Não respondi o whatsapp; nada pessoal

Mesmo se o dia tivesse 80 horas, ainda assim seria impossível ver todas as atualizações, comentários, conversas e matérias compartilhadas pelos amigos e pessoas que seguimos nas timelines  do Facebook, do Instagram e do Twitter (e as mensagens inbox  e direct ); além de responder todos os e-mails de trabalho (prioridade), ler todos os links  interessantes das newsletters; ver todos os novos vídeos dos canais que a gente assina no Youtube, os snaps  do Snapchat (tem gente que parece não conseguir mais viver sem compartilhar cada minuto do dia) e acompanhar todas as mensagens banais, vazias, esdrúxulas dos cada vez mais numerosos grupos no Whatsapp (não participo nem dos grupos da família). Isso por que ainda tem as centenas de jornais, revistas, sites, blogs  e portais, canais e programas de televisão e séries favoritos.

A acessibilidade é uma das principais características do nosso tempo. Temos acesso a informações de qualquer parte do mundo e de qualquer pessoa. Acompanhamos diariamente a intimidade, as conquistas e as viagens não só dos perfis das pessoas que seguimos no Instagram (sem saber por quê, muitas vezes), mas também de dezenas de pessoas que só vimos uma vez na vida. E quase a todo instante é preciso tomar uma decisão: viver a vida real, aquela que faz uso dos cinco sentidos, que cria memórias, ou viver a vida através das telas onipresentes e viciantes do computador, da TV, do iPad e do celular, telas essas que editam e manipulam a vida, sempre de forma suspeita e quase sempre irreal (basta você ir à casa de um amigo e comparar com as fotos que ele posta nas redes sociais: não é  a mesma casa, ou ver as fotos das praias paradisíacas que nunca incluem os mosquitos, o calor desconfortável, a pobreza da população local, a dificuldade de se chegar lá, o drinque aguado — ou a falta de banheiros — e nunca mostram as partes menos fotogênicas mas REAIS). Quantas horas por mês você passa scrolling-eternamente-down vendo O NADA nas redes sociais?

Nesse contexto complexo surge a cobrança de pessoas próximas e de pessoas nem-tanto-assim  que, hoje, a um clique de distância e na palma da mão, vêm, sem o MENOR constrangimento, interrogar por que você não respondeu o comentário que ela deixou no seu post, por que você não curtiu as fotos dela, por que você deixou de segui-la no Instagram (ela só posta selfies  há cinco anos), por que você leu e não respondeu o inbox ou o whatsapp. O tempo está cada vez mais escasso para qualquer pessoa que trabalha e que gosta de fazer esportes e se dedicar à família, ao namorado, à leitura (alguém ainda tem tempo para ler?) e é simplesmente impossível  estar sempre inteiramente à disposição para responder à necessidade de atenção dessas pessoas que, de tão egoístas, só querem ter sua carência imediatamente suprida e pouco se importam com a possibilidade ou disposição do outro em retribuir.

AMOR E AMIZADE NÃO SÃO COISAS PASSÍVEIS DE SEREM COBRADAS

Assim como o amor, a amizade é uma conexão que só pode existir de forma espontânea e mútua. Depende da atração, da empatia e, principalmente, da abertura que as duas partes sentem — ao mesmo tempo e de forma quase mágica — de dedicarem esforço e tempo para que a convivência exista. E a cobrança, essa que o cobrador pratica talvez ingenuamente com o objetivo de fortalecer o relacionamento, tem quase sempre efeito contrário: a cobrança gera stress  em ambas as partes (o cobrador se frustra por não ter a atenção que ele quer, o cobrado se vê obrigado a lidar com a situação, em oferecer uma resposta), que acaba por enfraquecer os laços, afastar o amigo. O carente cobrador cava sua própria solidão.

Excesso de trabalho, problemas de saúde, na família ou no relacionamento, ou ainda a simples vontade de, naquele momento, estar sozinho, quieto, no seu cantinho, são motivos genuínos que podem fazer com que você não esteja tão acessível apesar de estar online. E o fato de o destinatário da cobrança não responder imediatamente — ou não te seguir no Insta — não significa que ele não goste ou esteja desmerecendo o remetente. É uma delícia se relacionar com amigos que nada exigem, que aceitam e respeitam os diferentes tempos e momentos de cada um (o respeito deve sempre ser recíproco), pois quando o reencontro acontece — quase que sempre natural e espontaneamente, sem pressões, mesmo que virtualmente —, ele é sempre especial e o carinho frequentemente continua ali, intacto, apesar dos vários meses de distância e das poucas mensagens trocadas. E são essas relações leves e compreensivas que tendem a ser duradouras.

Seja digno e elegante: não cobre atenção, não exija amizade. Escreva para todos quando sentir vontade, comunique sua saudade, mas não espere resposta imediata ou na mesma intensidade. Se o objeto da sua amizade decidiu trilhar caminho diferente e não houver mais espaço para a amizade, é a vida, que segue. Lute por tudo  na vida, mas nunca por essas dádivas que só existem, de verdade, de graça.

VEJA MAIS


shoichi.simonde@gmail.com