Considerações sobre o papel do turismo de luxo – incluindo os viajantes – por um mundo mais sustentável

Veneza, que tem 260 mil habitantes, recebe 70.000 turistas na alta temporada. Por. Dia. Imagem: Getty

Quatro BILHÕES de passageiros foram transportados pelas companhias aéreas em 2017 (sem contar as viagens por terra e por mar). E a projeção é que esse número aumente em 5,6% em 2018 (o que é um grande problema para o planeta, saiba por que mais abaixo). E a pergunta é: como  qualquer coisa de genuíno pode sobreviver em Reykjavik, a pequena capital da Islândia com 122 mil habitantes, quando em dez anos a cidade passou a receber 2,5 milhões de turistas por ano (eram 450 mil em 2007)? Pedaços de paraíso na Terra como a ilha filipina de Boracay e também seis das mais populares ilhas da Tailândia (de Koh Samui a Koh Khai Nai) acabam de banir turistas por alguns meses, apesar de o turismo representar praticamente 20% do PIB nacional. E tem mais: nos últimos dois anos, Milão criou uma lei proibindo paus de selfie, Florença lançou uma cartilha de bons modos para turistas mal educados, e em Barcelona, Amsterdam e Veneza assistimos a protestos de moradores contra o turismo, uma vez que suas vidas têm sofrido mudanças drásticas por conta da invasão de turistas provocada pela democratização das viagens (barcelonins, por exemplo, não conseguem mais fazer suas compras de mercado na Boquería por conta da quantidade de gente com  celulares e câmeras fotográficas; os aluguéis nessas cidades têm aumentado a um ritmo de 15% ao ano — muito acima da inflação —; e só Veneza tem recebido 70.000 turistas por dia e está prestes a proibir todos os navios de cruzeiros de suas águas).

Além do fato de ser completamente impossível contemplar a beleza de uma paisagem com três mil turistas disputando o ponto mais famoso fazendo — as mesmas — selfies (não há beleza que resista à vulgaridade), as consequências do turismo de massa são muitas e graves: excesso de lixo e falta de estrutura para administrar esgoto excedente; degradação ambiental e diminuição da biodiversidade (quase sempre irrecuperável, como a morte dos corais); comportamento inadequado e desrespeitoso por parte dos estrangeiros; transformação da cultura local em show-para-turista-ver  (artificial ao máximo já que o dinheiro se torna mais importante que a manutenção das tradições); construções ilegais e, ainda, a terrível especulação imobiliária que resulta em gentrificação (quando pequenos negócios e moradores de longa data são expulsos de seus bairros por conta dos aluguéis cada vez mais caros para dar lugar a lojas Starbucks e Chanel; imagina que acaba de abrir o primeiro Starbucks em Milão, a cidade mais elegante deste país que tem uma cultura de café consolidada e que nunca vai trocar a xícara de porcelana por um copo-lixo  de papel; quem, em sã consciência, vai trocar um espresso ristretto  no balcão das pasticcerie  Marchesi pelo café ultratorrado do Starbucks?!).

A RESPONSABILIDADE DA INDÚSTRIA DO TURISMO DE LUXO (E DO VIAJANTE ABASTADO)

Em um mundo com problemas políticos e sociais cada vez mais complexos, e onde cada vez mais pessoas possuem condições financeiras para viajar, com uma frequência cada vez maior e para cada vez mais longe — hoje estar sempre viajando é quase uma cobrança social graças às campanhas publicitárias que fazem do viajar sinônimo de liberdade e aproveitar a vida, e influenciadores sempre ostentando sua vida jet-setter nas redes sociais (mesmo quando a viagem não é tão legal assim; a verdade passa longe do Instagram) —, o que diferencia os viajantes sofisticados do resto dos turistas mal educados é a consciência refletida no comportamento. Porque sofisticação é muito mais sobre ideias e atitudes — ética, generosidade, gentileza, empatia, respeito com as diferenças, com o ser sustentável — que patrimônio, erudição ou se vestir bem e/ou com roupas, bolsas, joias e relógios caros (esses só têm dinheiro mesmo).

É aí que entra a responsabilidade tanto da indústria de turismo de luxo (que tradicionalmente deveria sempre estar à frente ditando tendências em excelência) quanto dos viajantes abastados, que têm o poder de provocar mudanças importantes cobrando coerência e atitudes sustentáveis dos lugares que frequentam — de restaurantes a salas VIP de aeroportos — e influenciando não só o comportamento de seus pares como também das pessoas que os enxergam como referência. Como é um universo menos sensível a preço e, em muitos aspectos, ainda é caro ser sustentável, a indústria do turismo de luxo possui o poder econômico (e mais independência das políticas governamentais) para garantir que praias, paisagens, bairros e cidades históricas sigam existindo de forma que possamos, um dia, voltar. E como já vimos, nem sempre a renda advinda do turismo de massa é benéfica para os destinos.

VIAJAR É POLUIR: UM VOO TRANSATLÂNTICO EMITE, POR PASSAGEIRO, A MESMA QUANTIDADE DE CO2 QUE UM ANO DE CARRO

Flightradar24-Coverage-2016-1024x429A sustentabilidade nunca poderia ser o único objetivo de uma viagem, senão a gente nunca viajaria. Já começa ao decolar para as tão sonhadas férias. Um singelo voo São Paulo – Paris queima no ar 100 TONELADAS DE COMBUSTÍVEL (e são mais cem mil voos por dia em todo o mundo, imagina). Os rastros de vapor em alta altitude e a produção de ozônio troposférico, junto com a queima do querosene, fazem com que a aviação só perca para a pecuária na emissão de gases de efeito estufa responsáveis pelo aquecimento global. E tem mais: dividindo o valor total de CO2 produzido por passageiro em classe econômica, a sua pegada de carbono neste voo apenas será de UMA TONELADA de CO2eq (113 g por quilômetro voado), ou seja, o mesmo que dirigir um carro o ano todo em, reitero, apenas 12 horas de voo. Se você estiver viajando em classe executiva, pior: a sua pegada de carbono triplica, já que você ocupa um espaço maior dentro do avião (na primeira classe, então, nonuplica: nesse voo GRU – CDG você terá emitido a mesma quantidade de gás carbônico que nove anos dirigindo um carro). A imagem acima — que sempre me impressiona é um print do site Flight Radar, que mostra todos os voos acontecendo neste exato momento. Imagem: Reprodução internet.

Por isso, já em terra, priorize o andar, o transporte público — mas sempre faço um mix  de ônibus, metrô e carro ou táxi, porque de metrô a gente não vê a cidade — e o uso de bicicletas quando a cidade tiver uma cultura de respeito aos ciclistas, claro (só ando de bicicleta no Japão ou na Alemanha, que são países onde o trânsito é bem seguro, porque já quase fui atropelado em São Paulo e Paris; nesses lugares mais perigosos, bike  só de madrugada).

GASTRONOMIA: ORGÂNICO, LOCAL, SEM CARNE…

Se antes só caros restaurantes gastronômicos ofereciam os melhores ingredientes, hoje, felizmente, já são muitos os lugares, mais acessíveis, com comida de verdade: ingredientes sem os agrotóxicos que nos envenenam dia após dia, cultivados em terra não contaminada, produzidos por pequenos produtores locais e pagos de forma justa; com receitas que não utilizam alimentos industrializados ultraprocessados; que respeitam a sazonalidade da natureza; cujas carnes e derivados de animais estão livres da energia da crueldade; com cartas de vinhos naturais, orgânicos e biodinâmicos (a grande maioria dos vinhos hoje utiliza tanta química que se torna tão artificial quanto comida industrializada); e que não precisam pegar avião para chegar ao restaurante (mas é preciso lembrar que muitos destinos onde não existem recursos para a produção de alimentos — como Dubai, Saint-Barth, Saint-Martin, Seychelles — precisam importar quase toda a comida de avião…). E é isso que tenho feito em grandes cidades do mundo: frequentado ou grandes restaurantes que aliam ingredientes de procedência à técnica em ambientes elegantes, ou restaurantes vegetarianos-veganos-orgânicos, a maioria bastante charmosa, onde paga-se bem menos para comer bem, local, justo e saudável. {Confira aqui a nossa lista de restaurantes vegetarianos prediletos em São Paulo, clicando aqui, e em Paris, clicando aqui.}

E não dá para falar sobre alimentação sustentável, esse item tão importante de qualquer viagem, sem falar da carne. A pecuária hoje não só é a causa número um das mudanças climáticas (os ruminantes — vacas, cabras, ovelhas, búfalos — são responsáveis por 90% da emissão de gás metano, 25 vezes mais nocivo que o CO2), mas também é responsável por 80% do desmatamento das florestas brasileiras (a cada 18 segundos um hectare da Amazônia é convertido em pasto e, desde 1990-ontem, já foram destruídos 239 milhões de hectares de florestas). E não para por aí: a pecuária consome metade da produção mundial de grãos em forma de ração (se considerarmos a ração para produção de frango e de ovos, esse montante sobe para 80%), e ainda tem a quantidade vultuosa de fezes e sangue descartados sem tratamento, e o consumo tão-vultuoso-quanto, responsável por 30% do consumo global de água potável: para produzir um quilinho  de carne bovina — entre a quantidade utilizada para a produção dos grãos que viram ração e a água que os bovinos bebem em vida até serem abatidos — são necessários 15 mil litros de água, o equivalente ao que se usa para tomar banho durante um ano todo. Conscientes disso, grandes chefs  como Alain Ducasse, Alain Passard, Dan Barber, Thomas Keller têm reduzido muito a oferta de carne em seus restaurantes, e tampouco faltam menus-degustação completamente vegetarianos e extremamente criativos (sempre digo que cobrar US$ 350 por um jantar com caviar, vieiras, lagosta e cordeiro é fácil; cobrar o mesmo valor por um menu só com folhas, grãos e legumes faz com que os chefs  se superem na criatividade). Assim, se for para comer carne, que seja nas ocasiões especiais que é jantar nesses restaurantes, pois os animais são criados soltos, não crescem com hormônios e outros remédios visando o aumento da produção, e serão impecavelmente preparados e apresentados. Sua saúde e o planeta agradecem.

… E SEM PLÁSTICO

E aí vem o plástico. Quando me hospedei no Uxua em Trancoso e vi que eles não tinham aquele monte de amenities  em pequenas embalagens plásticas (os cosméticos ficam em recipientes de cerâmica e não podem ser levados embora) e todos os sacos de lixo da casa eram de papel, aquilo virou um novo benchmark  para mim. No The Brando, então, (considerado o melhor e mais luxuoso hotel do mundo, na Polinésia Francesa), a sustentabilidade é levada a um patamar absoluto (a gente nem pode usar protetor solar comum — que acaba com os oceanos —, apenas os que eles deixam nas villas especialmente desenvolvidos para não interferir nos ecossistemas marinhos; leia a crítica completa, clicando aqui). É inadmissível  que, em 2018, bares, cafés, hotéis, restaurantes de luxo sirvam sucos e drinques com canudos plásticos (#nostraw), nos cobrem por água também em garrafas plásticas (no Japão, nos Estados Unidos, no Rio e no Factorio, em São Paulo, a água é gratuita e servida em abundância na mesa; mais absurdos são os lugares que vendem água em garrafinhas de 310 ml, sendo preciso pedir duas ou TRÊS durante UM almoço!), e ainda café feito com cápsulas (3 g de lixo tóxico para 6 g de pó para um cafezinho), gerando uma enorme quantidade de lixo não-reciclável-não-biodegradável para coisas tão simples como tomar água, suco ou café (a boca mais os copos de vidro e xícaras de porcelana, coadores de pano e papel e máquinas de espresso, já são uma tecnologia mais que perfeita). Por isso, em casa, prefira café coado e, na rua, espresso  sempre em xícara de porcelana tirado na máquina (me recuso a tomar café em copo de papel ou, pior-pior, isopor); água sempre na sua garrafa de alumínio na bolsa ou em vidro nos lugares que a gente ama e respeita; e canudos plásticos, nunca. Preocupe-se em gerar o mínimo de lixo possível nessas atividades tão cotidianas.

AINDA SOBRE ANIMAIS: APAGUE DAS REDES SUA FOTO COM GOLFINHO EM CATIVEIRO

São inúmeras as denúncias sobre maus tratos de baleias, golfinhos, elefantes, tigres em atrações turísticas. Lugar de animal é na natureza, solto e livre da influência humana (nem alimente os bichos, interferindo em seus hábitos de caça). Se quiser ter contatos com animais selvagens, é para isso que existem os cruzeiros de expedição — como os megaiates de luxo da Ponant, da Silversea, da Lindblad/National Geographic —, os safáris, os mergulhos, os binóculos. Chega de circos, zoológicos, aquários, rodeios, passeios de elefantes, parques com animais selvagens que foram sequestrados de seus habitats e cruelmente adestrados para a diversão de turistas alienados. Apague das redes as suas selfies  com leões e tigres dopados e golfinhos em cativeiro (pega muito mal e afasta os crushes  mais inteligentes). E denuncie sempre essas práticas.

QUANDO VIAJAR PARA PAÍSES POBRES, DEIXE SUA PENA EM CASA

Nos Estados Unidos, se você sair de um restaurante sem dar no mínimo 18% de gorjeta sobre a conta, é bem capaz de o garçom sair na rua atrás de você te cobrando o tip. Japoneses ficam ofendidos com qualquer insinuação de gorjeta, apesar de não terem o costume de demonstrar suas emoções. Nos países muçulmanos, não ouse cumprimentar uma mulher com um beijo no rosto ou um aperto de mão ou mesmo olhar nos olhos. Uma vez que é bem fácil cometer gafes em países cuja cultura é diferente da nossa, a grande lição de casa de todo viajante de respeito é estudar o destino antes de viajar. Por isso, procure artigos sobre costumes nas seções de viagem dos grandes jornais do mundo, leia livros e assista aos documentários no Youtube sobre a história, se inteire sobre a situação político-econômica atual do destino a ser visitado (acho o máximo gente que viaja para as bolhas dos resorts  das Maldivas e não sabe que o arquipélago é um país muçulmano radical regido pela sharia  e está em uma guerra civil; e, pior, vão e voltam sem saber…), e o mais importante: esteja com os olhos e o coração abertos para observar e compreender a maneira como os outros povos enxergam a vida, como eles lidam com as dificuldades, como eles celebram os aniversários, os casamentos, as mortes. Se tem uma coisa que torna as viagens especiais é voltar transformado, mesmo que um pouquinho, com um olhar diferente sobre nossas vidas e relações. E quanto mais eu viajo, mais fico surpreso quando encontro pessoas com certezas e convicções tão sólidas a respeito de tantos assuntos…

Deveria ser óbvio mas, infelizmente, não é: respeite o país que está te acolhendo, os costumes, os monumentos, os símbolos, e, principalmente, toda a diversidade de gente que você vai conhecer onde você estiver (é você  o estranho, o estrangeiro). Comporte-se como você gostaria que convidados se comportassem na sua casa. Não tire fotos do interior de templos e igrejas se não for permitido (pode não ser para você, mas esse é um local de fé para outras pessoas). Respeite — e por que não experimentar? — as vestimentas locais tradicionais. Tirar sarro de pessoas com costumes diferentes dos seus não tem a menor graça. E muito importante: se estiver viajando para países pobres, mesmo fazendo um trabalho voluntário, não pose de olha-como-eu-sou-super-legal-e-generoso-ajudando-esses-pobres nas redes sociais (já vi gente que postou foto com crianças negras na África exatamente do mesmo jeito que posou com gorilas no dia anterior). Tenha empatia pelo sofrimento das gentes-como-a-gente, não reforce estereótipos, e avalie muito o impacto da sua presença nesses locais. A melhor caridade é aquela que ninguém precisa saber. “Quando, pois, deres esmola, não faças tocar trombeta diante de ti, como fazem os hipócritas nas sinagogas e nas ruas, para serem glorificados pelos homens. (…) Quando tu deres esmola, não saiba a tua mão esquerda o que faz a tua direita; E, quando orares, não sejas como os hipócritas; pois se comprazem em orar em pé nas sinagogas, e às esquinas das ruas, para serem vistos pelos homens. Em verdade vos digo que já receberam o seu galardão.” (está na Bíblia e acho tão elegante…).

TENTATIVA DE CONCLUSÃO: VIAJE MENOS MAS COM MAIS PROFUNDIDADE

É pretensioso passar por uma ou duas cidades, conhecer alguns bairros e monumentos, por alguns dias, em uma única viagem, e afirmar que conhece um país (não raro vemos pessoas dizerem conhecer 32, 40, 57 países; é como passar  por São Paulo ou Rio e dizer que conhece o Brasil). Uma viagem exige tempo. O tempo da pesquisa prévia, das decisões e do planejamento das experiências; o tempo da leitura e do usufruto do destino; e o tempo da assimilação de todas as paisagens, histórias e momentos vividos… Porque essa é a lógica destruidora do bucket-list  dos viajantes compulsivos, dos turistas que prezam a quantidade e a superficialidade, do consumismo exacerbado de produtos aplicado ao mundo das viagens. Por mais que saibamos que a nossa existência hoje, junto com a necessidade que virou viajar, não sejam sustentáveis, dificilmente deixaremos de perambular pelo mundo. Mas que tal viajar com mais profundidade, como se cada destino fosse um livro a ser descoberto? Que tal estar disposto a pagar mais e apoiar destinos e negócios que se preocupem com a sustentabilidade? E que tal modificar, pouco a pouco, hábitos singelos mas tão nocivos para a natureza, reduzindo o consumo, gerando menos lixo, e se preocupando com o bem estar de todos os seres sencientes com os quais dividimos o planeta? Viajar é um exercício gigantesco para a alma. É quando através das experiências longínquas nos confrontamos com as nossas crenças e descobrimos quem somos de verdade; e nos transformamos. E o barato sempre sai caro, para alguém ou para a natureza. Que a indústria do turismo de luxo abrace essa causa.

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