A Velha, dirigida por Bob Wilson

The Old Woman / A Velha

Estreou em 2014, 100 minutos

De Daniil Kharms, adaptado por Darryl Pinckney, dirigido por Robert Wilson

Com Mikhail Baryshikov e Willem Dafoe

Tenho muitas dúvidas quanto à capacidade de uma peça que se utiliza de uma linguagem circense, com uma história-não-história-comédia (tragédia?), absurdista-surrealista com frases que se repetem ad infinitum, que envolve fome, morte-assassinato (ou apenas um pesadelo?), sem personagens (seriam A e B a mesma pessoa, o escritor em apuros?), que nos remete à Beckett, Ionesco ou Kafka (não tente entender a história), se fazer gostar pelo público de forma tão unânime. Mas parece que a última obra do dramaturgo norte-americano Robert Wilson, ou just  Bob Wilson, conseguiu a proeza, não só no Velho Mundo, como também no Brasil.

Não há como não se deslumbar pela beleza plástica e a sofisticação da peça The Old Woman (A Velha, em português), baseado na única novela (de 1939) do poeta e dramaturgo absurdista russo Daniil Kharms, ou Daniil Ivánovitch Iuvatchóv, seu nome verdadeiro, que a escreveu durante a Rússia stalinista. Se você algum dia tentou “controlar a luz”, essa matéria-imaterial que se espalha pelos ambientes na velocidade dela mesma sem pedir permissão, seja ao tentar iluminar um objeto para ser fotografado ou para dar aquele efeito na sala durante um jantar — SEM conseguir o efeito desejado —, vai entender o preciosismo e o rigor extremo e absoluto do trabalho do multitalento de Robert Wilson.

A luz dá o tom: encanta, colore (sem a luz, todo o cenário da peça seria simplesmente branco) e transforma o palco, os objetos e os atores, dando profundidades infinitas. Bob Wilson é conhecido por deixar um ator parado durante horas no palco, imóvel como uma escultura, para afinar a luz de uma determinada cena e, especialmente nesta peça, antes mesmo de pensar o texto, foi o trabalho de iluminação que deu início ao projeto.

Willem Dafoe e Mikhail Baryshnikov possuem uma sinergia e carisma incríveis no palco, apesar de cumprir com o rigor dos movimentos (correm, pulam, dançam, maquiados como palhaços), do texto (em inglês e em russo) e até mesmo da voz (Baryshnikov em vários momentos se utiliza de um falsete para contrapor à voz grave de Dafoe), exigidos pelo diretor.

E a graça vem do absurdo da realidade surreal: as SEIS velhas que caem do terraço e se espatifam no chão, uma após a outra, pela curiosidade de ver a velha que havia caído anteriormente; a discussão que se inicia e se alastra pelo bairro porque o personagem não sabe mais se o sete vem antes do oito ou vice-versa; ou ainda o operador de milagres que não opera nenhum milagre em toda a sua vida, nem mesmo o de reverter a expulsão pelo proprietário de seu próprio apartamento. E a sensação, ao sair do teatro, é uma mistura de prazer — por ter assistido a uma peça única com grandes nomes das artes no mundo (da dança, do cinema e do teatro) — com estranhamento — pelos mesmos motivos.

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