Como saber quem compra seguidores no Instagram

Você é quantos seguidores você tem. Profissionalmente, o valor de um projeto como a Simonde, por exemplo, está diretamente ligado à taxa de engajamento do público nas redes sociais (quantos likes, quantos comentários, quantos compartilhamentos, quanto usuários únicos). O problema é quando não só o seu valor profissional é medido por essas métricas de audiência (esse conceito de métricas deveria totalmente  se manter no âmbito empresarial e, tudo bem, faz parte do jogo), mas também o seu valor social, em alguns meios. Aí, você tem um panelão onde são colocados aquela enorme ansiedade de ser popular, a competição velada — mas acirrada — entre perfis parecidos ou mesmo amigos (uma vez ouvi um caso surreal  que envolvia duas mulheres da elite de uma rica cidade do interior do Rio de Janeiro), a vontade das marcas de se apropriar desses novos canais de comunicação (até mesmo pessoas físicas que acabam por se transformar em jurídica graças à sua capacidade de atrair atenção), a fragilidade da tecnologia e da própria natureza dos números (números SEMPRE podem ser forjados) e empresas obscuras que se aproveitam do contexto para ganhar dinheiro. O resultado? Pessoas e empresas que compram audiência falsa, que não existe, para ganhar estima, presentes, convites e até renda com publicidade. Ou seja, ilusão em cima de ilusão num mercado — o da comunicação — cujos resultados não são facilmente mensuráveis. O quanto uma ação específica de post  patrocinado se converte em vendas?

E são várias as formas de se conseguir se tornar alguém. 1. Já conheci gente que dedica uma ou duas HORAS do seu dia para ficar curtindo fotos e seguindo pessoas para mostrar que existe (e aí, depois que algumas dessas pessoas que te descobrem passam a te seguir, você deixa de segui-las, porque é cool  manter uma proporção boa entre número de followers  e número de followings; o ideal é sempre que você seja mais seguido do que seguidor); 1.2. (tem gente que já é explícita e negocia, sem o menor pudor, com seus amigos e instafriends, trocando curtidas, comentário e elogios); 2. tem os aplicativos que transformam isso num joguinho em que você fica curtindo fotos de outros integrantes do aplicativo — mesmo sem gostar do conteúdo — só para ganhar como recompensa moedinhas que serão revertidas em curtidas nas suas fotos (e novos seguidores), mas aí de pessoas e perfis reais (seria basicamente uma troca de favores entre pessoas desconhecidas); e 3. tem também os sites  que não exigem sua dedicação — apenas seu dinheiro — e vendem TUDO: views  e assinantes no Youtube, seguidores no Twitter, seguidores, likes  e até comentários no Instagram, curtidas de pessoas reais no Facebook (assim diz a publicidade), e até plays  no Soundcloud. Com R$ 20 você já consegue fazer um upgrade na sua imagem (porque é esse o argumento que essas empresas usam: se você tiver milhares de seguidores, terá mais credibilidade).

Mas nas últimas semanas, percebi que alguns profissionais da comunicação não estão cientes desta prática. Acham que os números irreais haviam acabado depois da limpeza que o Instagram fez meses atrás apagando perfis falsos (são esses perfis criados por robôs que são usados para essa prática de inflar números, curtindo e seguindo tudo). Como existem centenas de sites  que oferecem o serviço, decidi investigar (sem nenhum método científico, que fique claro), dois perfis concorrentes da Simonde e apreciados pelo mercado que eu sabia  que compravam audiência. E encontrei algumas características comuns. O único problema do Instagram é que, das milhares de curtidas que cada foto recebe, ele só mostra 100 perfis, o que torna ainda mais nebulosos os números que fotos de celebridades do Insta exibem: quem garante que todas aquelas curtidas — menos 100 — foram dadas por pessoas reais  já que é impossível auditar?

O perfil a seguir tem 34 mil seguidores, cada foto tem aproximadamente 550 likes (taxa de engajamento de 1,6%), pouquíssimos comentários, e olha o que acontece quando você clica nos perfis que curtiram uma das fotos: você descobre, sem o menor esforço, que TODOS os perfis que curtiram a foto têm apenas 23 fotos postadas e TODOS têm nomes meio estranhos. Clique na foto para ampliar.
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O mesmo acontece com esse perfil com 105 k seguidores. Coincidência ou não (será que contratou o mesmo serviço do perfil anterior?), TODAS as fotos têm TAMBÉM aproximadamente 550 likes (o que daria um engajamento bem mais baixo, de 0,5%) e TODOS os perfis curtidores das fotos têm apenas 29 fotos postadas.
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E fuçando em outros perfis, até mesmo perfis famosos, com mais de 1 milhão de seguidores, parecem também inflar  seus números com esses serviços.

É claro que esses são casos isolados e que existem sim os perfis com milhares ou milhões de seguidores, que se dedicam de forma genuína à construção de sua audiência, possuem um comprometimento enorme — de tempo, de recursos — com o Instagram, se preocupam com a qualidade do conteúdo e que não se deixam levar por essas práticas que só fazem destruir a credibilidade de quem decide trilhar por esse caminho. Mas, infelizmente, no mundo da internet, tudo pode ser sempre muito nebuloso, sempre pode surgir uma nova maneira de se fazer coisas erradas e se a gente quiser seguir nesse mercado, teremos de encontrar meios de garantir a autenticidade dos dados. Só espero poder encontrar e conhecer cada vez mais pessoas e empresas que priorizem a qualidade do conteúdo e não apenas os números.

E que bom que, pelo menos para o meu pai e minha mãe, seu amor não está condicionado à minha popularidade.

São Paulo, outubro de 2015.

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