A excelência Varig ainda voa os nossos céus

Comissárias de Bordo da antiga Varig, em uma foto do D.O. da companhia aérea gaúcha que era considerada uma das melhores companhias aéreas do mundo. Sorte das empresas que têm em seus quadros profissionais que carregam a excelência Varig

Era uma manhã movimentada no Aeroporto de Porto Alegre. Entre filas e bocejos, centenas de pessoas embarcavam para os mais diferentes destinos do Brasil, e quem diria, do mundo! O majestoso Salgado Filho ainda parece tímido ao exibir alguns voos que, aos poucos, colocam a capital gaúcha no mapa das rotas internacionais: Lisboa, Lima, Buenos Aires, Miami e Cidade do Panamá, destinos que se misturam nos placares informativos com Santa Maria, Chapecó, Joinville e várias capitais brasileiras incluindo meu destino naquela manhã: Curitiba.

Ao dar uma rápida espiada no pátio das aeronaves, já fica claro que a Gol e a Azul estão disputando a preferência gaudério* por gaudério. Não é difícil encontrar diversos voos para os mesmos destinos nos mesmos horários nas duas companhias. A TAM continua lá, discreta, mas trazendo aeronaves cada vez maiores para o extremo sul do Brasil. Um luxo que Porto Alegre sempre esnobou entre as vizinhas da região: receber aviões maiores e mais raros (fora do eixo Rio — São Paulo) nunca foi um ponto forte das capitais do Sul.

Ao embarcar em um 737-800 da Gol, o carro chefe da laranja mecânica, me deparo com uma tripulação sonolenta. Justo. Passavam poucos minutos das 5 horas da manhã. Todos os assentos ocupados no voo 1122 com destino a Curitiba — Maringá — Campo Grande — Cuiabá — Porto Velho — Manaus (ufa!). Me sentei na última poltrona da fileira 32 e, enquanto os comissários davam uma última checada antes da partida da aeronave, eu reparei na comissária aparentemente mais sênior da equipe. Sueli deve ter seus quase 50 anos, maquiagem e cabelo impecáveis apesar do ar informal da Gol.

Andar tão firme quanto a voz, fazia qualquer executivo teimoso lembrar das broncas da infância ao soltar um ríspido (embora respeitoso) “Senhor, por favor desligue o celular imediatamente”. Nunca vi um executivo engravatado NÃO ficar constrangido com as censuras maternas das comissárias de bordo. Mas o que mais me chamou a atenção, ao ver Sueli desempenhando seu trabalho, era o ar da experiência que ela transmitia, uma naturalidade passional estampada nas feições. Características típicas que me fizeram tirar uma conclusão certeira: Sueli era uma ex-Varig.

Bingo. Após pousarmos em Maringá por conta do tradicional e nem um pouco receptivo nevoeiro curitibano, aproveitei para ir até a galley do avião e perguntar para a Sueli o que todo comissário gosta de ouvir: “há quanto tempo você está voando?”

São exatamente 24 anos de carreira iniciados na década de 90 nos belíssimos Electras. Sueli largou tudo e todos para apostar numa carreira com nada menos que cinco voos diários na glamourosa ponte aérea RJ—SP. Em 1995, depois de pouco tempo na aviação, já conhecia metade dos destinos internacionais da Varig, indo até Hong Kong e Nagoya. Cruzou o mundo pelo norte do Pacífico e pelo sul do Atlântico. Voou 737, 747, 767, DC10 (“aeronave fria e barulhenta”, segundo ela), MD11 (“uma versão melhorzinha”), passou um tempo na Rio Sul trabalhando em voos regionais; uma fase difícil da gaúcha, era isso ou rua. E encerrou a carreira na companhia gaúcha nos seus derradeiros 777. Confessa que chorou no dia que a empresa faliu. Afinal a Varig era quase uma pessoa querida, um parente. Sueli diz que passava mais tempo com a tal da Varig do que com os filhos, mas nunca se arrependeu. A distância de casa tem seus benefícios, diz ela. Menos briga e mais saudade. Depois da crise, a Gol não teve coragem de demiti-la. Algumas joias da Viação Aérea Rio Grandense são raras, precisam ser preservadas e devem passar toda a experiência e conhecimento pra essa piazada que voa hoje em dia.

Perguntei pra Sueli, “mas, e os voos pra Miami da Gol? Não quis fazer?”. Ela respondeu prontamente: “a Gol permite que eu fique na base Porto Alegre. Pra voar para Miami eu teria que morar em São Paulo ou no Rio de Janeiro. Deus me livre.”

Gaúcho é assim: torceu pela Varig tanto quanto torcem pelo Grêmio e pelo Inter. A companhia fez e ainda faz parte da história do Rio Grande do Sul. Mas não foi embora, não, ela vive em pessoas como Sueli, que carrega até hoje o crachá antigo na bolsa. “Na aviação um crachá da Varig vale como uma carteirada da OAB.”

E agora vá sentar, eu preciso preparar esse 737 pra Curitiba porque quero voltar ainda hoje pra Porto Alegre pra tomar meu chimarrão.”

Obedeci prontamente, afinal nem comandante ousa desrespeitar uma senhora com 20 anos de Varig nas costas.

*gaudério é sinônimo de ‘gaúcho’

Felipe Miné Oslaj é gaúcho, apaixonado por aviação e é o idealizador da página Embarque Imediato, que você pode curtir clicando aqui.

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