Desapego à vida

Imagem que faz parte da série Sur-Fake, do fotógrafo francês Antoine Geiger, que discute a alienação, o narcisimo, a falsa identidade superexposta do homem moderno. Para ver outras imagens da série, é só clicar aqui.

Esse texto não chega a lugar nenhum. Fui a um centro espírita de umbanda aqui perto de casa na semana passada para conhecer e tomar um passe. Chegando lá, vi aquelas muitas pessoas, há séculos lotando templos, igrejas, centros, necessitadas de esperança, buscando soluções, curas. Não sei se existe um momento da vida em que não existam problemas, sejam eles reais ou criados por nós (tipo aqueles difíceis objetivos que a gente se impõe). E fiquei pensando sobre a impressionante e infinita criatividade da vida. Quando você acha que passou a dominar uma situação, que aprendeu a lidar com aquele problema, ela, a vida, surge com um novo desafio completamente inédito, obrigatório, implacável: não tem como escolher, não tem como escapar, e a única certeza que se pode ter é a de que a novidade logo envelhece, se transforma, para melhor ou pior. A cada dia, você não é o mesmo, a vida não é a mesma. Em sua criatividade, ela pode te colocar no que você considera o topo dos céus ou o fundo do poço, sem que você tenha qualquer responsabilidade, controle — ou mesmo vontade — sobre aquilo. Em um segundo, em um milésimo de segundo, você pode deixar de existir, alguém que você ama pode partir. De forma mágica e inesperada e irreversível, uma doença pode surgir, um acidente acontecer, um convite, um encontro, uma amizade aparecer.

A vida é como ela é, com sua lógica bem própria, suas razões, ou talvez sem elas, como num jogo de dados do universo, um algoritmo aleatório criado por esse que costumamos chamar de Deus. “Por que alguns com tanto, outros sem nada?”, muitos se perguntam, e as inúmeras explicações ao longo dos séculos conseguem sair do patamar das especulações, criativas e infinitas? Não há como fugir da alegria ou da dor quando elas surgem. Elas simplesmente passam na hora chegada. A natureza é indiferente à dor. A vida, ou Deus ou os deuses, não interferem quando uma zebra está ali, dominada, sendo devorada, ainda viva, lentamente por leões famintos; quando um macaquinho pula num galho que se quebra e se machuca sem a assistência de um médico ou hospital; ou quando explode uma bomba que acaba com a vida de centenas, milhares de pessoas, não só das que morrem mas também das que ficam. Milhões de vidas de jovens saudáveis e outros tantos inocentes não foram poupadas durante as atrocidades das guerras, os desastres naturais, quando os “imperialistas” chegaram para tomar terras e acabar com muitas e muitas civilizações. Pena? Dó? Compaixão? Parece que essas palavras simplesmente não  existem no vocabulário da natureza. E a alegria e o sofrimento fazem parte dela, independentemente de queremos ou não, aceitarmos ou não. Por que procurar ajuda, então?

Minha mãe sempre me disse que o conhecimento é a única coisa que eu levaria comigo para todo o sempre, que é a única coisa que ninguém poderia roubar de mim. Mas, depois de assistir a dois filmes e ler sobre o mal de Alzheimer, eu descobri que não é bem assim. A vida pode sim  fazer com que todo o conhecimento que sempre me motivou a viver simplesmente deixe de existir, apagando do meu ser as pessoas que amo, a minha identidade, as minhas habilidades, o meu passado e até as minhas memórias de viagem.

Sendo assim, parece que tudo é matéria. Nosso corpo, nossos bens, nosso conhecimento, nossos sentimentos, pensamentos, memórias, opiniões. A gente pode ganhar tudo, perder tudo também. E, por isso, entendo cada vez menos essa nossa busca por tudo aquilo que é exterior a nós, essa que é uma característica tão fundamental da nossa identidade “ocidental”. Buscamos tudo no “mundo”: conhecimento, amor, experiências, dinheiro, sucesso, beleza, reconhecimento, saúde. Queremos sair, queremos viajar, queremos conhecer. E ter tudo isso significa ser feliz, já que sem isso “pra que viver?”. Mas a gente pode nunca chegar a ter metade do que sonhamos — e não por uma questão de merecimento — ou perder tudo isso de uma hora para a outra, em um milésimo de segundo. E quando a gente perde, o que resta?

Diante de tantas não respostas, o desapego é a minha palavra para 2016. Não das pessoas que amo (essas eu deixo a cargo do próprio destino), mas desapego das minhas certezas, das coisas que busco e das que eu estabeleci como objetivos para mim. Desapego da ideia de que a vida — que pode acabar amanhã — tem um propósito, uma solução. Pois se eu não as tiver, é capaz que eu ainda consiga existir.

3_670 7_670Imagem que faz parte da série Sur-Fake, do fotógrafo francês Antoine Geiger, que discute a alienação, o narcisimo, a falsa identidade superexposta do homem moderno.

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shoichi.simonde@gmail.com