Como saber quem compra seguidores no Instagram

No mundo digital, você é quantos seguidores você tem. Profissionalmente, o valor de uma mídia está diretamente ligado à audiência, à taxa de engajamento do público nas redes sociais (quantos likes, comentários, compartilhamentos, usuários únicos, tempo de permanência no site). O problema dos nossos dias é quando não só o seu valor profissional é medido por essas métricas de audiência (um conceito que deveria permanecer apenas  no âmbito empresarial), mas também o seu valor social. Aí, você tem um panelão. Nele, estão a ansiedade de ser popular (e com a democratização do acesso às redes sociais, todo mundo acha que pode ser famoso); a competição velada — mas acirrada — entre perfis parecidos, ou mesmo entre amigos (uma vez soube de um caso surreal envolvendo duas mulheres ricas  competindo por seguidores em uma pequena cidade do interior do Rio de Janeiro); a apropriação das marcas desses novos “canais de comunicação” (pessoas físicas que acabam por se transformar em jurídica graças à sua capacidade de atrair atenção); a fragilidade da tecnologia e da própria natureza dos números (números sempre  podem ser forjados, que o digam as empresas de auditoria); e empresas obscuras que se aproveitam do contexto para ganhar dinheiro. O resultado? Além de toda a problemática nos relacionamentos interpessoais (quem consegue conviver com pessoas de ego tão inflado?), pessoas e empresas que compram “audiência” composta por bots, robôs, falsa, que não existe, para ganhar estima, presentes, convites e até renda com publicidade. Ou seja, ilusão em cima de ilusão em mercado cujos resultados nunca são facilmente mensuráveis. 

E são várias as formas de se conseguir se tornar alguém. 1. Já conheci gente que dedica uma ou duas horas  do dia para ficar curtindo fotos e seguindo pessoas para ser percebida (e aí, depois que algumas dessas pessoas passam a seguir, deixa-se de segui-las porque é cool  manter uma proporção boa entre número de followers  e número de followings; o ideal é sempre que você seja mais seguido do que seguidor); outros que curtem TODAS as fotos do feed sem nem dar o trabalho de vê-las “porque aí quando eu postar elas vão curtir minha foto também”; gente que já é explícita e negocia, sem o menor pudor, com amigos e instafriends, a troca de curtidas, comentário e elogios (por isso você fotos de blogueiros só com comentários de outros blogueiros, ou seja, são parceiros, não espere sinceridade); gente que mendiga likes  e comentários nas fotos pessoalmente ou nos stories… “Curte e comenta minha foto, por favor?” (Gatinho, se a sua foto ou conteúdo chamar a atenção e me interessar de verdade, eu vou curtir e seguir, naturalmente, não precisa pedir…). Aí 2. tem os aplicativos que transformam esse comportamento num joguinho: você fica curtindo fotos de outros integrantes do aplicativo — mesmo sem gostar do conteúdo — e, em troca, ganha moedinhas que serão revertidas em curtidas nas suas fotos (e novos seguidores), mas aí de pessoas e perfis reais (basicamente uma troca de favores entre pessoas desconhecidas). E 3. tem também os sites  que não exigem sua dedicação — apenas seu dinheiro — e vendem TUDO: views  e assinantes no Youtube, seguidores no Twitter, seguidores, likes  e até comentários no Instagram, curtidas de pessoas reais no Facebook (assim diz a publicidade), e até plays  no Soundcloud. Com R$ 20 você já consegue fazer um upgrade na sua imagem (porque é esse o argumento que essas empresas usam: se você tiver milhares de seguidores, terá mais credibilidade; só queria saber que credibilidade é essa já que o público, esse que deveria ser a coisa mais importante em um canal de comunicação, não existe).

Muitas pessoas ainda desconhecem estas práticas, incluindo alguns profissionais da comunicação que acham que os números irreais haviam acabado depois da limpeza que o Instagram fez um tempo atrás apagando os perfis falsos (perfis criados por robôs que são usados para essa prática de inflar números, curtindo e seguindo tudo). Mas essas empresas — são centenas — seguem firmes e fortes se reinventando o tempo todo e tornando cada vez mais sutil a diferença entre um usuário real e um perfil falso. 

COMO PERCEBER QUE TEM ALGO DE ERRADO?

É tanto  perfil falso que se somarem todos os usuários do Instagram o resultado será sete vezes a população da Terra. E basta uma olhada cuidadosa para saber quem está comprando seguidores, likes  e comentários. Desconfie de perfis que tem 30 mil seguidores e baixo nível de engajamento, só 100 ou 300 likes  por foto (tem perfis com 4 mil seguidores e 500 a 700 likes  por post). Aproveite para abrir uma foto e dar uma olhada nos perfis que a curtiram. Tem uns nomes meio estranhos, do tipo “taraqjdylan”, ou indianos, russos, árabes, filipinos na lista? Ao entrar nesses perfis, está vendo que eles são privados ou suspeitos, tipo, com duas ou dez fotos, sem nenhuma descrição, e com imagens meio bizarras ou aleatórias? Se a resposta for afirmativa, isso significa que grande parte dos “k” de seguidores do perfil em questão é formado por robôs. Outra coisa: esses perfis falsos também  são programados para comentar, em inglês, elogios do Tipo “Beautiful”, “Amazing”, “This is beautiful, I’m amazed” (mas o pior MESMO é ver o autor agradecendo os elogios). #ilusaosobreilusao

É claro que existem os perfis com milhares ou milhões de seguidores, de gente que se dedica de forma genuína à construção de sua audiência, com um comprometimento enorme — de tempo, de recursos — com o Instagram, que se preocupa com a qualidade do conteúdo e que não se deixa levar por essas práticas que só fazem destruir a credibilidade de quem decide trilhar por esse caminho. Mas, infelizmente, no mundo da internet, tudo pode ser sempre muito nebuloso, sempre pode surgir uma nova maneira de se fazer coisas erradas e se a gente quiser seguir nesse mercado, teremos de encontrar meios de garantir a autenticidade dos dados. Valorize o conteúdo e não apenas os números, falsos.

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