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Cinema


Paris para quem fala francês: Um roteiro além do...

Não é preciso falar qualquer idioma perfeitamente para apreciar grande parte das experiências nas viagens: as paisagens, a arquitetura, a gastronomia, os concertos, espetáculos de dança, as exposições (a maioria dos museus tem placas e legendas versadas para o inglês), as vitrines. Mas para se aprofundar na cultura local e absorver a visão de mundo dos nativos (quase sempre muito diferente da nossa, e essa é uma das partes mais enriquecedoras das viagens), seja lendo os artigos de opinião dos jornais sobre os assuntos do momento, os debates na televisão (e na França, é o que você mais vai ver ao ligar a TV), assistir às peças dos dramaturgos que fizeram a história do país e ler o livros que não foram traduzidos para o inglês — e ainda mais raramente para o português —, a fluência no idioma é essencial. E não há governo que invista tanto em cultura quanto o governo francês (talvez até por entender que esse é um dos grandes atrativos que nos faz voltar para a França tantas Ver Mais →

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Animais Noturnos: Existe beleza e poesia no sofrim...

A experiência no cinema é assistir a um filme em que a personagem lê um livro. Com o livro Tony & Susan, de Austin Wright, de 1993, que serviu de inspiração para o tenso filme de Tom Ford, você lê um livro sobre uma mulher que lê um livro. E se a história de Tony, protagonista do livro-dentro-do-livro Nocturnal Animals, vai ter a força de trazer à tona conflitos na protagonista do livro Tony & Susan, Susan (até por que o livro-dentro-do-livro  foi escrito por seu ex-marido e inspirado nela), as histórias de ambos vão fazer o mesmo com você. São várias as camadas interconectadas de realidade, de tempo (passado, presente, expectativa), de ficção (Jake Gyllenhaal interpreta ao mesmo tempo o escritor e o protagonista de sua obra), que nos fazem refletir sobre como não temos qualquer controle sobre as fatalidades da vida e até mesmo sobre nossas escolhas. Uma história difícil de ser contada em imagens Ver Mais →

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Revoluções africanas em mostra de cinema em São...

Mais do que estar in loco  viajando pelo mundo e conhecendo as paisagens, ainda não existe forma mais profunda de se viajar que através da literatura e do cinema, seja pela ficção ou pela realidade. É quando entramos nas casas e nas cabeças dos habitantes, quando conhecemos sua(s) história(s), sua intimidade, seu modo de pensar e sentir. E é por isso que eu estou apaixonado pelo festival de cinema — de recorte único — que estreia nesta sexta, dia 11 de novembro, no Cine Caixa Belas Artes. Com o nome África(s). Cinema e Revolução, os 36 filmes que fazem parte da programação, de diretores europeus e africanos, trazem um panorama sobre o cinema produzido em ex-colônias portuguesas (que não possuíam nem TV local), principalmente Angola, Moçambique e Guiné-Bissau, durante as revoluções, a independência da metrópole (só conseguida depois de outra revolução, a dos Cravos, que acabaria com a ditadura em Portugal), os processos pós-descolonização Ver Mais →

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Spotlight, quando gente de bem defende o indefens...

A minha vontade hoje era escrever “Apenas assistam a este filme que já é um dos melhores de 2016” e fechar a matéria com um ponto final. Em um momento quando negros, mulheres, transexuais, entre outras tantas vítimas de “invisíveis” injustiças sociais passam a ter suas vozes ouvidas, o filme Spotlight  vem tocar numa ferida sistêmica e nos fazer relembrar um escândalo que ficou nas nossas memórias como mais uma série de tristes manchetes. O filme de Tom McCarthy vem colocar rostos, nomes e mostrar os bastidores — e as dificuldades — da investigação do maior jornal de Boston, uma rica cidade dos Estados Unidos onde a Igreja Católica detém poder em todas as esferas da sociedade (da política à educação, passando pela justiça e pela vida da maioria de seus habitantes), que trouxe à tona o abuso sexual e sistemático de milhares de crianças por centenas de Ver Mais →

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A Dama Dourada

Não há quadro com história mais incrível no — difícil e muitas vezes obscuro — mundo das artes que Goldene Adele ou Woman in Gold, da fase dourada do pintor austríaco Gustav Klimt, cuja história é retratada no filme A Dama Dourada. Esse é o nome que o quadro recebeu quando foi roubado pelos nazistas para esconder o fato de que a retratada, a grande dame  da sociedade vienense Frau Adele Bloch-Bauer, era judia. São quase 100 anos entre a pintura do quadro em 1907, a morte repentina de Adele em 1925, o roubo do quadro pelos nazistas (junto com outras 67 grandes obras de arte da coleção de Ferdinand Bloch-Bauer, marido de Adele) em 1938, o começo do processo em 2000 e a restituição pela Justiça e venda para o colecionador Ronald Lauder, herdeiro do império de cosméticos Estée Lauder, em 2006, por 135 milhões de dólares; o maior preço pago por um quadro na história até então. O processo judicial complexo e inédito — com desfecho Ver Mais →

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Samba

Difícil não se lembrar dos papéis anteriores dos dois protagonistas de Samba: Omar Sy, que, numa continuação de Intouchables (Os Intocáveis) segue no papel de imigrante ilegal em território francês que, fofo que é, conquista os corações gauleses, e Charlotte Gainsbourg, que já na cena em que ela olha o negro alto e forte sem camisa (e também na cena final, na sala de reuniões), simplesmente NÃO DEIXA a gente não se lembrar dela como a ninfomaníaca depressiva que, no filme de Von Trier, protagonizou uma cena explícita de dupla penetração com dois negros — também africanos, também fortes (entre outros atributos) — na cena mais engraçada do filme. Se você conseguir ultrapassar essa barreira de memória recente, o filme dos diretores Olivier Nakache e Eric Toledano (os mesmos de Intouchables) vale por mostrar uma Paris quase turística (tem o Charles de Gaulle — e vários A380 da Air France —, tem La Defénse, a Torre Eiffel, o Canal Saint Martin, os telhados e suas Ver Mais →

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Saint Laurent, agora, por Bertrand Bonello

Ambos os filmes têm o mesmo tema e foram lançados em 2014. Mas tudo é mais bonito no Saint Laurent de Bertrand Bonello em comparação com o Yves-Saint Laurent de Jalil Lespert: os atores (Gaspard Ulliel!!! — lindo, pelado e em nu frontal —, Louis Garrel!!!, Aymelide Valade!, e mesmo Jérémie Renier, que acompanho desde As Rosas Selvagens, tem seu charme), os enquadramentos, a composição das cenas, os móveis design  do apartamento de Jacques de Bascher (o amante de Yves), a bela fonte que dá forma ao título do filme e que informa os anos em que as cenas se passam (meio à la Tom Ford, preciso dizer).

Como cinema também agrada mais. O Saint Laurent de Bonello, que não teve a aprovação do parceiro-de-toda-a-vida de Yves, Pierre Bergé, mas que teve o apoio de Henri-François Pinault, CEO da Kering, holding de luxo que hoje é dona da marca do estilista que revolucionou a maneira da mulher se vestir, é mais sutil e menos didático (só faz uma alusão à Dior), mais emblemático e menos romantizado que a versão de Lespert, que se Ver Mais →

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Budapeste e o filme de Wes Anderson

O filme O Grande Hotel Budapeste recria signos importantes do século 20. Logo na primeira panorâmica do hotel, há uma referência nem tão sutil ao sanatório alpino d’A Montanha Mágica, obra-prima do escritor alemão Thomas Mann. O volumoso livro é descrito como “uma viagem à decadência” pelo acadêmico Malcolm Bradbury. Tampouco é casual a escolha de Budapeste para o nome do filme: há óbvias coincidências históricas no enredo, já que Budapeste foi símbolo das grandes cisões europeias por quase todo o século 20 — notadamente, durante o entreguerras (período entre a Primeira e a Segunda Guerra Mundial) e a Guerra Fria (pós-Segunda Guerra até a extinção da URSS em 1991).

Até 1918, Budapeste foi também a segunda capital do extinto Império Austro-Húngaro (a primeira era Viena) e acabou por mais de dois séculos — seja como Império, seja como Hungria — oscilando entre as dominações do Oriente (Moscou) e do Ocidente (o eixo europeu, Berlim-Paris-Londres). Esmagada entre esses dois eixos de poder, buscou autonomia, fosse recorrendo ao nacionalismo chauvinista, fosse resistindo diretamente às diretivas soviéticas na Cortina de Ferro. Nesse sentido, o hotel e os personagens também metaforizam perfeitamente esse epicentro da geopolítica moderna, o Império Austro-Húngaro e os desdobramentos posteriores.

A começar pela própria ambientação do hotel, que salta do estilo faustoso, ainda que decadente do Império à quase assepsia do design socialista. Vale lembrar que trinta anos depois da Revolução Russa, em 1917, um terço da humanidade viveria sob regimes socialistas — incluindo a própria Hungria, de 1949 a 1989 — e o crescimento do ideário comunista como uma alternativa ao capitalismo era o maior temor das potências ocidentais. Nesse sentido, no hotel, vai-se dos lustres rococó ao padrão geométrico e abstrato das paredes. Sem falar no personagem Zero, que é uma das alegorias mais diretas ao Império Otomano, o “grande enfermo da Europa”, esfacelado no período entreguerras (o Império Otomano foi extinto em 1922) e que, gradativamente, vai ganhando poder geopolítico com a criação da República da Turquia.

Texto escrito por Ivo Yonamine, bacharel em Direito, tradutor, revisor e apaixonado por história. 

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Lucy, o filme, de Luc Besson

Descoberta na Etiópia em 1974, Lucy viveu há 3.200.000 anos e é o esqueleto mais antigo de um ancestral do ser humano já encontrado. Não casualmente é o nome do filme diretor francês Luc Besson — que a gente ama desde La Femme Nikita, de 1990, e O Quinto Elemento, de 1997 — e nome da personagem da cada vez mais apaixonante Scarlett Johansson. Mas é Lucy, a Hominini, que/quem abre o filme, bebendo água em um lago num planeta bem diferente do que conhecemos hoje.

Apesar de todas as nossas sofisticadas tecnologia, ciência e da nossa erudição, há infinitas questões da vida que seguem não respondidas e, diante da complexidade do Universo E das nossas emoções, várias vezes me perguntei se, talvez, o nosso cérebro simplesmente não fosse apto para entender ou formular as respostas para perguntas como Ver Mais →

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O Grande Hotel Budapeste

A primeira coisa que chama a atenção no filme são as proporções de tela que o diretor Wes Anderson escolheu para a exibição: 4:3 (ou 1,33:1), a “janela clássica” dos filmes 35 mm para retratar as cenas que se passam nos anos 1930; 1,85:1, usada nos cinemas americanos e ingleses a partir dos anos 1960 para as cenas de 1968; e 2,35:1, a “janela panorâmica” para as cenas que se passam em 1985 (a proporção widescreen padrão que o cinema usa hoje é de 2,39:1 ou 12:5). Apesar da decisão do diretor — que eu respeito —, o que eu queria mesmo, e muito, era ver o lindo The Grand Budapest Hotel numa enorme tela iMax, em 3D, e poder “entrar” no hotel, na cozinha da Mendl, no palácio de Madame Céline Desgoffe-und-Taxis, sentir o cheiro do L’Air de Panache

O filme é a história (sim, diferentemente de outros filmes do diretor esse tem uma história) da amizade que se desenvolve entre o lendário concierge charmosão Gustave H e o novo mensageiro, Zero, que conta para um escritor a vida de Monsieur Gustave durante a época de ouro do Grande Hotel de Nebelsbad na República Alpina Ver Mais →

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Marilyn Monroe deslumbrante antes de sua morte

Esse é um dos últimos vídeos de Norma Jean Mortenson, aka Marilyn Monroe, num teste de cabelo, maquiagem e figurino para o filme que ela estava gravando Something’s Got To Give, em 1962, que ficou incompleto com sua morte. O filme que ia ser estrelado por Monroe, Dean Martin e Cyd Charisse (as pernas mais belas do cinema), teve vários problemas. Monroe faltava às gravações, foi demitida, Dean Martin disse que só contracenaria com ela (quase foi demitido também). O negócio foi parar na Justiça com multas milionárias, Monroe foi readmitida, as gravações do filme iriam recomeçar no outono de 1962, mas ela, aos 36 anos de idade, não estaria viva para as gravações e o filme nunca seria terminado. Se alguém, ainda nos dias de hoje, tem alguma dúvida sobre a beleza estonteante e o sex appeal dessa mulher, o vídeo abaixo simplesmente acaba com todas elas.
Obrigado ao Rodrigo Vieira por ter compartilhado este vídeo e ter me encantado à meia-noite de uma quarta-feira.

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Her

Nunca acreditei em livre-arbítrio. Sempre achei que nós também funcionamos por algoritmos, esse código-equação cheio de regras que determina o funcionamento de programas de computadores; apenas com variáveis mais complexas. Enquanto nos softwares as regras talvez sejam mais lógicas, o nosso algoritmo traz variáveis como a nossa personalidade, o ambiente no qual crescemos, a relação que tivemos com nossos pais, as pessoas que encontramos ao longo da vida, as experiências acumuladas, as alegrias, as tristezas, nossos desejos, talentos, traumas. A maneira como vemos, vivemos, agimos e reagimos na vida é SÓ o resultado dessa equação. E essa fórmula está sendo constantemente alimentada: em cada notícia que lemos, em cada conversa, em cada troca. E não há como fugirmos dela. Bom, essa também é Samantha, o sistema operacional que divide com Theodore (interpretado por Joaquin Phoenix) o protagonismo do filme Her, que trata da Ver Mais →

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Por que os atores da Comédie Française usam o no...

Por que a Comédie Française, esta instituição cultural francesa fundada por Luís 14 e Molière em 1680 e que ocupa o mesmo prédio desde 1799, é o único teatro do Estado francês, o único teatro que tem uma companhia permanente de 63 atores contratados exclusivamente, que apresentam uma média de 850 peças por temporada-ano, em três salas (Richelieu, a sala mais bonita, o Vieux-Colombier e o Studio-Théâtre), com um repertório com mais de 3 mil peças de teatro (só as peças de Molière foram encenadas 33.400 vezes, de 1680 a 2009). Assim, quando eles são convidados para atuar em algum filme (e parece que isto está virando uma tendência, já que quase todos os atores da trupe, quando nas telas, concorrem aos prêmios de melhores atores do César), eles são dispensados temporariamente, mas não perdem o vínculo com a Comédie Française. Por isso, no filme Yves Saint Laurent, por exemplo, o protagonista Pierre Niney é sempre apresentado como “Pierre Niney de la Comédie Française”.

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Yves Saint Laurent

O roteiro — seja pela própria história do estilista seja por histórias próximas — a gente já conhece e se repete, se repete, se repete: talento genial lidando com as grandes pressões do mundo cercado por uma entourage  de colegas talentosos, lindos, ricos, michês e arrivistas, que curtem a vida adoidado (tudo bem, nem todo mundo tem Karl Lagerfeld na sua turma). E como se já não bastassem suas fragilidades, sofre ainda mais com os excessos de aditivos como drogas e álcool. Na narração de Pierre Bergé, companheiro mão firme que viveu por cinquenta anos com Yves Mathieu Saint-Laurent, o filme de Jalil Lespert começa com uma visita de Saint Laurent à sua família em sua Oran natal (Argélia francesa), logo que começa a despontar na carreira (já trabalhando na Maison Dior, onde foi contratado aos 19 anos). Logo em seguida, Pierre Bergé já idoso — e Saint-Laurent morto (ele faleceu em 2008) —, leiloa a belíssima coleção de arte que o casal amealhou ao longo da vida (repleta de obras compradas em pares, para os dois), no leilão da Christie’s que foi o grande destaque de 2009 e arrecadou quase 400 milhões de euros.

Se você não curte moda, vai ser difícil gostar do filme, que é bem a vida do dia a dia, nessa história nada original, super cronológica (a contratação e demissão de Yves da Maison Dior; o lançamento de sua maison haute couture; o vestido Mondrian de 1965; o lançamento do prêt-à-porter), sem grandes clímax, sem grandes emoções, nada nada nada Saint Laurent. Só dá uma animada quando entra a trilha na poderosa voz de Maria Callas, num dos desfiles mais deslumbrantes do mestre, na coleção de alta costura mais cara de sua história, intitulada Les Ballets Russes, do outono-inverno 1976. A cena foi gravada no Westin Hotel, onde o desfile aconteceu originalmente e com as roupas do arquivo da Fundação Yves Saint-Laurent.

O que vale a pena no filme, no entanto, além da moda e do luxo da vida de Saint-Laurent e Bergé, são as atuações dos atores da Comédie Française, Pierre Niney (ainda mais bonito que o Yves original) e Guillaume Galienne.

Agora, a gente aguarda a estreia (prevista para o fim do ano) de Saint Laurent, dirigido por Bertrand Bonello, apoiado pelo todo-poderoso François Henri-Pinault, CEO da Kering, conglomerado que é dono hoje da marca Yves Saint Laurent, que autorizou o uso da logomarca e dos desenhos de Yves e que o Pierre Bergé queria vetar.

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Ninfomaníaca Volume II

Se você assistiu ao Volume I e viu as “cenas do próximo capítulo” nos créditos finais e achou que o filme finalmente aconteceria no Volume II, sinto muito; por você e por mim. Ninfomaníaca Volume II segue denso, infantil, quase bobo em todas as análises cheias de referências eruditas e ordinárias (das fugas de Beethoven a nós de alpinismo, passando pelo Grande Cisma), mas sempre rasas e em associações nem sempre inteligíveis. A diferença é que Joe, a protagonista, que agora é mãe, passa a explorar os limites — os seus e os nossos em ver as cenas — do sexo (ainda que sem prazer), da sexualidade e da moralidade burguesa e hipócrita da sociedade (e a gente não tem uma cena como a Uma Thurman no Volume I que faz valer o filme). Sadomasoquismo (a propósito, essa seria a melhor sequência do filme com Jamie Bell interpretando K), sexo interracial (onde não só a cor da pele é diferente, mas a cultura do sexo e nem existe possibilidade de comunicação), pedofilia, virgindade, assexualidade são dos temas abordados e vividos física ou psicologicamente pelos personagens. E não sei se já estamos anestesiados pelas catarses dos grandes filmes de Lars von Trier (Dançando no Escuro, Dogville) e ele até tenta um desfecho tão inesperado quanto inverossímil, mas para cinco horas e meia de filme no total, Ninfomaníaca nos faz pensar que a provocação e a polêmica são as únicas formas que von Trier tem encontrado para garantir bilheteria para seus últimos filmes. :- \

A única questão que o filme aborda sobre a qual vale a pena refletir é: se Joe fosse um homem, viciado em sexo ou apenas safado, mulherengo, e tomasse as mesmas decisões de vida da personagem no filme, o sofrimento seria o mesmo?

Para ler sobre a minha esperança de um grande filme quando do lançamento do Volume I, clique aqui.

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Trapaça

Edward Ellington foi o maior compositor de jazz  da história. Negro numa América ainda institucionalmente racista e filho de dois pianistas, o “Duque”, como passou a ser chamado, não foi apenas um gênio musical, foi também um dos homens mais elegantes do século 20. Tinha controle total sobre sua imagem. Na sua fala sempre precisa e agradável, nunca se explicava, só se escondia. A persona que Duke Ellington criou para si e a música Jeep’s Blue — que “salva” várias vezes a vida de Sydney, personagem de Amy Adams — não poderiam ser melhor símbolo para o início do novo filme de David Russel, Trapaça (no original, American Hustler).

Trapaça não é apenas um filme de dois vigaristas que são forçados a colaborar com o FBI quando são pegos. É um filme que trata da luta e das sabotagens — com os outros e consigo — que desenvolvemos para sobreviver neste mundo, que não é para principiantes. Assumir uma nova identidade, criar esquemas ilícitos para ganhar dinheiro à custa da boa fé Ver Mais →

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O Lobo de Wall Street

Assim como na vida real, não, o bad guy  não se ferra no final. Moralismos à parte (muitos dos familiares dos envolvidos e pessoas prejudicadas pediram boicote ao filme), os valores por trás do modo de vida de Jordan Belfort, o rapaz simples que se tornou milionário em pouco tempo vendendo ações de empresas de fundo de quintal para pessoas humildes e ignorantes prometendo um futuro — não cumprido — de riqueza e prosperidade, são a base do sistema capitalista. Dos operadores de Wall Street às letras do funk-ostentação, na evangelização do dinheiro o importante é tê-lo. E demais é um limite que não existe.

O Lobo de Wall Street, novo filme de Martin Scorsese, quinta parceria entre o diretor e Leonardo diCaprio, é um filme cheio de energia, drogas, dinheiro (milhares de Benjamins  na tela), mulheres nuas, grifes, boy toys, sexo, orgias (no escritório, em casa, em aviões fretados); sem nenhum pudor, assim como os personagens (reais, devemos nos esforçar para lembrar). Muito bem contada (o filme é baseado na autobiografia homônima de Belfort lançada em 2008), não se sente as três horas de filme passarem.

DiCaprio está excepcional e entregue (especialmente nas cenas em que ele discute com Naomi sobre “Venice” e abusa da expressão corporal tentando chegar à sua Lamborghini branca; ah, ele também aparece pelado várias vezes e tem até uma vela vermelha — e acesa — enfiada em suas nádegas, pela Venice); Margot Robbie interpretando sua esposa é belíssima; e ainda contamos com a participação mais que especial — e com frases ótimas — de Joanna Lumley, a eterna socialite-and-addicted  de Absolutely Fabulous. #WeLoveYouForeverPatsy No quesito glamour, também é ótimo ver o figurino de Naomi (a esposa de Belfort no filme, que na vida real se chama Nadine), seguindo a moda grifada da época: os modelos Versace (na época by  Gianni) e o look  camisa de seda e bota da primeira coleção de Tom Ford para Gucci (outono-inverno de 1995).

Nos anos 1990, as pessoas que investiram no mercado de ações através da empresa de Jordan Belfort perderam US$ 250 milhões de suas economias. Em 1998, ele foi indiciado por lavagem de dinheiro e fraude. Pagou uma multa de US$ 110 milhões e cumpriu 22 meses de prisão. Hoje, ele está fora do mercado e é um palestrante motivacional. Continua rico e influenciando um monte de gente com o seu sucesso (e que o filme, já indicado ao Oscar, corrobora). Numa sociedade que tem o dinheiro como objetivo principal de vida, pessoas que conseguem ganhar muito em pouco tempo, mesmo prejudicando milhares de pessoas são sempre respeitadas, não importa o quão repugnantes elas sejam. Ainda mais com suas roupas impecáveis e o discurso sempre afiado e confiante.

TheRealWolfThe Real Wolf: o bonitão Jordan Belfort no auge dos negócios. 

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Ninfomaníaca Volume I

A partir das cenas dos “próximos capítulos” que passa junto com os créditos finais da primeira parte (o filme tem cinco horas e meia de duração e foi dividido em duas partes, cinco capítulos na primeira, três, na segunda), Nymphomaniac Volume I não passa de uma introdução. Uma introdução profunda, repleta de interessantíssimas metáforas e paralelos sobre o sexo, em suas mais variadas etapas da vida e situações (além de inusitadas, até engraçadas, intervenções de números, gráficos e imagens que mais lembram apresentações em Powerpoint).

Joe é a narradora de sua própria história. Encontrada machucada e desacordada na rua, sob a neve (ainda não sabemos por quê), por um homem mais velho que a acolhe em sua casa, objetos como um anzol, um quadro, um livro, um tocador de fita cassetes ou um garfo de bolos junto com um rugelach (“que é um croissant e nunca deveria ser servido com garfos de bolo”, na opinião de Joe) despertam nela lembranças de sua infância e adolescência, que ela conta, sempre de forma autopunitiva, para Seligman, esse homem cultivado, com nome judeu mas não religioso, pragmático, e para quem a moral não tem muito peso (“If you have wings, why not fly?”).

Apesar de estar escrito no cartaz do filme a frase “Forget About Love”, sexo e amor estão sempre se cruzando, seja quando ela ainda adolescente cria com as amigas uma seita com regras claríssimas para se rebelar contra o amor romântico (só se pode sair uma vez com cada homem) cujo lema é mea vulva maxima vulva, seja quando ela passa a sentir um interesse além do sexual com Jerôme (Shia LaBeouf, que se consolida como o galã mais sexy e atrevido do cinema atual), ou ainda quando seu vício em sexo (em alguns momentos de sua vida ela transa com dez caras diferentes por noite) acaba por influenciar casamentos alheios, gerando problemas que acabam por render uma incrível cena com Mrs. H (interpretada por Uma Thurman).

Para Joe, sexo é prazer físico, é fonte de alívio para situações difíceis, é fuga, faz parte de um jogo de poder e sedução com o sexo oposto, é o preenchimento de um vazio existencial. E, apesar de, para ela (pelo menos até essa parte da história), o sexo ser algo que lhe traga mais angústia que felicidade, em diferentes proporções, não vejo muita diferença no papel que o sexo exerce em nossas vidas no mundo de hoje.

“Perhaps the only difference between me and other people is that I’ve always demanded more from the sunset. More spectacular colors when the sun hit the horizon. That’s perhaps my only sin.”

Aguardando ansiosamente o Volume II.

ShiaLaBeouf_Jerome_Nymphomaniac

Shia LaBeouf como Jerôme

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Um Estranho no Lago

Atenção: esse texto contém spoilers. Um Estranho no Lago poderia se chamar La “pégation” sur l’herbe, uma alusão ao quadro O Almoço na Relva de Édouard Manet que deu início ao colorido movimento impressionista. Mas, em alguns minutos de filme, a leveza da pegação descompromissada, o naturismo sob a luz do verão e a tranquilidade da água do lago — onde homens gays  passam seus dias a nadar, tomar Sol e passear pelo bosque atrás de sexo casual —, dá lugar à tensão da perigosa atração que Franck (lindinho), o protagonista, passa a sentir por Michel, depois de vê-lo matar por afogamento um garoto com quem saía. Em alguns grupos sociais, é comum que mulheres e homens gays  se apaixonem por homens perigosos, que, muitas vezes, colocam sua vida em risco. Ainda mais quando o homem perigoso é lindo e atraente, como no caso de Michel. E, assim como uma namorada de traficante, Franck passa a ser cúmplice do crime, seja mentindo para o Ver Mais →

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São Paulo em Hi-Fi

Festas nababescas. Em 1976, Wilza Carla chegou à Festa da Broadway na Medieval vestida de odalisca sobre uma elefoa. Repito: a atriz Wilza Carla, vestida de odalisca, desceu a Rua Augusta — não de carro ou ônibus ou carruagem ou cavalo, mas — em cima de um ELEFANTE para chegar a uma festa. Darby Daniel, fantasiado de Branca de Neve, era carregado por sete anões dentro de um caixão de vidro enquanto um príncipe sobre um cavalo branco o aguardava na porta da boate. Já Kaká di Polly não precisava de grandes eventos para suas chegadas triunfais. Num carro conversível tomando champagne, jogando seu casaco de pele branco sobre uma poça de água para pisar no chão e não molhar seu sapato ou dentro do baú de um caminhão da Granero vestida de borboleta, o importante era chamar a atenção. Não havia limites para os excessos, estamos na era Disco. E era assim que as bichas chegavam à boate. Bicha poderosa era aquela que parava tudo.

Muito mudou na noite gay  de lá pra cá. Na Medieval, garçons usavam luvas e candelabros decoravam as mesas. Foi a primeira grande boate gay de São Paulo, inaugurada em 1971. Os shows, inspirados nos cabarés parisienses e na Broadway, atraía a alta sociedade paulistana e gente famosa. Diferentemente dos shows do Lido e do Moulin Rouge, as estrelas do palco da Medieval não eram mulheres, mas travestis e transformistas. No Village, os copos eram de cristal e o café da manhã era servido, às 6h da manhã, em bandejas de prata. Os gays se vestiam pra sair à noite: camisas, relógios e sapatos que “deslizavam” na pista eram o look du jour. Tudo acontecia no Centro da cidade. E numa era pré-internet, essas casas tinham um significado muito maior na vida de gays e lésbicas: eram local de identificação, de socialização, de segurança e, principalmente, de liberdade (O Brasil estava sob a ditadura e sair à noite para um lugar abertamente gay era um gesto muito mais transgressor do que hoje: prisões arbitrárias de gays eram comuns; transformistas não podiam andar com perucas na rua para não serem presas, tinham de carregá-las na mão).

Da Medieval à Corintho, inaugurada em 1985, o filme São Paulo em Hi-Fi, do cineasta Lufe Steffen, é um emocionante testemunho da noite ou, mesmo, da vida gay paulistana das décadas de 1960 a 1980, período que foi marcado por fases tão distintas como o glamour, o exagero e a liberação sexual (personificadas em figuras como Ney Matogrosso, Dzi Croquettes, David Bowie), até a chegada da AIDS no fim dos anos 1980 que marginalizou a comunidade gay de uma maneira muito triste e cruel. “Só os gays tinham, só os gays transmitiam”, em um dos depoimentos do filme. O preconceito ressurgiria em nível máximo.

Tudo estava começando: além da primeira boate (na década de 1960 não existia boate gay em São Paulo, olha só) foi nesta época que surgiram os primeiros grupos organizados para discutir os direitos gays; foi também quando o Celso Curi começou sua Coluna do Meio (no jornal Última Hora, sem pseudônimo, o que lhe rendeu um processo do Ministério Público por “união de seres anormais” por causa do seu Correio Elegante, em que gays  mandavam cartas para conhecerem outros gays); quando surgiu o jornal O Lampião da Esquina, um jornal tabloide assumidamente homossexual, que era distribuído do Amapá ao Rio Grande do Sul...

Outro ponto interessante do filme é ver a imagem dos entrevistados hoje e nas fotos antigas, novinhos, se divertindo, quando vivemos em uma época em que — não apenas no mundo gay — a juventude, o corpo, a imagem são os principais valores que cultivamos. “Éramos jovens, sabíamos dançar, nos vestíamos bem e achávamos que não morreríamos nunca”, nas palavras do jornalista Mario Mendes.

São muitas as cenas de shows da época e fotos dos acervos dos personagens que deram seus depoimentos. Além de um importante registro histórico da comunidade LGBT paulistana, São Paulo em Hi-Fi é um interessante recorte da história da cidade. De uma época em que o glamour, o sonho e a fantasia, pelo menos no mundo gay, eram realidade.

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The Bling Ring

Elas falam Balmain, Chanel, Birkin com a mesma intimidade com que elas falam de suas amigas mais próximas. The Bling Ring seria cômico se ele não fosse um filme que refletisse exatamente os valores invertidos da sociedade em que a gente vive. Principalmente da elite cool, sempre admiradora do dinheiro e do poder cujas procedências nunca são consideradas desde que a “imagem” dos poderosos du jour  e sua companhia renda boas fotos no Facebook e no Instagram, tragam influência entre os pares e sirvam aos seus interesses. (Aliás, nada importa a não ser o dinheiro: a pessoa pode ser mal educada, corrupta, insuportável; a entourage  será sempre fiel até o dinheiro acabar.)

Sofia Coppola em Bling Ring, nome dado à quadrilha de jovens de classe alta que invadem as mansões das celebridades que admiram para roubar-lhes as roupas e os acessórios que eles sempre sonharam em consumir, está menos “silenciosa”, mais rápida no ritmo do filme, mais didática Ver Mais →

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Ferrugem e Osso

A história tinha tudo para ser contada de uma maneira piegas e beira o fantástico: o amor entre um boxeador bonitão – e garanhão – desempregado que se envolve em negócios escusos com uma treinadora de orcas que perde as pernas em seu trabalho num acidente. Mas, as cenas são lindas (inclusive as cenas cheias de violência e as cheias de amor), intensas e repletas de nuances; o filme é contado de uma maneira real, humana e delicada; Marion Cotillard e Matthias Schoenaerts se consolidam como dois gigantes do cinema francês (apesar de Schoenaerts ser belga); o que faz de Ferrugem e Osso (De Rouille et d’Os ) um grande filme; mais um para a cinematografia do diretor Jacques Audiard.

A história de Alain (Schoenaerts) e Stéphanie (Cotillard) se desenvolve através de encontros/momentos de dor e só se torna possível graças a ela. E, apesar de durão, Ali – como é chamado pelo filho – é um homem generoso e amoroso, responsável por inúmeros momentos de sensibilidade e delicadeza.

Filmaço.

São Paulo, 11 de agosto de 2013. 

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A Single Man

Robes de cashmere, casas ao melhor estilo Wallpaper* (já a de Charlie lembra a casa de Frances Brody, também em Los Angeles), taças de cristal Saint Louis, guarda-roupa Tom Ford men’s wear, cigarros rosa Ben Sherman, linda papelaria. A Single Man  é tudo o que a gente poderia esperar de um filme assinado por um dos grandes nomes da moda comercial dos últimos quinze anos (e hoje uma das coisas mais interessantes na moda masculina).

A história (baseada no livro homônino escrito por Christopher Isherwood, um dos primeiros romances do movimento de liberação gay  da década de 1960) pode parecer um pouco panfletária, datada, em tempos de superexposição gay  (apesar de muitos gays  ainda enfrentarem os mesmos tipos de medos e problemas), e não tem como pensar, em alguns trechos, que estamos assistindo a um comercial de perfume (a gente fica esperando aparecer “The new fragrance by…” a qualquer momento). Mas Tom Ford (por ele mesmo), Colin Firth (em interpretação sutil e intensa à la fois ), Julianne Moore (linda e cada vez mais expert  em interpretar histéricas; sua risada nervosa é sempre imperdível), a lindíssima trilha sonora (vale a pena comprar) e o clima sexy  de muitas cenas fazem de A Single Man  um filme especial e um favorito (como Gosford Park  do Altman). Ver Mais →

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Cine Caixa Belas Artes abre em maio

O mais legal da cerimônia de anúncio ontem (28 de janeiro) foi ver que, se não fosse a mobilização dos ativistas do Movimento Cine Belas Artes, o cinema teria sido apenas mais um espaço emblemático da cidade fechado para dar lugar a uma igreja ou a uma loja (bem mais lucrativos que um cinema que se dedica a filmes não blockbusters). A galera incomodou BASTANTE todos os atores do processo durante esse tempo, promovendo a abertura do processo de tombamento, CPI, audiências, abaixo-assinados. Mas, depois de três anos (fechou em março de 2011), o Cine Caixa Belas Artes reabre em maio. Além da parceria com o Riviera (o Sturm já está conversando com o Facundo), o cinema vai ter ingressos 20% mais baratos que os cinemas da Paulista (pipoca e doces também mais baratos), meia entrada para todos os trabalhadores às segundas-feiras, acesso das escolas públicas ao cinema (com custos de transporte e alimentação garantidos pelo programador), além de ter uma sala só dedicada aos filmes brasileiros, que têm conseguido financiamento para produção mas não têm onde exibir os filmes, olha só. E voltam os “noitões”, com exibição de filmes durante toda a madrugada nos fins de semana com direito a café da manhã no final. No mais, os “valores de fundação” do Cine Ritz (primeiro nome do Belas Artes), aberto em 1943, seguem os mesmos: “Espetáculo, polêmica e cultura”, cinema que provoca debate e reflexão. Tem como não amar?

São Paulo, 29 de janeiro de 2014. 

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Bastardos Inglórios

É Quentin Tarantino. É bom. O recorte histórico é interessante. Tem que ver. //Apesar de retratar um dos momentos mais negros e cruéis da nossa história, Inglorious Basterds é ensolarado (sua luz quente nos transporta ao Midi francês), inteligente (com texto multilíngue afiado e um interessante recorte da história da Alemanha nazista – e sim, esses judeus rebeldes que assassinavam nazistas existiram), escrachado e cínico (características do cinema tarantiniano), e ainda nos oferece a possibilidade – essa que é uma das qualidades da ficção – de fazer pensar – e ver – um final que muitos de nós gostaríamos de ter visto: a queda do nazimo pela vingança do povo que sofreu suas atrocidades.

Tudo bem que esses judeus são norte-americanos (sempre eles, os justiceiros do Cinema e da História); usam tacos de baseball  para fazer justiça; Tarantino (para não perder o costume) dá seu toque western  através das fontes do letreiro e de algumas músicas (adoro, principalmente num filme que trata de assunto que não tem nada a ver); falam um inglês repugnante (aquele dos estados do Sul dos Estados Unidos) em contraste marcante com a elegância, a postura e a erudição de europeus poliglotas (com exceção dos alemães nazistas, claro). Mas Quentin Tarantino, talvez um dos símbolos-mor – e produto – dessa cultura de massa norte-americana, faz de seu Inglorious Basterds ainda mais interessante ao trazer para o filme o mundo e a estética do cinema alemão da época – o da propaganda política – e discutir a obra de Leni Riefenstahl, citar diretores alemães (engajados ou não), e, na sequência final, fazer uma referência à Veronika Voss de Fassbinder.

A sensação ao assistir ao filme é a de que Tarantino chega à maturidade. Diferente de seus filmes anteriores (exageradamente vulgares, repulsiva e explicitamente violentos, e apresentando uma forma de arte atraente mas discutível, e que sempre gera debates calorosos), Inglorious Basterds é um belo filme que favorece o roteiro, os diálogos, e em que a violência – claro que ela está lá; sempre explícita – é apenas um acessório. Definitivamente, um turning point  na carreira de Quentin Tarantino.

I know this is a silly question before I ask it, but can you Americans speak any other language besides English?” Bridget von Hammermark, atriz alemã interpretada por Diane Kruger

Outras curtas observações:
— É até engraçado ver o nome de Brad Pitt como protagonista da história. Quem leva o filme do começo ao fim é o coronel inteligente, bonachão e cínico ao extremo, Hans Landa (interpretado por Christoph Waltz).
— Mike Myers, irreconhecível, faz uma ponta no filme como um alta-patente do exército britânico.
Kitsch a perder de vista a roupa da linda tradutora franco-italiana Francesca Mondino durante o almoço de Goebbels.
Elenco cheio de charmosões (Brad Pitt, Eli Roth, Michael Fassbender, Til Schweiger, Denis Menochet, Gedeon Burkhard e vários figurantes alemães).
— Linda e épica a cena final com a imagem de Shoshanna reproduzida na fumaça.
— Por que “Inglorious BastErds” ao invés de BastArds? Quentin Tarantino não explicou e disse que não vai explicar.

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A Fita Branca

Apenas assistindo ao filme, parece que o diretor austríaco Michael Haneke não teve nenhum outro objetivo a não ser narrar estranhos acontecimentos num vilarejo alemão um pouco antes da eclosão da Primeira Guerra Mundial. Ficamos esperando um desfecho à la Dogville, a tragédia maior, que os responsáveis por tais acontecimentos sejam descobertos e punidos. Mas, assim como na vida, não há uma verdade, não há uma solução. Somos cúmplices dos personagens. Nosso conhecimento acerca dos fatos é tão limitado quanto o deles.

O filme é lento, escuro, apesar da esplêndida fotografia e da força dos personagens infantis (o casting  envolveu mais de sete mil crianças). Klara, a filha do pastor e seu irmão, Martin; Eva, a noiva do professor; e Anna, a filha do médico, são os destaques, assim como o figurino e a elegância da Baronin.

A beleza é reforçada pelas imagens em preto-e-branco (o diretor quis acessar nossa memória coletiva formada através das imagens da época a que temos acesso). O clima é denso, não há trilha sonora (apenas a música tocada por personagens em algumas situações), e o tema do filme é a punição: a educação, a instituição da disciplina e mensagens através do castigo (e, interessantemente, não há sentimento de culpa ou remorso expressado nos rostos dos personagens). Dos mais fortes aos mais fracos, dos mais fracos aos mais fortes e até àqueles que não têm condições de se defender. Cada um pune – educa, manipula – da maneira que pode. E sendo as crianças de hoje os adultos de amanhã e os adultos as crianças de ontem, no fim das contas, quem são as vítimas?

É exatamente aí – nas discussões e especulações fora das telas – que A Fita Branca se torna realmente interessante (claro, o filme também impressiona pela maneira com a qual o diretor conseguiu traduzir a alma germânica em algumas cenas, como quando o pai pastor marca hora para açoitar os filhos no dia seguinte – sem levantar a voz, sooo Deutsch – ou quando o médico humilha a parteira, sua companheira – alguns alemães quando não gostam de alguém ou querem acabar com um relacionamento são capazes de uma sinceridade cruel – sempre sem levantar a voz).

Ganhador da Palma de Ouro em Cannes (2009), de melhor filme estrangeiro no Globo de Ouro (2010) e favorito ao Oscar de melhor filme estrangeiro, Das Weisse Band, num primeiro momento, trouxe à tona a questão da sociedade e dos valores que deram origem à Alemanha nazista (alguns comentaristas até chegaram a fazer uma alusão das fitas brancas que o pai amarra nos seus filhos mais velhos à marcação feita nos judeus nos campos de concentração). As crianças da época do filme eram os adultos das décadas de 1930 e 1940, quando da ascensão do nazismo e da eclosão da Segunda Guerra Mundial. E não custa lembrar que, apesar de hoje a Alemanha sentir vergonha do seu passado, os ideais de Hitler refletiam o pensamento de seu povo à época.

Mas, logo depois, Herr Haneke, em duas entrevistas (à Folha de São Paulo e à New Yorker), esclareceu suas motivações. A seguir, reproduzo – numa colagem e em tradução livre – suas palavras: “Quis tratar da educação que impõe valores absolutos às crianças, que acabam por interiorizá-los. Quis mostrar que, se têm o caráter formado a partir de um princípio absoluto, elas se tornam inumanas. Cada ato terrorista, cada manifestação de fanatismo, seja ele político, religioso ou de outra natureza, é alimentado por essa fonte de intransigência. Qualquer ideia se torna perversa se tem o autoritarismo como ponto de partida. Esse é um tema universal, que não tem ligação direta com a problemática alemã. O filme não é sobre nazismo. Você poderia fazer o mesmo filme – de uma forma totalmente diferente, é claro – sobre os muçulmanos de hoje. Sempre há alguém em uma situação de grande aflição que vê a oportunidade, através da ideologia, de se vingar, de se livrar do sofrimento e consertar a vida. Em nome de uma idéia bonita você pode virar um assassino.

Mas que as crianças podem ser cruéis, ardilosas e dissimuladas, ah, elas podem. Não é mesmo, Klara?

São Paulo, 23 de fevereiro de 2010. 

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Milk

No começo do filme chocam as cenas reais, de apenas 30 anos atrás, de homossexuais bem vestidos e extremamente constrangidos sendo presos em bares gays através das frequentes batidas policiais nos Estados Unidos da América — país em que palavras como liberdade, igualdade e democracia já fazem parte dos valores do Estado desde a Declaração da Independência, de 1776.

Assim como outros filmes mais autorais e menos comerciais que fizeram o Oscar 2009, Milk leva a assinatura de Gus Van Sant, diretor gay  assumido que sempre esteve em destaque nos festivais de cinema independente. Mas Milk não é um filme autoral. Sem grandes ousadias cinematográficas, Gus Van Sant se preocupou apenas em contar bem a história de Harvey Milk, o primeiro gay assumido a conquistar um cargo público na história dos Estados Unidos — e também continuou a tradição hollywoodiana de atores heterossexuais galãs para interpretar papéis gays; depois de Jake Gyllenhall e Heath Ledger, em Brokeback Mountain; Tom Hanks e Antonio Banderas, em Philadelphia; Rodrigo Santoro, Jim Carrey e Ethan McGregor, em I Love You Philip Morris. E consegue: o elenco (de Sean Penn a Anne Kronenberg, passando por Josh Brolin, James Franco — sempre lindo, até de cabelo cacheado — e Diego Luna – quase irreconhecível), o figurino, a direção, a trilha sonora e as cenas reais (das passeatas e das declarações fundamentalistas da imaculada homofóbica Anyta Bryant*) dão legitimidade à biografia, conseguindo recriar de maneira impecável a vibe da São Francisco antes da epidemia da AIDS, quando a Castro ainda era um bairro alternativo — e barato —, onde gays de toda a América conseguiam viver com mais liberdade.

O olhar mais “livre” de Gus Van Sant talvez se expresse na decisão de mostrar um “hero” humano e com defeitos (algo raro na tradição maniqueísta do cinema norte-americano). O filme mostra como Harvey se utiliza da imprensa para conquistar o que quer, como deixa seus relacionamentos em segundo plano, como está disposto a negociar votos com outros supervisores, e como — assim como todos nós — pode voltar atrás em alguns valores, sendo considerado hipócrita.

Quem deve assistir Milk? Os que acompanham a carreira desse grande ator que é Sean Penn, mas principalmente, os gays da geração pós-Stonewall (eu incluso) que não sabem como era a vida dos nossos semelhantes em um passado não tão distante e que não conhecem aqueles que lutaram e sofreram para que pudéssemos ser mais respeitados e tivéssemos a liberdade da qual desfrutamos hoje.

* Ao final do filme, são mostradas fotos acompanhadas de legendas contando o que aconteceu com cada um dos companheiros de Harvey e de seu assassino, Daniel White. Mas, o filme não mostra o que aconteceu com Anita Bryant. Para quem quiser saber, o Blog do Tony Goes fez essa pesquisa e publicou a resposta aqui.

São Paulo, 1 de março de 2009. 

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O ano passado, onde?

L’Année Dernière à Marienbad  (em português, O Ano Passado em Marienbad ), é um dos filmes mais incompreendidos da história do cinema, apesar de extremamente belo e poético. O filme dirigido por Alain Resnais, uma das principais figuras da nouvelle vague  (movimento do cinema francês da década de 1960 formado por jovens autores que utilizavam o cinema para transgredir as regras do cinema mais comercial, com uma visão extremamente crítica da sociedade, propondo um “novo” cinema), ganhou o Leão de Ouro no Festival de Veneza de 1961 e foi indicado ao Oscar de Melhor Roteiro Original.

Num cenário luxuoso, entre châteaux  e jardins (da cidade de Marienbad, na República Tcheca, até Munique, na Alemanha – apesar de parecer que o filme se passa apenas num só local), três personagens sem nome (X, A e M) vivem uma história, ou uma “não-história”, que mistura o passado com o presente, a imaginação, a mentira com a realidade, revolucionando a narrativa clássica.

O filme é hipnótico, segue um ritmo onde parece que o tempo não existe, como se fosse um sonho, que tentamos saber o que é real e o que é apenas imaginação. Será que A realmente se encontrou com X no ano passado? Será que lhe prometeu que ela largaria seu marido M, para fugir com ele? Perguntas que ficam sem resposta.

Além de ser um clássico do cinema, O Ano Passado em Marienbad  nos deleita com uma fotografia linda, figurino impecável e a bela atriz Delphine Seyrig no papel de A.

Uns odeiam, outros amam. Para saber de qual lado você está não tem jeito: tem que assistir.

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