenos estados submetidos a potências estrangeiras).

O maestro Riccardo Muti demonstrou por que, ao longo de quase 20 anos, conseguiu a façanha de reger o Scala de Milão – sendo quase um déspota, porém, esclarecido. Sua estreia no Met  foi ovacionada desde que o napolitano deu seus primeiros passos rumo à orquestra. Sua regência foi leve, sutil e impressionou ao atrelar com maestria a orquestra, os cantores e o coro. Foi aplaudido de modo curioso pela plateia que, ao final da récita, fez questão de demonstrar que as vaias conferidas à montagem a ele não se dirigiam.

Passagem especial de sua regência foi a ária Avrai tu l’universo, resti l’Italia a me!  (“Você pode ficar com o universo, mas deixe a Itália para mim”), que possui significado especial para todos os italianos. E dá para imaginar o quanto tal reivindicação comoveu o público em 1846, quando a Itália ainda estava sob a égide francesa e austríaca e clamava por sua tão almejada autonomia política. Na estreia da ópera, a performance teve que ser interrompida inúmeras vezes, tamanha a comoção do público veneziano.

O figurino idealizado por Signora  Prada impressionou a plateia jovem do Met, que se maravilhou com o capacete luminoso de Attila, o vestido amarelo reluzente de Odabella, a capa de couro portentosa do general romano Ezio, o branco cativante das vestes do Papa Leo I, acompanhadas, é claro, dos sapatos vermelhos que a Prada confecciona para o atual Papa Bento 16. Entretanto, a tentativa da designer  de contextualizar os figurinos de modo mais jovial, moderno e direto, não foi unanimemente bem recebida pela tradicional plateia. O New York Times, por exemplo, comparou o look  de Odabella à Marge Simpson e o capacete reluzente de Attila a um artefato espacial.

Ainda mais controvérsia gerou os cenários by Herzog & de Meuron e a direção de Pierre Audi que, ao entrarem no palco, foram vaiados de pé por parcela significativa do público. Tais vaias também foram ouvidas na première de Tosca, que contou com cenários ousados e abordagens pouco ortodoxas quanto à direção de cena. Sem querer entrar nas vicissitudes da montagem de Tosca, nota-se que há algo em comum entre as duas montagens, o que pode ter despertado a repulsa do público nova-iorquino.

Ambas as montagens afastaram-se do modelo tradicional de encenação, que segue à risca a descrição dos libretistas e compositores quando da elaboração do libretto, realçando nuances que constam no texto, mas que não são tão óbvias à primeira leitura. E tal movimento, em uma plateia acostumada a irrestritamente aplaudir as montagens não tão ousadas do italiano Franco Zeffirelli, pode não ser bem-vindo.

A ÓPERA
Attila começa a ser encenada em cima dos escombros da cidade romana de Aquilea. Os cantores cantam a quase 5 metros acima do nível do palco, cercados por expressiva destruição. Tal cenário oprime, sufoca, impressiona. Condizente, portanto, com a aniquilação de uma cidade. O segundo e terceiro atos ocorrem no acampamento de Attila, retratado por Herzog & de Meuron como uma densa floresta, cujas cores e exuberância mais remetem à floresta amazônica do que a uma floresta temperada italiana. As escolhas de certo modo limitaram o jogo de cena entre os personagens, pois realçam a exuberância das cercanias do acampamento de Attila, mas não se constrói uma relação direta com a psique dos personagens. Nas palavras de Herzog & Meuron: “Nossa abordagem restringiu-se às descrições que Verdi apoiava: destruição, ruína, lagoas, florestas e escuridão – tudo abordado de modo naturalista”.

Interessante notar que na noite seguinte à première  de Attila assisti a La Bohème, com cenários de Franco Zeffirelli. O retrato fidedigno de Paris maravilhou a plateia. A cada mudança de cena, as senhoras que me cercavam ecoavam um longo “Ahhh” e aplaudiam. Zeffirelli sabe como poucos retratar o belo, que muitas vezes em suas mãos se torna óbvio. Acredito que suas montagens foram e são fundamentais para o mundo da ópera, que é um gênero artístico capaz de contemplar tanto o tradicional quanto o novo. Importante, contudo, não se esquecer do novo.

Por Paulo Guimarães

Nova York, 18 de março de 2010.

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A Fita Branca

Apenas assistindo ao filme, parece que o diretor austríaco Michael Haneke não teve nenhum outro objetivo a não ser narrar estranhos acontecimentos num vilarejo alemão um pouco antes da eclosão da Primeira Guerra Mundial. Ficamos esperando um desfecho à la Dogville, a tragédia maior, que os responsáveis por tais acontecimentos sejam descobertos e punidos. Mas, assim como na vida, não há uma verdade, não há uma solução. Somos cúmplices dos personagens. Nosso conhecimento acerca dos fatos é tão limitado quanto o deles.

O filme é lento, escuro, apesar da esplêndida fotografia e da força dos personagens infantis (o casting  envolveu mais de sete mil crianças). Klara, a filha do pastor e seu irmão, Martin; Eva, a noiva do professor; e Anna, a filha do médico, são os destaques, assim como o figurino e a elegância da Baronin.

A beleza é reforçada pelas imagens em preto-e-branco (o diretor quis acessar nossa memória coletiva formada através das imagens da época a que temos acesso). O clima é denso, não há trilha sonora (apenas a música tocada por personagens em algumas situações), e o tema do filme é a punição: a educação, a instituição da disciplina e mensagens através do castigo (e, interessantemente, não há sentimento de culpa ou remorso expressado nos rostos dos personagens). Dos mais fortes aos mais fracos, dos mais fracos aos mais fortes e até àqueles que não têm condições de se defender. Cada um pune – educa, manipula – da maneira que pode. E sendo as crianças de hoje os adultos de amanhã e os adultos as crianças de ontem, no fim das contas, quem são as vítimas?

É exatamente aí – nas discussões e especulações fora das telas – que A Fita Branca se torna realmente interessante (claro, o filme também impressiona pela maneira com a qual o diretor conseguiu traduzir a alma germânica em algumas cenas, como quando o pai pastor marca hora para açoitar os filhos no dia seguinte – sem levantar a voz, sooo Deutsch – ou quando o médico humilha a parteira, sua companheira – alguns alemães quando não gostam de alguém ou querem acabar com um relacionamento são capazes de uma sinceridade cruel – sempre sem levantar a voz).

Ganhador da Palma de Ouro em Cannes (2009), de melhor filme estrangeiro no Globo de Ouro (2010) e favorito ao Oscar de melhor filme estrangeiro, Das Weisse Band, num primeiro momento, trouxe à tona a questão da sociedade e dos valores que deram origem à Alemanha nazista (alguns comentaristas até chegaram a fazer uma alusão das fitas brancas que o pai amarra nos seus filhos mais velhos à marcação feita nos judeus nos campos de concentração). As crianças da época do filme eram os adultos das décadas de 1930 e 1940, quando da ascensão do nazismo e da eclosão da Segunda Guerra Mundial. E não custa lembrar que, apesar de hoje a Alemanha sentir vergonha do seu passado, os ideais de Hitler refletiam o pensamento de seu povo à época.

Mas, logo depois, Herr Haneke, em duas entrevistas (à Folha de São Paulo e à New Yorker), esclareceu suas motivações. A seguir, reproduzo – numa colagem e em tradução livre – suas palavras: “Quis tratar da educação que impõe valores absolutos às crianças, que acabam por interiorizá-los. Quis mostrar que, se têm o caráter formado a partir de um princípio absoluto, elas se tornam inumanas. Cada ato terrorista, cada manifestação de fanatismo, seja ele político, religioso ou de outra natureza, é alimentado por essa fonte de intransigência. Qualquer ideia se torna perversa se tem o autoritarismo como ponto de partida. Esse é um tema universal, que não tem ligação direta com a problemática alemã. O filme não é sobre nazismo. Você poderia fazer o mesmo filme – de uma forma totalmente diferente, é claro – sobre os muçulmanos de hoje. Sempre há alguém em uma situação de grande aflição que vê a oportunidade, através da ideologia, de se vingar, de se livrar do sofrimento e consertar a vida. Em nome de uma idéia bonita você pode virar um assassino.

Mas que as crianças podem ser cruéis, ardilosas e dissimuladas, ah, elas podem. Não é mesmo, Klara?

São Paulo, 23 de fevereiro de 2010. 

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Milk

No começo do filme chocam as cenas reais, de apenas 30 anos atrás, de homossexuais bem vestidos e extremamente constrangidos sendo presos em bares gays através das frequentes batidas policiais nos Estados Unidos da América — país em que palavras como liberdade, igualdade e democracia já fazem parte dos valores do Estado desde a Declaração da Independência, de 1776.

Assim como outros filmes mais autorais e menos comerciais que fizeram o Oscar 2009, Milk leva a assinatura de Gus Van Sant, diretor gay  assumido que sempre esteve em destaque nos festivais de cinema independente. Mas Milk não é um filme autoral. Sem grandes ousadias cinematográficas, Gus Van Sant se preocupou apenas em contar bem a história de Harvey Milk, o primeiro gay assumido a conquistar um cargo público na história dos Estados Unidos — e também continuou a tradição hollywoodiana de atores heterossexuais galãs para interpretar papéis gays; depois de Jake Gyllenhall e Heath Ledger, em Brokeback Mountain; Tom Hanks e Antonio Banderas, em Philadelphia; Rodrigo Santoro, Jim Carrey e Ethan McGregor, em I Love You Philip Morris. E consegue: o elenco (de Sean Penn a Anne Kronenberg, passando por Josh Brolin, James Franco — sempre lindo, até de cabelo cacheado — e Diego Luna – quase irreconhecível), o figurino, a direção, a trilha sonora e as cenas reais (das passeatas e das declarações fundamentalistas da imaculada homofóbica Anyta Bryant*) dão legitimidade à biografia, conseguindo recriar de maneira impecável a vibe da São Francisco antes da epidemia da AIDS, quando a Castro ainda era um bairro alternativo — e barato —, onde gays de toda a América conseguiam viver com mais liberdade.

O olhar mais “livre” de Gus Van Sant talvez se expresse na decisão de mostrar um “hero” humano e com defeitos (algo raro na tradição maniqueísta do cinema norte-americano). O filme mostra como Harvey se utiliza da imprensa para conquistar o que quer, como deixa seus relacionamentos em segundo plano, como está disposto a negociar votos com outros supervisores, e como — assim como todos nós — pode voltar atrás em alguns valores, sendo considerado hipócrita.

Quem deve assistir Milk? Os que acompanham a carreira desse grande ator que é Sean Penn, mas principalmente, os gays da geração pós-Stonewall (eu incluso) que não sabem como era a vida dos nossos semelhantes em um passado não tão distante e que não conhecem aqueles que lutaram e sofreram para que pudéssemos ser mais respeitados e tivéssemos a liberdade da qual desfrutamos hoje.

* Ao final do filme, são mostradas fotos acompanhadas de legendas contando o que aconteceu com cada um dos companheiros de Harvey e de seu assassino, Daniel White. Mas, o filme não mostra o que aconteceu com Anita Bryant. Para quem quiser saber, o Blog do Tony Goes fez essa pesquisa e publicou a resposta aqui.

São Paulo, 1 de março de 2009. 

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Filosofando com Voltaire

NGC4414_640_0 Estou lendo os deliciosos ensaios que compõem o livro Cartas Filosóficas, de Voltaire. Esse filósofo (ou não, já que alguns estudiosos não o consideram como tal por ele não ter criado um sistema filósofico – they’re sooo fussy ), poeta, dramaturgo e historiador francês; homem exemplar, grande ativista intelectual e que defendeu como ninguém a liberdade religiosa e uma justiça onde vários grupos que compõem a sociedade participem na criação das leis (não sendo mais impostas pelo Estado), ou seja, a justiça pluralista.

A vantagem de ler um livro de um filósofo-ensaísta do século 18, atento a tudo o que se passava em sua volta, como Voltaire, é que ele era contemporâneo de outros grandes homens que influenciaram o mundo como Isaac Newton, Jean-Jacques Rousseau e John Locke. E François-Marie Arouet (seu nome verdadeiro), com seu texto leve e inteligente, consegue tratar das idéias, das descobertas e de todos os embates filosóficos com uma intimidade de dar inveja.

Na décima quinta carta, quando Voltaire aborda o Sistema de atração dos corpos  de Newton (que nada mais é que a gravidade, essa força que nos faz manter os pés no chão, a Lua girando ao redor da Terra e a Terra girando em volta do Sol), comecei a pensar que, enquanto estamos aqui, em nossas estressantes vidas, correndo para comprar presentes de Natal, comparecendo a eventos sem fim, enfrentando trânsito e lojas lotadas, preparando o corpo e a pele para o verão (ou inverno, para quem vai esquiar) e já planejando o ano próximo, a Terra, esse planeta – minúsculo, se comparado a outros – com 13 mil quilômetros de diâmetro e pesando 5.972.000.000.000.000.000.000.000 quilos, está se movendo em um ritmo constante, programado, assim com outros milhões, bilhões, trilhões e infinitas galáxias, planetas, estrelas, cometas. Que força é essa (e põe força nisso) capaz de movimentar toda essa mega estrutura que existe desde sempre? Quantas hidrelétricas seriam necessárias para manter o movimento nonstop  dessa enorme massa?

A resposta ninguém sabe e nem acho que nossas mentes tenham sido projetadas para compreender tal questionamento. Mas que é interessante pensarmos que as nossas vidas, toda a nossa rotina, nossos sonhos, nossas desilusões, nossos amores, nossas ambições e mesmo o nosso corpo não tenham poder algum sobre todo esse vasto e indiferente universo, ah, isso é…

São Paulo, 20 de dezembro de 2007. 

Voltaire

Voltaire.

 

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O ano passado, onde?

L’Année Dernière à Marienbad  (em português, O Ano Passado em Marienbad ), é um dos filmes mais incompreendidos da história do cinema, apesar de extremamente belo e poético. O filme dirigido por Alain Resnais, uma das principais figuras da nouvelle vague  (movimento do cinema francês da década de 1960 formado por jovens autores que utilizavam o cinema para transgredir as regras do cinema mais comercial, com uma visão extremamente crítica da sociedade, propondo um “novo” cinema), ganhou o Leão de Ouro no Festival de Veneza de 1961 e foi indicado ao Oscar de Melhor Roteiro Original.

Num cenário luxuoso, entre châteaux  e jardins (da cidade de Marienbad, na República Tcheca, até Munique, na Alemanha – apesar de parecer que o filme se passa apenas num só local), três personagens sem nome (X, A e M) vivem uma história, ou uma “não-história”, que mistura o passado com o presente, a imaginação, a mentira com a realidade, revolucionando a narrativa clássica.

O filme é hipnótico, segue um ritmo onde parece que o tempo não existe, como se fosse um sonho, que tentamos saber o que é real e o que é apenas imaginação. Será que A realmente se encontrou com X no ano passado? Será que lhe prometeu que ela largaria seu marido M, para fugir com ele? Perguntas que ficam sem resposta.

Além de ser um clássico do cinema, O Ano Passado em Marienbad  nos deleita com uma fotografia linda, figurino impecável e a bela atriz Delphine Seyrig no papel de A.

Uns odeiam, outros amam. Para saber de qual lado você está não tem jeito: tem que assistir.

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