The Great Contemporary Art Bubble

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Damien Hirst, o big star  da arte, representado pelas duas maiores galerias de arte contemporânea do mundo — a White Cube e a Gagosian —, tem uma fábrica com 150 assistentes, produzindo suas “obras-primas” em série, em escala nada artesanal (de acordo com um catalogue raisonné dos quadros de bolinhas coloridas de Hirst — ainda não lançado pela editora —, entre 1986 e 2011 foram pintados 1365 spot paintings! Sem falar nas centenas de quadros de borboletas). Corta. Quando perguntado por Ben Lewis, o diretor do filme The Great Contemporary Art Bubble, quantos quadros de listras Anselm Reyle já tinha produzido (apenas com variações de cores e texturas, assim como as bolinhas de Hirst), o artista plástico alemão (que tem 60 assistentes), representado pela Gagosian, disse: “difícil de dizer, mas acho que uns 200 ou 250”. Tanto Jay Joplin, da White Cube, quanto Larry Gagosian, da galeria que leva seu nome, se recusaram a dar entrevistas para o documentário interessantíssimo que investiga a bolha no valor das obras de arte contemporâneas entre 2003 e 2008 (que teve seu preço médio aumentado em 800% durante estes anos; as obras de Reyler aumentaram de valor 20 vezes), até o ano em que a quebra do quarto maior banco de investimentos dos EUA levou o mundo a uma crise global. Como os preços de obras produzidas em larga escala, de qualidade duvidosa, atingiram níveis estratosféricos?

The Great Contemporary Art Bubble não é um filme que aborda a qualidade das obras ou dos artistas, ou ainda faça uma análise da arte contemporânea. O que Lewis, que é colunista de arte do jornal inglês The Guardian, investiga é apenas o método como as obras são precificadas (a eterna oferta e a demanda) e como o esquema criado por colecionadores, galerias, consultores de arte, museus e investidores (que adoram uma especulaçãozinha) pode afetar a economia como um todo (o que decepciona é ver artistas e instituições que a gente ama fazendo parte desse processo nada transparente, nada artístico). Ah, tem também o fato de o número de bilionários do mundo ter aumentado muito nos últimos anos, principalmente nos mercados emergentes, onde arte contemporânea é hype (e é uma brincadeira que os novos ricos, entre eles, têm gostado bastante de jogar).

O mercado de arte, apesar dos bilhões de dólares que movimenta, diferentemente do mercado financeiro, das commodities, não é regulamentado. E o que acontece quando colecionadores como os irmãos Mugrabi e Aby Rosen detém 10% de todos as obras importantes de Andy Warhol? (Só os Mugrabi possuem 800 quadros do artista.) Ou quando Larry Gagosian e Jay Joplin — entre outros galeristas, já que parece que é uma prática bastante comum — participam dos grandes leilões dando lances nas obras dos artistas que representam, simplesmente para aumentar o valor de mercado e, consequentemente, valorizar seus estoques? #CartelFeelings Nos outros mercados, existem leis para que alguém não detenha tanto de alguma coisa a ponto de conseguir influenciar seu preço e caracterizar monopólio. Nos anos 1990, um empresário japonês foi processado por ser dono de 5% das reservas de cobre do mundo. Mas no mercado das artes, esses limites não existem e o que gente vê é especulação, manipulação de preços, fraude; tudo em segredo.

O QUE ISSO TEM A VER CONOSCO?
Os artistas são os rock stars  dos nossos dias. Na Grã-Bretanha, hoje, mais pessoas vão a exposições de arte que a jogos de futebol. O público dos museus não para de aumentar. Bilhões de dólares têm sido gastos na construção de novos espaços culturais em todo o mundo. E o problema é que esse sistema especulativo e escuso do mercado das artes acaba por influenciar nas decisões dessas instituições, que usam dinheiro público.

Quando uma obra é vendida por milhões de dólares num leilão, a mídia que isso gera é enorme; as manchetes transformam o artista em uma estrela (não é, Jeff Koons?); os museus, cada vez mais dependentes das receitas vindas da visitação do público, acabam sendo influenciados e preferem apostar em artistas com maior capacidade de atrair público. E uma vez que um Damien Hirst é “validado” e ganha lastro através de uma exposição individual na Tate Modern (que também gera enorme mídia, por ser uma instituição de arte reconhecida — e amada), automaticamente, seu valor de mercado se consolida (e a gente se encanta; é o mesmo que pegar um sapato estranho da Prada — o que é sempre comum — e colocar numa prateleira da 25 de março ou dentro de uma elegante loja na Madison Avenue, com ele estampado em todas as maiores revistas de moda do mundo: a ambientação, a grandiosidade influenciam o valor que damos às coisas). E, assim, com os preços inflacionados, os museus precisam pagar fortunas para ter um quadro de um desses artistas. Ou então, os colecionadores, que tiveram suas fortunas multiplicadas por 20 (lembrando: graças à especulação), decidem doar os quadros milionários para as instituições de arte e conseguem deduzir outros milhões de dólares no pagamento de impostos.

Todo mundo perde. Perde o Estado e perdemos, nós, apreciadores das artes, que passamos a desconfiar da qualidade dos artistas, que esperamos isenção das grandes instituições e que vemos na arte uma forma de inspiração espiritual e verdadeira.

O mais interessante do documentário de Lewis é que o timing  não poderia ser mais perfeito. Sua pesquisa aconteceu em 2008, ano em que Damien Hirst decidiu dar um passo arriscado, fazendo um leilão independente, desvinculado das galerias que o representam, direto com a Sotheby’s. 2008 também foi o ano em que houve a maior crise financeiro do mundo, desde a Grande Depressão de 1929 por causa da concessão de crédito indiscriminada na economia (o mercado estava cheio de dinheiro pra quem quisesse). Obviamente, as galerias que representavam Hirst estavam aflitas com a possibilidade de um fracasso do leilão, que faria com seus estoques de obras de Hirst perdessem valor. O leilão, suportado pelo suas galerias, a White Cube e a Gagosian, foi um “sucesso” e arrecadou 111 milhões de libras esterlinas. Mas não adiantou. No começo de 2009, alguns meses depois da quebra da Lehman, o preço médio das obras de arte contemporânea cairia numa média de 75%. (Tudo bem, o mercado aqueceu não muito tempo depois). 

Pode ser que Andy Warhol tinha razão quando disse, em 1975, que “making money is art”. Talvez, marketing e showbiz também sejam formas genuínas de expressão na arte contemporânea.

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High Line


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É impressionante a capacidade dos nova-iorquinos de transformarem lugares degradados em hype. E o Meatpacking District – junto com o Brooklyn – foram os últimos bairros revitalizados no melhor sentido possível. Além de todas as lojas sofisticadas (Jeffrey, Vitra, Lars Bolander), os restaurantes (Pastis, Spice Market) e hotéis modernosos (Gansevoort, The Standard – a High Line passa por debaixo do Standard, bem legal -, Soho House), o Meatpacking também tem um jardim suspenso de quase 2 km de comprimento, que ocupa uma antiga e abandonada trilha suspensa de trem (como a Promenade Plantée, em Paris) construída na década de 1930 para evitar os acidentes dos trens nas ruas de Manhattan e que funcionou até 1980. No West Side (sudoeste) da ilha de Manhattan, a High Line começa na Gansevoort e vai até a rua 30 (já no Chelsea), com projetos de Ver Mais →


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A Single Man

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Robes de cashmere, casas ao melhor estilo Wallpaper* (já a de Charlie lembra a casa de Frances Brody, também em Los Angeles), taças de cristal Saint Louis, guarda-roupa Tom Ford men’s wear, cigarros rosa Ben Sherman, linda papelaria. A Single Man  é tudo o que a gente poderia esperar de um filme assinado por um dos grandes nomes da moda comercial dos últimos quinze anos (e hoje uma das coisas mais interessantes na moda masculina).

A história (baseada no livro homônino escrito por Christopher Isherwood, um dos primeiros romances do movimento de liberação gay  da década de 1960) pode parecer um pouco panfletária, datada, em tempos de superexposição gay  (apesar de muitos gays  ainda enfrentarem os mesmos tipos de medos e problemas), e não tem como pensar, em alguns trechos, que estamos assistindo a um comercial de perfume (a gente fica esperando aparecer “The new fragrance by…” a qualquer momento). Mas Tom Ford (por ele mesmo), Colin Firth (em interpretação sutil e intensa à la fois ), Julianne Moore (linda e cada vez mais expert  em interpretar histéricas; sua risada nervosa é sempre imperdível), a lindíssima trilha sonora (vale a pena comprar) e o clima sexy  de muitas cenas fazem de A Single Man  um filme especial e um favorito (como Gosford Park  do Altman). Ver Mais →

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Bastardos Inglórios

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É Quentin Tarantino. É bom. O recorte histórico é interessante. Tem que ver. //Apesar de retratar um dos momentos mais negros e cruéis da nossa história, Inglorious Basterds é ensolarado (sua luz quente nos transporta ao Midi francês), inteligente (com texto multilíngue afiado e um interessante recorte da história da Alemanha nazista – e sim, esses judeus rebeldes que assassinavam nazistas existiram), escrachado e cínico (características do cinema tarantiniano), e ainda nos oferece a possibilidade – essa que é uma das qualidades da ficção – de fazer pensar – e ver – um final que muitos de nós gostaríamos de ter visto: a queda do nazimo pela vingança do povo que sofreu suas atrocidades.

Tudo bem que esses judeus são norte-americanos (sempre eles, os justiceiros do Cinema e da História); usam tacos de baseball  para fazer justiça; Tarantino (para não perder o costume) dá seu toque western  através das fontes do letreiro e de algumas músicas (adoro, principalmente num filme que trata de assunto que não tem nada a ver); falam um inglês repugnante (aquele dos estados do Sul dos Estados Unidos) em contraste marcante com a elegância, a postura e a erudição de europeus poliglotas (com exceção dos alemães nazistas, claro). Mas Quentin Tarantino, talvez um dos símbolos-mor – e produto – dessa cultura de massa norte-americana, faz de seu Inglorious Basterds ainda mais interessante ao trazer para o filme o mundo e a estética do cinema alemão da época – o da propaganda política – e discutir a obra de Leni Riefenstahl, citar diretores alemães (engajados ou não), e, na sequência final, fazer uma referência à Veronika Voss de Fassbinder.

A sensação ao assistir ao filme é a de que Tarantino chega à maturidade. Diferente de seus filmes anteriores (exageradamente vulgares, repulsiva e explicitamente violentos, e apresentando uma forma de arte atraente mas discutível, e que sempre gera debates calorosos), Inglorious Basterds é um belo filme que favorece o roteiro, os diálogos, e em que a violência – claro que ela está lá; sempre explícita – é apenas um acessório. Definitivamente, um turning point  na carreira de Quentin Tarantino.

I know this is a silly question before I ask it, but can you Americans speak any other language besides English?” Bridget von Hammermark, atriz alemã interpretada por Diane Kruger

Outras curtas observações:
— É até engraçado ver o nome de Brad Pitt como protagonista da história. Quem leva o filme do começo ao fim é o coronel inteligente, bonachão e cínico ao extremo, Hans Landa (interpretado por Christoph Waltz).
— Mike Myers, irreconhecível, faz uma ponta no filme como um alta-patente do exército britânico.
Kitsch a perder de vista a roupa da linda tradutora franco-italiana Francesca Mondino durante o almoço de Goebbels.
Elenco cheio de charmosões (Brad Pitt, Eli Roth, Michael Fassbender, Til Schweiger, Denis Menochet, Gedeon Burkhard e vários figurantes alemães).
— Linda e épica a cena final com a imagem de Shoshanna reproduzida na fumaça.
— Por que “Inglorious BastErds” ao invés de BastArds? Quentin Tarantino não explicou e disse que não vai explicar.

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A Fita Branca

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Apenas assistindo ao filme, parece que o diretor austríaco Michael Haneke não teve nenhum outro objetivo a não ser narrar estranhos acontecimentos num vilarejo alemão um pouco antes da eclosão da Primeira Guerra Mundial. Ficamos esperando um desfecho à la Dogville, a tragédia maior, que os responsáveis por tais acontecimentos sejam descobertos e punidos. Mas, assim como na vida, não há uma verdade, não há uma solução. Somos cúmplices dos personagens. Nosso conhecimento acerca dos fatos é tão limitado quanto o deles.

O filme é lento, escuro, apesar da esplêndida fotografia e da força dos personagens infantis (o casting  envolveu mais de sete mil crianças). Klara, a filha do pastor e seu irmão, Martin; Eva, a noiva do professor; e Anna, a filha do médico, são os destaques, assim como o figurino e a elegância da Baronin.

A beleza é reforçada pelas imagens em preto-e-branco (o diretor quis acessar nossa memória coletiva formada através das imagens da época a que temos acesso). O clima é denso, não há trilha sonora (apenas a música tocada por personagens em algumas situações), e o tema do filme é a punição: a educação, a instituição da disciplina e mensagens através do castigo (e, interessantemente, não há sentimento de culpa ou remorso expressado nos rostos dos personagens). Dos mais fortes aos mais fracos, dos mais fracos aos mais fortes e até àqueles que não têm condições de se defender. Cada um pune – educa, manipula – da maneira que pode. E sendo as crianças de hoje os adultos de amanhã e os adultos as crianças de ontem, no fim das contas, quem são as vítimas?

É exatamente aí – nas discussões e especulações fora das telas – que A Fita Branca se torna realmente interessante (claro, o filme também impressiona pela maneira com a qual o diretor conseguiu traduzir a alma germânica em algumas cenas, como quando o pai pastor marca hora para açoitar os filhos no dia seguinte – sem levantar a voz, sooo Deutsch – ou quando o médico humilha a parteira, sua companheira – alguns alemães quando não gostam de alguém ou querem acabar com um relacionamento são capazes de uma sinceridade cruel – sempre sem levantar a voz).

Ganhador da Palma de Ouro em Cannes (2009), de melhor filme estrangeiro no Globo de Ouro (2010) e favorito ao Oscar de melhor filme estrangeiro, Das Weisse Band, num primeiro momento, trouxe à tona a questão da sociedade e dos valores que deram origem à Alemanha nazista (alguns comentaristas até chegaram a fazer uma alusão das fitas brancas que o pai amarra nos seus filhos mais velhos à marcação feita nos judeus nos campos de concentração). As crianças da época do filme eram os adultos das décadas de 1930 e 1940, quando da ascensão do nazismo e da eclosão da Segunda Guerra Mundial. E não custa lembrar que, apesar de hoje a Alemanha sentir vergonha do seu passado, os ideais de Hitler refletiam o pensamento de seu povo à época.

Mas, logo depois, Herr Haneke, em duas entrevistas (à Folha de São Paulo e à New Yorker), esclareceu suas motivações. A seguir, reproduzo – numa colagem e em tradução livre – suas palavras: “Quis tratar da educação que impõe valores absolutos às crianças, que acabam por interiorizá-los. Quis mostrar que, se têm o caráter formado a partir de um princípio absoluto, elas se tornam inumanas. Cada ato terrorista, cada manifestação de fanatismo, seja ele político, religioso ou de outra natureza, é alimentado por essa fonte de intransigência. Qualquer ideia se torna perversa se tem o autoritarismo como ponto de partida. Esse é um tema universal, que não tem ligação direta com a problemática alemã. O filme não é sobre nazismo. Você poderia fazer o mesmo filme – de uma forma totalmente diferente, é claro – sobre os muçulmanos de hoje. Sempre há alguém em uma situação de grande aflição que vê a oportunidade, através da ideologia, de se vingar, de se livrar do sofrimento e consertar a vida. Em nome de uma idéia bonita você pode virar um assassino.

Mas que as crianças podem ser cruéis, ardilosas e dissimuladas, ah, elas podem. Não é mesmo, Klara?

São Paulo, 23 de fevereiro de 2010. 

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Milk

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No começo do filme chocam as cenas reais, de apenas 30 anos atrás, de homossexuais bem vestidos e extremamente constrangidos sendo presos em bares gays através das frequentes batidas policiais nos Estados Unidos da América — país em que palavras como liberdade, igualdade e democracia já fazem parte dos valores do Estado desde a Declaração da Independência, de 1776.

Assim como outros filmes mais autorais e menos comerciais que fizeram o Oscar 2009, Milk leva a assinatura de Gus Van Sant, diretor gay  assumido que sempre esteve em destaque nos festivais de cinema independente. Mas Milk não é um filme autoral. Sem grandes ousadias cinematográficas, Gus Van Sant se preocupou apenas em contar bem a história de Harvey Milk, o primeiro gay assumido a conquistar um cargo público na história dos Estados Unidos — e também continuou a tradição hollywoodiana de atores heterossexuais galãs para interpretar papéis gays; depois de Jake Gyllenhall e Heath Ledger, em Brokeback Mountain; Tom Hanks e Antonio Banderas, em Philadelphia; Rodrigo Santoro, Jim Carrey e Ethan McGregor, em I Love You Philip Morris. E consegue: o elenco (de Sean Penn a Anne Kronenberg, passando por Josh Brolin, James Franco — sempre lindo, até de cabelo cacheado — e Diego Luna – quase irreconhecível), o figurino, a direção, a trilha sonora e as cenas reais (das passeatas e das declarações fundamentalistas da imaculada homofóbica Anyta Bryant*) dão legitimidade à biografia, conseguindo recriar de maneira impecável a vibe da São Francisco antes da epidemia da AIDS, quando a Castro ainda era um bairro alternativo — e barato —, onde gays de toda a América conseguiam viver com mais liberdade.

O olhar mais “livre” de Gus Van Sant talvez se expresse na decisão de mostrar um “hero” humano e com defeitos (algo raro na tradição maniqueísta do cinema norte-americano). O filme mostra como Harvey se utiliza da imprensa para conquistar o que quer, como deixa seus relacionamentos em segundo plano, como está disposto a negociar votos com outros supervisores, e como — assim como todos nós — pode voltar atrás em alguns valores, sendo considerado hipócrita.

Quem deve assistir Milk? Os que acompanham a carreira desse grande ator que é Sean Penn, mas principalmente, os gays da geração pós-Stonewall (eu incluso) que não sabem como era a vida dos nossos semelhantes em um passado não tão distante e que não conhecem aqueles que lutaram e sofreram para que pudéssemos ser mais respeitados e tivéssemos a liberdade da qual desfrutamos hoje.

* Ao final do filme, são mostradas fotos acompanhadas de legendas contando o que aconteceu com cada um dos companheiros de Harvey e de seu assassino, Daniel White. Mas, o filme não mostra o que aconteceu com Anita Bryant. Para quem quiser saber, o Blog do Tony Goes fez essa pesquisa e publicou a resposta aqui.

São Paulo, 1 de março de 2009. 

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