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História


Revoluções africanas em mostra de cinema em São...

Mais do que estar in loco  viajando pelo mundo e conhecendo as paisagens, ainda não existe forma mais profunda de se viajar que através da literatura e do cinema, seja pela ficção ou pela realidade. É quando entramos nas casas e nas cabeças dos habitantes, quando conhecemos sua(s) história(s), sua intimidade, seu modo de pensar e sentir. E é por isso que eu estou apaixonado pelo festival de cinema — de recorte único — que estreia nesta sexta, dia 11 de novembro, no Cine Caixa Belas Artes. Com o nome África(s). Cinema e Revolução, os 36 filmes que fazem parte da programação, de diretores europeus e africanos, trazem um panorama sobre o cinema produzido em ex-colônias portuguesas (que não possuíam nem TV local), principalmente Angola, Moçambique e Guiné-Bissau, durante as revoluções, a independência da metrópole (só conseguida depois de outra revolução, a dos Cravos, que acabaria com a ditadura em Portugal), os processos pós-descolonização Ver Mais →

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O vinhedo de Leonardo da Vinci, um belíssimo pass...

A vigna  que dá nome ao lugar não passa de uns cotocos de caules de uva no fundo do jardim, que fica mais exuberante nos meses mais quentes (ainda, já que o vinhedo de Leonardo abriu faz pouco, durante a Expo 2015). Mas ela é o pretexto para um mergulho — inimaginável visto da fachada, assim como quase tudo em Milão — na história de Ludovico Sforza, Leonardo da Vinci, da família Atellani, de Ettore Conti e Piero Portaluppi. Uma viagem charmosa e imperdível para a Milão dos séculos 15 ao 20, bem em frente à Igreja Santa Maria delle Grazie, com a cúpula de Donato Bramante e em cujo refeitório está A Última Ceia, uma das obras-primas do maestro  renascentista. (E dá pra fazer tudo numa visita só, sem se cansar ;- )

Para se chegar ao pequeno vinhedo (hoje, por que originalmente tinha mais de 8 mil metros quadrados) que Leonardo da Vinci ganhou de Ludovico il Moro  Sforza enquanto pintava a Última Ceia (Da Vinci veio para a corte de Milão de Florença convidado pelo letrado e esclarecido duque em 1482 e vinha de uma família de vinicultores da Toscana), você precisará entrar pela Casa degli Atellani, a casa da família que foi uma das mais importantes Ver Mais →

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Abadia de Westminster

Construída no século 11 e reconstruída em estilo gótico no século 13, a Abadia de Westminster não é católica nem protestante, é anglicana (mas foi católica até Henrique 8º, no século 16, romper com o Vaticano). Sua autoridade máxima não é papa, rabino ou pajé, mas uma mulher, Her Majesty The Queen of England, a rainha Elizabeth 2ª, que além de chefe de Estado é também a chefe da Igreja da Inglaterra. É o sítio religioso mais importante não só de Londres, mas do Reino Unido e também dos quinze domínios da Commonwealth (de 53) que ainda reconhecem a monarca britânica como chefe de Estado.

Assim como todos os reis franceses foram coroados na Catedral de Reims desde 1027, todos os reis ingleses foram coroados aqui, nesta abadia em Londres, desde 1066, desde o normando Guilherme, o Conquistador (William the Conqueror, em inglês), que assumiu o trono com a morte de Eduardo, o Confessor. E não vivia só de coroações: a abadia foi e continua sendo palco de casamentos reais (a Rainha Elizabeth 2ª e o Príncipe Philip Ver Mais →

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Londres, o começo

Ao olhar para a civilidade dos londrinos na atualidade (sem que estejam bêbados, claro), é difícil imaginar que as bases de sua cultura (o idioma, o sistema de leis, a religião) não tenham vindo dos civilizados romanos, mas sim dos saxões, um dos povos mais bárbaros, mercenários e assassinos que a nossa história já conheceu.

ROMA FUNDA LONDRES
Londres foi fundada pelos romanos em 44 a.C., quando o Império invadiu a Bretanha e tomou conta da ilha. Durante o reinado expansionista de Trajano (de 98 a 117), o território sob domínio dos romanos chegou até onde é hoje a fronteira da Inglaterra com a Escócia (onde foi construída a muralha de Adriano, que delimitava o extremo norte do Império, cujas ruínas podem ser visitadas até hoje; aliás, a história de Adriano, sucessor de Trajano, merece uma matéria à parte).

No século 2 d.C., Londinium (como Londres era chamada), no seu auge, substitui Colchester como a capital da Bretanha Romana — ou em latim, Britanniatornando-se assim capital provincial mais distante da capital do Império, Roma. Mas, apesar de os bretões (povo Ver Mais →

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Quem morou no Museu do Ipiranga?

Ao visitar palácios históricos, é quase automático tentar imaginar a vida daqueles que ali habitavam: a vida nos corredores, nos aposentos, nos jardins, o que vestiam, o que falavam. Uma vez passeando pelo Museu Paulista, conhecido pelos paulistanos como Museu do Ipiranga (quando ele ainda estava aberto e operante), parei por alguns segundos e fiquei pensando: “ok, Dom Pedro I deu o grito da Independência logo ali, mas todos os membros da família imperial e os governantes da República sempre habitaram o Rio de Janeiro, nunca São Paulo”. O que fazia aquele palácio imponente do século 19 — quando São Paulo tinha apenas 70 mil habitantes — no bairro do Ipiranga?

Ninguém NUNCA morou no edifício eclético-neo-renascentista que abriga o Museu Paulista. O edifício com ares de palácio, desde o início, fora construído como um monumento para Ver Mais →

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Budapeste e o filme de Wes Anderson

O filme O Grande Hotel Budapeste recria signos importantes do século 20. Logo na primeira panorâmica do hotel, há uma referência nem tão sutil ao sanatório alpino d’A Montanha Mágica, obra-prima do escritor alemão Thomas Mann. O volumoso livro é descrito como “uma viagem à decadência” pelo acadêmico Malcolm Bradbury. Tampouco é casual a escolha de Budapeste para o nome do filme: há óbvias coincidências históricas no enredo, já que Budapeste foi símbolo das grandes cisões europeias por quase todo o século 20 — notadamente, durante o entreguerras (período entre a Primeira e a Segunda Guerra Mundial) e a Guerra Fria (pós-Segunda Guerra até a extinção da URSS em 1991).

Até 1918, Budapeste foi também a segunda capital do extinto Império Austro-Húngaro (a primeira era Viena) e acabou por mais de dois séculos — seja como Império, seja como Hungria — oscilando entre as dominações do Oriente (Moscou) e do Ocidente (o eixo europeu, Berlim-Paris-Londres). Esmagada entre esses dois eixos de poder, buscou autonomia, fosse recorrendo ao nacionalismo chauvinista, fosse resistindo diretamente às diretivas soviéticas na Cortina de Ferro. Nesse sentido, o hotel e os personagens também metaforizam perfeitamente esse epicentro da geopolítica moderna, o Império Austro-Húngaro e os desdobramentos posteriores.

A começar pela própria ambientação do hotel, que salta do estilo faustoso, ainda que decadente do Império à quase assepsia do design socialista. Vale lembrar que trinta anos depois da Revolução Russa, em 1917, um terço da humanidade viveria sob regimes socialistas — incluindo a própria Hungria, de 1949 a 1989 — e o crescimento do ideário comunista como uma alternativa ao capitalismo era o maior temor das potências ocidentais. Nesse sentido, no hotel, vai-se dos lustres rococó ao padrão geométrico e abstrato das paredes. Sem falar no personagem Zero, que é uma das alegorias mais diretas ao Império Otomano, o “grande enfermo da Europa”, esfacelado no período entreguerras (o Império Otomano foi extinto em 1922) e que, gradativamente, vai ganhando poder geopolítico com a criação da República da Turquia.

Texto escrito por Ivo Yonamine, bacharel em Direito, tradutor, revisor e apaixonado por história. 

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Onde jazem os reis de França

Em Reims, cidade da região de Champagne-Ardenne, foram coroados todos os reis da França, de 1027 a 1825 (com exceção de apenas dois). De Henri 1º a Charles 10, passando por todos os Luíses: nove no total, de Luís 7 a Luís 16. Mas, se eles todos foram coroados em Reims, foi no subúrbio de Paris, na Basilique Saint-Denis, que eles foram enterrados. Hoje, todos os ossos dos homens e mulheres mais poderosos da França ao longo de mil anos de monarquia (de Clóvis, o responsável pela derrota dos romanos e pela  introdução do cristianismo na França, a Luís 14, o Rei-Sol-o-Estado-sou-eu, passando por Carlos Magno, o “Pai da Europa”) estão jogados e misturados em duas caixas de pedra. Durante a Revolução Francesa, a turba enlouquecida invadiu a Basílica, saqueou os túmulos e jogou todos os ossos num terreno baldio nas redondezas. E lá eles ficariam, jogados ao relento, por quase 25 anos até a restauração da monarquia em 1817, quando eles foram recolhidos e quando já era impossível identificar que fêmur era de quem. Ver Mais →

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Chique é xixi no corredor

Por mais de cinquenta anos, de 1682 (quando a corte se muda para a Versalhes) a 1738 (quando Luís 15 encomenda o primeiro banheiro com vaso sanitário), o Palácio de Versalhes — com 2300 ambientes e uma corte de quase 20 mil pessoas (cinco mil morando no château) — não tinha NENHUM banheiro. E o primeiro banheiro — luxuosamente projetado e construído apenas em 1738 — era de uso exclusivo do rei. O que faziam os outros milhares? Damas da corte como a princesa d’Harcourt (sim, PRINCESA), após uma farta refeição, simplesmente saíam da sala de jantar, arregaçavam as volumosas saias e se aliviavam no corredor. Já o duque de Vendôme (sim, DUQUE, um dos mais altos graus da hierarquia nobiliárquica), herói de guerra e figura poderosa em Versalhes, como era muito rico, tinha uma chaise percée (em português, uma cadeira “furada”), que era um assento sanitário. E ele fazia suas necessidades na frente de qualquer um. Mas qualquer um mesmo. Certa vez, o bispo de Parma chegou ao palácio em uma missão diplomática e encontrou Vendôme fazendo o número dois em sua cadeira. E o bispo, um “estrangeiro”, ficou horrorizado quando, no meio das negociações, o duque se levantou e começou a limpar o bumbum, ali, bem na sua frente. Esse era o comportamento padrão em Versalhes; entre nobres e plebeus. Comentava-se que alguns dos corredores dourados do suntuoso château, muito frequentado pelas damas necessitadas, ainda exalavam um odor torturante mesmo muito tempo depois de a Revolução ter dado fim à corte. Ver Mais →

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Milão, o começo

Ocupando um local privilegiado — e estratégico — que foi objeto de desejo entre diversas tribos e nações ao longo dos séculos, Milão esteve sob o domínio de diversos povos (etruscos, romanos, godos, lombardos, francos, espanhóis, austríacos, franceses), até finalmente fazer parte da Itália… no século 19 (!). Os primeiros a se estabelecerem às margens do Rio Po (rio que corta a Itália de leste a oeste) foram os celtas, entre os séculos 7 e 4 a.C. E assim como toda a Europa (e parte da Ásia e da África, porque os cara eram megalomaníacos), a região foi tomada pelo Império Romano, que lhe deu o nome de Mediolanum em 222 a.C. (e olha que os celtas tinham a doce ilusão, coitados, de expandir seu território para o Sul, mas encontraram os romanos no meio do caminho expandindo para o Norte e seus planos foram por água abaixo).

Mediolanum, que significava ‘no meio da planície’, se transforma em capital da Transpadania (região que abrigava também as cidades de Como, Brescia, Bergamo, Pavia até Ver Mais →

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As muitas faces de todos nós

Na era maniqueísta em que vivemos, ou você é lindo, do bem, “incrível” ou você é do mal; ou você é PT ou você é PSDB; ou você é preto ou branco – cinquenta tons de cinza, parece, só em literatura de qualidade duvidosa. É como se não tivéssemos todas as qualidades e defeitos em potencial dentro de nós. Eu, por exemplo, me percebo ora generoso ora egoísta; posso ser um grande amigo, mas também um chato insuportável. Depende da situação, do contexto, com quem. Por que os grandes homens, mesmo eles, seriam diferentes? E é interessante como isso reverbera nos nossos “ídolos”, seja com Mandela, com Gandhi, ou com Jesus. Todos são idolatrados e considerados seres “iluminados”. Mas, Mandela foi adepto da luta armada contra o regime racista (foi condenado à prisão perpétua por planejar ações armadas) e próximo de líderes comunistas (Castro, Guevara, Khadafi, Arafat, líderes que as potências ocidentais – e muitos de nós – desprezam); Gandhi, que nunca abaixou a cabeça, era simpático à jihad; e Jesus foi um revolucionário com “R” maiúsculo (“bem aventurados os pobres de espírito pois é deles o reindo dos céus”, ou ainda: “quão dificilmente entrarão no reino de Deus os que têm riquezas! Porque é mais fácil passar um camelo pelo fundo de uma agulha do que entrar um rico no reino de Deus.”). Todos eram obcecados com suas convicções e, talvez por isso, contribuíram imensamente com o curso da história. Mas fico pensando se a maioria das pessoas que hoje escrevem lindos textos sobre esses “mestres” inspiradores e imaculados gostariam de tê-los como empregados ou mesmo como amigos. Afinal, quem hoje em dia gostaria de pertencer à turma de um cara que anda com prostitutas e leprosos ou de outro que só vestia trapos?051256Na obra do artista italiano Marco Cianfanelli, construída em Howick, KwaZulu-Natal, na África, 50 colunas de aço de até 10 metros de altura espalhadas por 35 metros formam a imagem de Nelson Mandela quando observada de um ângulo específico. Para ver a escultura vista de outro ângulo, clique aqui.

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Racista, eu?

Escravizamos os negros para o bem dos nossos lucros. Com a riqueza gerada com base na privação de direitos, vontade própria e liberdade de 5 milhões de negros sequestrados na África (os que chegaram vivos, já que quase 700 mil vidas se perderam nos navios negreiros, sendo que alguns historiadores calculam que pode ter sido o dobro o número de escravos trazidos), durante 388 anos, construímos o nosso Estado, o nosso Brasil. A escravidão foi a base da vida econômica do império português na África e na América. E como eles trabalharam. Crescemos e construímos Estados melhores graças a eles, que trabalhavam 16 horas por dia, sem qualquer direito ou regalia. O Brasil foi o último país do mundo a abolir a escravidão. E foi assunto tão relevante que foi uma das causas da queda da monarquia. Quando os libertamos, os deixamos completamente desassistidos, sem as qualificações ou ajuda necessárias para que alcançassem o mesmo padrão de vida dos brancos. “Olha, nós te escravizamos, você não teve educação ou saúde, mas agora você está livre para ser feliz! Boa sorte aí! Se vira!” O resultado: marginalização, preconceito, discriminação, racismo. Até hoje. 70% das vítimas de assassinato no Brasil são negros (e muitos são mortos por quem deveria proteger a todos nós, a Polícia Militar). Não vemos negros nos grandes restaurantes, em altos cargos nas corporações ou morando em bairros de classe média alta como Jardins, Higienópolis, Itaim (basta uma caminhada num fim de semana ensolarado pelas ruas dos bairros). Será por quê? E, ainda assim, quando o assunto são as cotas para negros nas universidades, ainda ouvimos: “nós, brancos, alcançamos o sucesso com nossos esforços” ou “os negros estão onde estão por falta de força de vontade: se eles estudassem mesmo, não precisariam de cotas para entrar na faculdade”. O ESTADO que ESCRAVIZOU por quase QUATROCENTOS ANOS, tem SIM de criar políticas públicas para diminuir a desigualdade racial e social. O sistema de cotas para negros nas universidades pode não ser a solução ideal, mas é um caminho. É preciso olhar com carinho para a nossa história. Assim como a história do mundo é uma história das migrações, a história do Brasil é uma história das relações raciais.Rugendas_620

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