Comer carne: é preciso reconsiderar?

Cordeiro, o filhotinho da ovelha: carne preferida de dez entre dez gourmets

Você tem um filhote de cachorro que você ama. Chego na sua casa com um cordeiro de seis meses de idade, o filhotinho de uma ovelha. O cordeirinho é tão mamífero, fofo e brincalhão quanto seu melhor amigo. Mas a sua missão é matá-lo. Vamos preparar um delicioso carré  de cordeiro assado com crosta de ervas. Assim como o seu cachorro, o cordeiro não quer sentir dor, não quer ser machucado, não quer morrer. Como matar um animal saudável sem machucá-lo? Você vai ter de lidar com seu sofrimento, talvez seus gritos (se a morte não for instantânea), sua dor e desespero (ele vai se debater), sua fraqueza, até que ele morra. Terá de cortá-lo, administrar o sangue farto e ainda quente, retirar suas vísceras, esquartejá-lo, separar os cortes bons  de sua carne. A cena vai parecer a de um crime; a de um assassinato terrível e moralmente condenável se você fizesse a mesma coisa com um colega humano. E a pergunta que faço é: qual seria o nosso prazer em comer o prato depois disso? (Enquanto isso, seu cachorro está brincando no jardim, dormindo em uma casinha aconchegante, e, diante de qualquer problema de saúde com ele, você o levará urgentemente ao caro veterinário e fará o que for possível que ele permaneça saudável e vivo). Por que amar um e permitir que o outro fique pendurado por uma pata, de cabeça para baixo, se debatendo, enquanto o carrasco lhe tira a vida com um choque na cabeça? Ou pior, com o boi, que é sangrado ainda vivo — mas desacordado — para que o sangue seja bombeado para fora e não haja proliferação de microorganismos? Por que obrigar um ser que não faz mal nenhum, a ninguém, a passar por isso? Aí, nos chocamos com a “barbárie” contra baleias e golfinhos em países como a Dinamarca e o Japão, o consumo de cavalos, cachorros e gatos na Ásia, a caça de tigres, leões e elefantes na África (ou mesmo com a gavage  dos gansos para a produção de foie gras ), mas não nos importamos com o bem-estar de vacas, porcos, ovelhas e seus filhotes, tão mamíferos quanto as baleias, os cachorros, os elefantes. Que lógica é essa?

Porcos são seres inteligentes e sensíveis, atendem quando são chamados (pelos humanos e pelos outros porcos), gostam de brinquedos (têm até seus favoritos) e são até capazes de jogar videogame  com controles adaptados aos focinhos. A ciência já consegue identificar modos de comunicação, de organizar e de sentir, de autoconsciência, compaixão e senso de justiça em animais que vão de insetos a polvos. A diferença entre as nossas faculdades mentais e as de gatos, chimpanzés e periquitos seria apenas de grau, não de tipo. “As evidências de hoje indicam que muitos animais sentem alegria, tristeza, pena…”, nas palavras do biólogo Marc Bekoff, da Universidade do Colorado, nos Estados Unidos. E nós “produzimos” e escravizamos esse seres com inteligência e sentimentos com o único objetivo de matá-los para o nosso prazer. O ambiente limpo e asséptico dos supermercados com as carnes dispostas elegantemente em embalagens a vácuo — e de maneira completa e propositadamente disfarçada  para que não nos faça lembrar que aquela carne é resultado de morte — dificilmente nos remete à vida sofrida e triste (nunca expressa nos cardápios e rótulos) que o animal teve até chegar ali.

Matamos seres perfeitamente saudáveis para comer. E matar — e morrer —, nessas condições, SEMPRE envolve sofrimento. Físico e emocional. Dor, vísceras, sangue. Visões, sensações e sentimentos cada vez mais distantes do nosso belo, organizado e limpo mundo do Instagram, das paisagens paradisíacas, da tecnologia dos aviões — e da beleza e conforto de suas primeiras classes —, do minimalismo dos ambientes contemporâneos, do décor  e organização de nossos museus e lojas de luxo. A atmosfera da morte e do sangue NADA se encaixa nesse mundo de saúde, sofisticação e de valorização da vida e da felicidade que tanto vendemos e cultivamos. E a vida que impomos aos animais para abate é similar a que os judeus experimentaram nos campos de concentração: é como um Holocausto nazista. No Japão, pessoas criam porcos em casa como se fossem cachorros. E eu, sempre acostumado a pensar nos porcos já mortos e fatiados em supermercados, em formato de deliciosos jamón  ou imóveis em suas baias apertadas nas fazendas mundo afora, me surpreendi quando chegamos à casa de uma amiga e seu porquinho veio correndo para ela abanando o rabinho, exatamente como um cachorro faria. Ou quando li sobre o sofrimento que é para vacas e ovelhas quando seus filhotes são retirados à força de seu convívio para serem transformados em carnes macias para a nossa cozinha e para que o leite de suas mães seja destinado a nós, humanos. Sim, matamos animais “crianças” para comer, filhotes fofos e meigos, e adoramos dizer  que amamos  cordeiro e vitela.

A EMPATIA
Tirando os psicopatas, colocar-se no lugar do outro, imaginar o que seria sofrer qualquer violência a que outra pessoa esteja sendo submetida (sem estar passando necessariamente por aquilo) é um componente sofisticado da nossa inteligência. E sendo os seres humanos dotados de razão, podemos acrescentar outro elemento à discussão: a ética. Se as vacas — e TODOS os animais — sentem dor e, assim como nós, elas não gostam da dor (elas evitam o sofrimento como podem e sua reação de incômodo é tão convincente quanto a nossa) por que submeter 34 milhões de bois, 37 milhões de leitões, 5,5 bilhões de aves, mortos só em 2014, só no Brasil (50 BILHÕES DE ANIMAIS no mundo em apenas um ano), a esse sofrimento? Que direito nós temos de impor aos animais essa vida sem que eles possam mesmo se defender? Eles não são ladrões, não são assassinos ou corruptos; não estão chefiando quadrilhas de políticos ou de traficantes de drogas. Não existem vestígios de machismo e homofobia entre os animais; nem arrogância e vaidade. Por que o homem se sente tão superior aos bichos? Será que temos mais direitos que os animais porque somos mais inteligentes? O filósofo Peter Singer, professor de bioética da Universidade de Princeton, nos Estados Unidos, diz que não. Se inteligência fosse critério para determinar quem tem direitos e quem não tem, humanos menos inteligentes poderiam ser torturados. “Estamos preparados para permitir que submetam a experiências bebês humanos ou adultos retardados?#DireitoÀVidaParaTodos #DireitosDosAnimaisJá

TODA FORMA DE VIDA DEVERIA SER SAGRADA
Uma das cenas que mais me marcou em Avatar foi a de Neytiri matando um animal e fazendo uma prece agradecendo por aquela vida, que agora se transformaria, através da alimentação, “em seu próprio povo”. Tirando o Cristianismo (“não importa o que você come, apenas a sua fé”), todas as religiões demonstram alguma preocupação, talvez uma certa culpa, por tirar a vida alheia para sustentar a nossa (entre os hindus, desde a vinda de Buda no século 6, o consumo de carne foi abolido; é errado matar, mesmo que seja para saciar a fome). Na maioria das religiões antigas, os animais só podiam ser abatidos se houvesse uma cerimônia ritual, com respeito, para obter a aprovação dos deuses. E é assim até hoje no judaísmo e no islamismo, cujos fiéis só podem consumir carne (não todos os tipos) se o animal tiver sido morto da forma correta. Já para os cristãos, a vida é sagrada. Mas só a vida humana; animais não têm alma, Deus os criou apenas para o uso humano, pregava a igreja medieval. Talvez por causa desses valores tão difundidos no mundo ocidental, o ato de matar bilhões de animais por ano, de forma sistematizada, em condições precárias (porque a única preocupação é o lucro cada vez maior), tenha se tornado tão banal, sem o menor respeito pela vida.

E TEM A QUESTÃO ECOLÓGICA
Os números são assustadores. No Brasil (nós somos o maior exportador de carne bovina do mundo), os ruminantes (vacas, cabras, ovelhas, búfalos) são responsáveis por 90% da emissão de gás metano, que é 25 vezes mais nocivo que o CO2. No mundo, a pecuária é a causa NÚMERO UM das mudanças climáticas, 40% mais que todos os meios de transporte somados. O gado é responsável por quase 1/3 de todo o aquecimento global do planeta, já que, além do gás que eles arrotam, a criação de bovinos é responsável por 80% de desmatamento das florestas brasileiras (a cada 18 segundos 1 hectare da Amazônia é convertido em pasto). Sem falar que 50% da produção mundial de grãos é destinada para a ração que alimenta os animais para abate. Como escreveu a Ailin Aleixo, na matéria A glamourização do irrelevante e o desprezo ao essencial em seu site Gastrolândia: “Me pergunto quantos desses cozinheiros – estudantes, anônimos ou seguidos por milhares – são conscientes de que um dos maiores problemas do nosso atual sistema de produção de alimentos é o consumo excessivo e desnecessário de proteína animal e o efeito dominó que isso acarreta: confinamentos cada vez maiores e mais horrendos, animais herbívoros comendo rações que contém restos de animais da mesma espécie, montanhas de dejetos, contaminação da terra, gases que pioram o efeito estufa.

E tem a água: para produzir um quilo de carne são necessários 15 MIL LITROS de água (!!!), contra 3 mil litros para produzir um quilo de arroz, alimento que também demanda muita água. Ou seja, a água necessária para produzir um quilinho  de carne é a mesma quantidade de água que uma pessoa usa para tomar banho. DURANTE TODO UM ANO. (E o brasileiro consome em média quase 35 quilos de carne por ano.) Considerando que os norte-americanos consomem três vezes mais carne que a média mundial, temos planeta para abastecer os 1,5 BILHÃO de chineses que começam a consumir cada vez mais carne (e TUDO do mundo)? Não. Não temos terra, não temos água suficiente.

ANIMAL NÃO É ALIMENTO
Ok, num mundo em que as pessoas refletem cada vez menos sobre tudo, em que o lucro e o prazer falam mais bem alto que sentimentalismos baratos, e com grandes nações com valores fundamentados em matrizes completamente diferentes das nossas ocidentais ascendendo economicamente e se tornando as maiores potências mundiais, dificilmente a realidade dos animais irá mudar em médio prazo.

Mas, para aqueles que se importam, fica o convite à reflexão. Ser cidadão é cada vez mais refletir sobre as nossas escolhas e o impacto delas sobre o mundo. É preciso cada vez mais questionar a origem dos nossos alimentos. Sustentável já vimos que não é. Mas, se a intenção não for parar de comer carne, que se coma menos, e se pague mais caro por carnes de origem, que tenham sido resultado de animais criados livres, sem hormônios e que os avanços da tecnologia tenham sido usados para oferecer-lhes uma morte rápida, com o mínimo de sofrimento.

Quando vejo a maneira como os animais resistem a entrar no corredor que os levará à morte e se debatem na hora de morrer, no instinto de preservar sua vida, a sensação que tenho é a de que realmente animais não deveriam ser alimento. É preciso oferecer uma vida digna a esses seres dóceis e companheiros.

Uma vez, li no blog  do sociólogo Carlos Alberto Dória que “os animais são coisas vivas” e que “é preciso matá-los, sem dúvida, se quisermos manter o nosso padrão civilizacional que se constrói há mais de 40 mil anos.” Eu entendo que o homem começou a se diferenciar dos demais primatas quando passou a comer carne (nosso cérebro se desenvolveu e nos tornamos bípedes) e que as caçadas em grupo foram o primeiro arranjo social dos ancestrais do homem, há 2, 3 milhões de anos. Mas, observando o resultado da presença do homem, hoje, nesse mundo de lixo plástico, de guerras, de consumismo, de exploração, de corrupção, de intolerância (de todos os tipos) e de destruição total e irreversível do planeta, não sei se o advento do consumo de carne para a “evolução do homem” foi uma boa ideia…

Felizmente, vários grandes restaurantes (Per Se, Lucknam, L‘Arpège, Pied à Terre, Le Meurice, Daniel) já oferecem deliciosos menus-degustação vegetarianos (alguns deles são até melhores que os menus tradicionais) ou, como o Blue Hill, só trabalham com carnes de animais criados livres e com responsabilidade.

Não é a razão que nos distingue dos animais, mas a tirania”. Frase do filósofo Peter Singer.

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