A ditadura do siga-de-volta

Quero a liberdade de seguir quem eu quiser  porque os posts das pessoas que escolho seguir são interessantes para mim. Quero ter a liberdade de segui-las pelo tempo que eu quiser, sem ter de ficar explicando — para ela — por que deixei de segui-la, se um dia eu me cansar de acordar TODOS OS DIAS vendo uma selfie  com frase de motivação ou as taças de champagne com o seu cartão de embarque nas salas VIP dos aeroportos do mundo em fotos sem qualquer legenda; o que não vai mudar em NADA o meu sentimento e nossa amizade. (Eu mesmo me canso da repetição que é a vida, de postar as mesmas coisas, imagina para quem está vendo…) Vir perguntar para o amigo — ou pior, conhecido — POR QUE ele deixou de seguir ou por que ainda não está “me seguindo” — ou pior-pior!, expor isso nas redes sociais — é de imensas indelicadezadeselegância e falta de educação (qual o objetivo, constranger?). Ninguém  é obrigado a gostar das coisas que a gente posta, mesmo as pessoas com quem a gente se relaciona — e que gostam da gente — na vida real.

A tecnologia não tem o menor interesse na sua paz

No mundo dos milhares de amigos, seguidores, comentários e likes, não ache que um unfollow (termo que significa “deixar de seguir”) passará despercebido. Vaidosos checam diária e compulsivamente quem começou e quem deixou de segui-los (ah, tem a cobrança por likes  e curtidas também: “por que você nunca curte as coisas que posto?”, eles perguntam). E vaidosos que são, se sentem profundamente ofendidos quando alguém de sua estima demonstra desinteresse por seus posts. Aí, você acaba se sentindo obrigado a segui-los apenas para não correr o risco de ter de enfrentar uma DR. E essa preocupação simplesmente não deveria existir.

Uma vez baixei um desses aplicativos que mostram quem deixou de te seguir no Instagram e fiquei impressionado com a quantidade de pessoas que seguem apenas para serem seguidas de volta. É assim: elas visitam seu perfil, dão follow  e esperam um tempo. Quando elas percebem que você viu que ela está te seguindo e decidiu não segui-la de volta, elas dão unfollow. É patético. Agora eu pergunto: qual o sentido de ter seguidores que não estão interessados no seu conteúdo (ou apenas curtindo as coisas como um robô apenas para que você curta as coisas dela, claro — também de forma nada sincera)? Qual o sentido de ter uma audiência falsa e artificial? Escrevi mais sobre isso na matéria Como saber quem compra seguidores no Instagram

Existe vida fora das redes sociais

Relacionamentos reais só são possíveis por causa da empatia, da afinidade. Nos nossos perfis sociais raramente somos nós mesmos, em toda a nossa complexidade: podemos fazer a linha discreta, reclamona, viajada, fina, ativista, engraçada, politizada, misteriosa, foodie, marqueteira, trabalhadora. E acontece de ter aquela pessoa interessantíssima nos jantares que não é tão interessante nas redes sociais ou então aquela cujos posts  você adora que, no contato real, ou tem dificuldade para interagir ou apenas nunca está interessada em ser interessante (geralmente elas não largam o celular, e talvez por isso elas façam conteúdos ótimos nas redes sociais). Sem falar que no mundo dos posts  e dos snaps  essa linha entre conhecidos, desconhecidos e ídolos simplesmente não existe. E justamente por isso você deveria ter a liberdade de não seguir seus amigos.

Toda a educação, a etiqueta, está fundamentada em fazer com que os relacionamentos sejam agradáveis e, principalmente, respeitosos com as diferenças e liberdades alheias. Constranger deliberadamente o outro apenas por que você não consegue administrar o fato de não ser tão incrível e irresistível para todas as pessoas do mundo só mostra o quão desagradável você pode ser. Por isso, não prejudique a imagem que você tanto valoriza: não constranja os outros, respeite a liberdade, seja educado.

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Pessoas que postam foto com amigo legendando “amigo que eu tanto amo” — mal conhece — ou “saudades” — mentira — só por que saiu bem na foto. E o amigo nem tanto. Nas redes sociais, o único amor que existe é o amor a si mesmo.

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shoichi.simonde@gmail.com