Ritz-Carlton Kyoto: Quartos muito confortáveis, mas áreas públicas escuras e um spa completamente ocidental, onde usar touca na piscina é obrigatório
Poucas cidades no mundo resistiram tanto — e por tanto tempo — à homogeneização da hotelaria de luxo global quanto Quioto (que ainda segue resistindo à verticalização, ao gigantismo e à ostentação arquitetônica). Fundada como capital imperial no ano de 794 — status que manteve por mais de 1.000 anos, até 1868, quando a corte se transferiu para Edo, atual Tóquio —, Quioto preserva até hoje uma das legislações urbanísticas e patrimoniais mais rigorosas do mundo, a ponto de não ter recebido hotéis de redes internacionais até o fim dos anos 2000.
Inaugurado em 2014, o The Ritz-Carlton Kyoto foi o primeiro hotel de luxo de uma rede internacional a se instalar na antiga capital imperial japonesa. Até então, viajantes sofisticados se hospedavam em ryokan centenários, como o Tawaraya e o Hiiragiya, ou ainda no Okura, um dos raros hotéis mais “ocidentalizados”, inaugurado ainda em 1888. Construído do zero, com apenas sete andares — três deles abaixo do nível da rua para respeitar as restrições de gabarito da cidade —, o Ritz-Carlton Kyoto paga um preço arquitetônico por isso: a pouca iluminação natural nas áreas públicas como o lobby e os restaurantes, e a dificuldade de se contemplar as estações lá fora — especialmente durante o café da manhã, um momento naturalmente solar do dia.

O hotel The Ritz-Carlton Kyoto às margens do rio Kamo. Imagem: Shoichi Iwashita
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QUARTO COM TUDO O QUE HÁ DE MELHOR, MAS MUITAS REFERÊNCIAS AO MESMO TEMPO

A cabeceira da cama é apenas linda com essa luminária de cerâmica mais a luz de leitura, mesa de laca preta com detalhes em laca vermelha. Imagem: Shoichi Iwashita

Materiais de qualidade, total conforto, mas são muitas as referências e diferentes acabamentos que acabam competindo pela atenção. Mas, além do móvel da cama, eu amei a mesa que serve como mesa de trabalho e refeição. Imagem: Shoichi Iwashita.

As boas-vindas com as incríveis frutas japonesas — e um mapinha ao lado para mostrar de onde elas vêm: morangos de Kyo-no Shizuku, cerejas de Nagano, laranjas de “verão” de Wakayama. E, aí, não consigo entender por que o hotel coloca águas Panna e San Pellegrino e sucos franceses em um país com tanta tradição em águas e águas minerais tão incríveis (Fillico, Fujiseisui, Ryusendo) . Imagem: Shoichi Iwashita

As duas camas queen juntas, com mais de três metros de largura, resultaram na maior cama que já dormi na vida. Dava para dormir completamente na transversal. Mas o que mais impressionou foi o fato de eles terem travesseiros e roupas de cama deste tamanho. Imagem: Shoichi Iwashita

Linda bandeja de laca para abrigar as amenidades de beleza. Para os cosméticos, tudo da marca francesa Dyptique — que eu amo, mas nos hotéis europeus. Imagem: Shoichi Iwashita
Os quartos do Ritz-Carlton Kyoto — o menor com espaçosos 50 metros quadrados e equipados com tudo o que um viajante sofisticado pode precisar — funcionam como um belo repositório das artes decorativas japonesas. É inquestionável a qualidade dos materiais utilizados no enxoval e no projeto de interiores. As almofadas de seda com motivos de cerejeiras, por exemplo, foram tecidas por artesãos de Nishijin, o bairro que há mais de mil anos é o berço da produção de tecidos de alta qualidade para kimono. Elas compõem a decoração com lindos móveis e acessórios de laca preta, madeiras ripadas e até um bonsai — um por quarto!
Mas há excessos. Como o carpete estampado com padronagens e nuvens e as paredes com a chuva de pétalas de cerejeiras — o hanafubuki — em relevo na área molhada do banheiro, juntos com todo o resto. Tantas referências acabam por competir entre si, e o que se perde nesse processo é justamente o que define a sofisticada estética japonesa: o ma, o vazio carregado de significado; o yūgen, o encanto daquilo que não se revela por completo; o shibui, a elegância contida, sem ostentação.
Ainda assim, duas coisas me chamaram a atenção: a belíssima cabeceira da cama — também com uma estampa de padronagens — com luminárias de cerâmica e a incrível solução da mesa de trabalho, uma das melhores que já vivi. Instalada em um nicho de madeira que cria um aconchegante ambiente-dentro-do-ambiente e centralizada em relação à grande janela do chão ao teto, ela é acompanhada de um móvel lateral de apoio facilmente acessível onde ficam as tomadas, oferece uma vista confortável para a rua e para a TV, e ainda acomoda uma pessoa de frente para um chá ou mesmo uma refeição. Nada de mesa colada na parede e sem vista, ou com vista para TV mas de costas para a janela (quando a luz do exterior faz reflexo na tela do computador).
THE RITZ-CARLTON KYOTO: PRÓXIMO A DUAS LOJAS-INSTITUIÇÃO DA CIDADE
Considerando que as principais atrações de Quioto são completamente descentralizadas, gosto do fato de que o Ritz-Carlton Kyoto esteja a apenas 500 metros de duas lojas-instituição da cidade — a Zohiko, a mais antiga e respeitada casa de lacas de Quioto, fundada em 1661, e a Ippodo, loja especialista em chás (pense em matcha, gyokuro, sencha, bancha), fundada em 1717 —, além do incrível Uzu Vegan Ramen, restaurante concebido pelo time criativo do teamLab. Já a posição às margens do rio Kamo, apesar da simbologia que o curso d’água tem para a cidade, não impressiona neste trecho — e, na maioria dos quartos, a vista acaba parcialmente bloqueada pelas copas das árvores.
FALTA ILUMINAÇÃO NATURAL NAS ÁREAS PÚBLICAS

Falta um pouco de ambiente ao bar que divide o amplo salão com o restaurante, mas eles têm coleção incrível de uísques japoneses. Imagem: Shoichi Iwashita

O acesso aos salões de eventos que toma (e divide) os espaços do lobby. Imagem: Shoichi Iwashita

Um dos destaques da Locanda, restaurante italiano do The Ritz-Carlton Kyoto — restaurante onde é servido o café da manhã —, são as duas salas privativas chamadas Ebisugawa-tei. Com capacidade para seis e oito pessoas, a estrutura é toda original da casa do fundador da Fujita e conta com madeiras com mais de 700 anos. Imagem: Shoichi Iwashita

Café da manhã japonês servido nesta belíssima bandeja kumiko, uma técnica tradicional de marcenaria que cria padrões geométricos encaixando pequenas peças de madeira, sem usar pregos; mas com luz de jantar. Imagem: Shoichi Iwashita

A piscina do spa do hotel, onde toucas são obrigatórias para entrar na água. Imagem: Shoichi Iwashita
O hotel tampouco se destaca no quesito projeto, principalmente das áreas públicas. Não emociona a chegada com uma rampa de garagem seguida de escadas que leva para o lobby, onde o lounge-salão-de-chá frequentado por madames quiotoitas com uma loja Pierre Hermé dão as boas-vindas antes mesmo da recepção. Por estar em um nível abaixo do solo, tanto o lobby quanto os restaurantes são escuros e o acesso à área de eventos no coração do edifício — o Ritz-Carlton Kyoto é bastante procurado para eventos e casamentos — traz um ar mais corporativo ao hotel como um todo.
Aí, tem o spa, desenhado para o viajante ocidental, mais especificamente para os estado-unidenses. Embora a estrutura seja excelente — as salas de tratamento, a academia, a piscina, a sauna —, o projeto ignora completamente a tradição dos banhos japoneses. Na piscina, é obrigatório usar touca. Como a sauna fica na área da piscina, ela é mista, e, por isso, é obrigatório usar roupa de banho (o que não seria o caso se essa sauna estivesse em países de tradição germânica e escandinava, dos quais a cultura japonesa se aproxima em relação à nudez). A roupa de banho é obrigatória até no ofuro dentro do vestiário masculino, destoando frontalmente da cultura local, em que o banho é um ritual profundamente codificado e, sobretudo, realizado sem qualquer roupa. Nenhum tecido deve ser imerso na água do banho.
Essa lógica de adaptação às expectativas do viajante internacional, em especial ocidental, e que faz parte da cultura da hospitalidade, resulta em uma simplificação, um quase esvaziamento de aspectos fundamentais da cultura local. O Ritz-Carlton Kyoto, sem sombra de dúvida, cumpre bem o seu papel ao entregar uma estadia sofisticada e confortável e um serviço de excelência. Mas, em uma cidade como Quioto, onde forma e significado caminham juntos há mais de mil anos, esse conflito entre o local e o global leva a uma reflexão: até que ponto adaptar é também perder?
QUANTO CUSTA SE HOSPEDAR NO THE RITZ-CARLTON KYOTO
O quarto de entrada — o Deluxe, com 50 metros quadrados e banheira — tem diárias a partir de USD 1.200,00, em tarifa flexível e com café da manhã incluso para até duas pessoas.
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