Her

Her

Estados Unidos, 2014, 126 minutos

De Spike Jonze

Com Joaquin Phoenix (Theodore ), Scarlett Johansson (a voz de Samantha) e Amy Adams (como a melhor amiga de Theodore, Amy)

Nunca acreditei em livre-arbítrio. Sempre achei que nós também funcionamos por algoritmos, esse código-equação cheio de regras que determina o funcionamento de programas de computadores; apenas com variáveis mais complexas. Enquanto nos softwares as regras talvez sejam mais lógicas, o nosso algoritmo traz variáveis como a nossa personalidade, o ambiente no qual crescemos, a relação que tivemos com nossos pais, as pessoas que encontramos ao longo da vida, as experiências acumuladas, as alegrias, as tristezas, nossos desejos, talentos, traumas. A maneira como vemos, vivemos, agimos e reagimos na vida é SÓ o resultado dessa equação. E essa fórmula está sendo constantemente alimentada: em cada notícia que lemos, em cada conversa, em cada troca. E não há como fugirmos dela. Bom, essa também é Samantha, o sistema operacional que divide com Theodore (interpretado por Joaquin Phoenix) o protagonismo do filme Her, que trata da história de amor entre um ser humano e um sistema operacional com inteligência artificial.

Samantha também vem com uma programação básica e seu sistema — “pensamentos”, “emoções” e “serviços” — vai sendo alimentado com os inputs que ela recebe das conversas que ela tem com Theodore, com outros sistemas operacionais e com toda a base de dados a que ela tem acesso (ela é o Google com realidade aumentada; e, ah, ela começa a estudar física e filosofia). Onipresente, sempre acessível pelo celular ou computador, ela passa a fazer parte da vida de Theodore em todos os momentos: das estratégias para jogar videogame a lidar com o advogado responsável pela separação de sua ex-mulher, sem deixar de fazer-lhe perguntas que o fazem refletir sobre a vida e seus sentimentos. Com o tempo, eles se envolvem. Ele, afetivamente; ela, não sei (o sentimento de Samantha é real ou é “mimético”, aprendido?). E a dinâmica do relacionamento dos dois — lembrando, entre um ser um humano e um software inteligente — segue basicamente os mesmos caminhos dos relacionamentos que conhecemos: inseguranças, conflitos, decisões por seguir caminhos incompatíveis com a continuidade da relação. De ambas as partes.

Massss, como um ente em constante evolução inteligente, com capacidade de autoprogramação, conectada a todos os dados disponíveis no mundo, ela sofre uma atualização e passa a se relacionar com milhares de outras pessoas e sistemas operacionais ao mesmo tempo. E, diante do fato de estar falando com 8.156 pessoas ao mesmo tempo em que fala com Theodore, também aumentam as possibilidades de amar e se apaixonar. Quando perguntada se ela amava mais alguém, Samantha responde a Theodore que sim, que está “amando” 641 pessoas ao mesmo tempo. 642 com ele. #ComoLidar?

O belo filme de Spike Jonze é angustiante por quatro motivos. Primeiro, porque, para ele, será possível que no futuro tenhamos nossas necessidades afetivas atendidas por um programa de computador. Será possível se sentir amado, desejado e até construir uma vida juntos (Samantha chega a selecionar as melhores obras do trabalho de Theodore e mandar para uma editora, que lê o material e decide publicar um livro). Segundo, porque a relação que Theodore desenvolve com Samantha não parece tão distante hoje das relações que vemos e vivemos nos dias de hoje, quando nos relacionamos cada vez mais — seja por viagens profissionais, falta de tempo ou mesmo relações à distância — por meio de mensagens, voz, redes sociais, com pessoas que também reagem como algoritmos e avatares de si mesmas (e, ainda assim, nos sentimos amados e preenchidos afetivamente). Terceiro, porque nossa crescente intolerância às adversidades e às diferenças, quando queremos, assim como consumidores, estar sempre 100% satisfeitos, torna ainda mais provável a existência de um “serviço” para atender as nossas “demandas” de relacionamento. Não como companheiros, mas como consumidores de afeto. E quarto, por que todas essas questões, hoje e talvez também no futuro, não têm respostas.

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shoichi.simonde@gmail.com