Milão, o começo

Ocupando um local privilegiado — e estratégico — que foi objeto de desejo entre diversas tribos e nações ao longo dos séculos, Milão esteve sob o domínio de diversos povos (etruscos, romanos, godos, lombardos, francos, espanhóis, austríacos, franceses), até finalmente fazer parte da Itália… no século 19 (!). Os primeiros a se estabelecerem às margens do Rio Po (rio que corta a Itália de leste a oeste) foram os celtas, entre os séculos 7 e 4 a.C. E assim como toda a Europa (e parte da Ásia e da África, porque os cara eram megalomaníacos), a região foi tomada pelo Império Romano, que lhe deu o nome de Mediolanum em 222 a.C. (e olha que os celtas tinham a doce ilusão, coitados, de expandir seu território para o Sul, mas encontraram os romanos no meio do caminho expandindo para o Norte e seus planos foram por água abaixo).

Mediolanum, que significava ‘no meio da planície’, se transforma em capital da Transpadania (região que abrigava também as cidades de Como, Brescia, Bergamo, Pavia até Ver Mais →

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A rota do champagne


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Além do fascínio que o champagne exerce sobre o mundo, essa bebida cheia de contradições que é a quintessência dos sentidos tem uma história tão fascinante quanto a da região onde nasceu. Região essa que deu o nome a esse vinho branco espumante indispensável em momentos especiais. Reims, Hautvillers e Épernay está a uma horinha de Paris, o que torna obrigatória uma peregrinação etílica e histórica, pelo menos uma vez na vida, pelas grandes maisons  produtoras da bebida, e pela história da realeza francesa.

HISTÓRIA E CULTURA

Champagne-Ardenne. Região árida que fica no nordeste da França, vizinha a leste da Île-de-France (região onde fica Paris), no cruzamento de uma das maiores rotas comerciais da Europa. É uma das mais frias áreas produtoras de vinho do mundo. Foi aqui que ocorreu uma das batalhas mais sangrentas da história, quando Átila, rei dos hunos, o perigo do Oriente, no ano de 451, reuniu seu exército de 700 mil homens (!) contra seus inimigos – também povos bárbaros – gauleses, visigodos e francos, numa batalha que deixou 200 mil mortos em um dia e corpos despedaçados espalhados pelas colinas de Champagne. Foi também palco de cenas importantes da Guerra dos Cem Anos (protagonizadas pela out-of-this-world  Joana d’Arc), entre a França e a Inglaterra nos séculos 14 e 15. Foi nesse terroir  que foram travadas batalhas das Guerras dos Trinta Anos, da Fronde, das Guerras Napoleônicas, pela sucessão espanhola e os maiores embates da Primeira Guerra Mundial, o período mais sombrio da região. E em cada um desses episódios, as cidades eram saqueadas, vinhedos, queimados. (Isso, sem falar nas guerras entre um feudo e outro, entre cavaleiros sem terra e senhores ambiciosos, desde sempre).

É essa terra cheia de sangue que nos dá o vinho com o qual celebramos a vida. Ver Mais →


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Estreia de Attila no Met, em Nova York

Uma première  está sempre cercada de ansiedade por parte daqueles que dela participam. Ainda mais quando Miuccia Prada estreia assinando figurinos para uma ópera, Herzog & de Meuron – ganhadores do Pritzker Prize 2001, o Oscar da arquitetura – idealizam a cenografia, Pierre Audi dirige a cena e o maestro Riccardo Muti conduz a música. E a estreia da nova montagem de Attila no Metropolitan Opera de Nova York (Met, para os íntimos) não fugiu à regra das noites operísticas. Débuts, acertos, bravos e vaias, marcaram a noite de 25 de fevereiro.

A estreia de Attila, em 1846, no teatro veneziano La Fenice (reaberto em 2003 depois de uma grande reforma), não foi diferente. A nona ópera de Giuseppe Verdi surgiu como uma composição jovem e com vigor patriótico mostrando nuances humanas dos personagens, característica que permearia todas as obras e definiria o estilo do compositor. Os críticos inicialmente não apreciaram a obra, que conta a história do impiedoso rei huno e de sua invasão ao Império Romano no século 5 d.C., mas sua energia patriótica contaminou as massas em performances por toda a Itália, no contexto político do Risorgimento (movimento que buscou a unificação da Itália que, na época, era um grupo de pequenos estados submetidos a potências estrangeiras).

O maestro Riccardo Muti demonstrou por que, ao longo de quase 20 anos, conseguiu a façanha de reger o Scala de Milão – sendo quase um déspota, porém, esclarecido. Sua estreia no Met  foi ovacionada desde que o napolitano deu seus primeiros passos rumo à orquestra. Sua regência foi leve, sutil e impressionou ao atrelar com maestria a orquestra, os cantores e o coro. Foi aplaudido de modo curioso pela plateia que, ao final da récita, fez questão de demonstrar que as vaias conferidas à montagem a ele não se dirigiam.

Passagem especial de sua regência foi a ária Avrai tu l’universo, resti l’Italia a me!  (“Você pode ficar com o universo, mas deixe a Itália para mim”), que possui significado especial para todos os italianos. E dá para imaginar o quanto tal reivindicação comoveu o público em 1846, quando a Itália ainda estava sob a égide francesa e austríaca e clamava por sua tão almejada autonomia política. Na estreia da ópera, a performance teve que ser interrompida inúmeras vezes, tamanha a comoção do público veneziano.

O figurino idealizado por Signora  Prada impressionou a plateia jovem do Met, que se maravilhou com o capacete luminoso de Attila, o vestido amarelo reluzente de Odabella, a capa de couro portentosa do general romano Ezio, o branco cativante das vestes do Papa Leo I, acompanhadas, é claro, dos sapatos vermelhos que a Prada confecciona para o atual Papa Bento 16. Entretanto, a tentativa da designer  de contextualizar os figurinos de modo mais jovial, moderno e direto, não foi unanimemente bem recebida pela tradicional plateia. O New York Times, por exemplo, comparou o look  de Odabella à Marge Simpson e o capacete reluzente de Attila a um artefato espacial.

Ainda mais controvérsia gerou os cenários by Herzog & de Meuron e a direção de Pierre Audi que, ao entrarem no palco, foram vaiados de pé por parcela significativa do público. Tais vaias também foram ouvidas na première de Tosca, que contou com cenários ousados e abordagens pouco ortodoxas quanto à direção de cena. Sem querer entrar nas vicissitudes da montagem de Tosca, nota-se que há algo em comum entre as duas montagens, o que pode ter despertado a repulsa do público nova-iorquino.

Ambas as montagens afastaram-se do modelo tradicional de encenação, que segue à risca a descrição dos libretistas e compositores quando da elaboração do libretto, realçando nuances que constam no texto, mas que não são tão óbvias à primeira leitura. E tal movimento, em uma plateia acostumada a irrestritamente aplaudir as montagens não tão ousadas do italiano Franco Zeffirelli, pode não ser bem-vindo.

A ÓPERA
Attila começa a ser encenada em cima dos escombros da cidade romana de Aquilea. Os cantores cantam a quase 5 metros acima do nível do palco, cercados por expressiva destruição. Tal cenário oprime, sufoca, impressiona. Condizente, portanto, com a aniquilação de uma cidade. O segundo e terceiro atos ocorrem no acampamento de Attila, retratado por Herzog & de Meuron como uma densa floresta, cujas cores e exuberância mais remetem à floresta amazônica do que a uma floresta temperada italiana. As escolhas de certo modo limitaram o jogo de cena entre os personagens, pois realçam a exuberância das cercanias do acampamento de Attila, mas não se constrói uma relação direta com a psique dos personagens. Nas palavras de Herzog & Meuron: “Nossa abordagem restringiu-se às descrições que Verdi apoiava: destruição, ruína, lagoas, florestas e escuridão – tudo abordado de modo naturalista”.

Interessante notar que na noite seguinte à première  de Attila assisti a La Bohème, com cenários de Franco Zeffirelli. O retrato fidedigno de Paris maravilhou a plateia. A cada mudança de cena, as senhoras que me cercavam ecoavam um longo “Ahhh” e aplaudiam. Zeffirelli sabe como poucos retratar o belo, que muitas vezes em suas mãos se torna óbvio. Acredito que suas montagens foram e são fundamentais para o mundo da ópera, que é um gênero artístico capaz de contemplar tanto o tradicional quanto o novo. Importante, contudo, não se esquecer do novo.

Por Paulo Guimarães

Nova York, 18 de março de 2010.

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