Passeio imperdível de um dia na Provence: Roussillon, Gordes e a Abadia

Gordes, um dos vilarejos "empoleirados" da Provence, visto da Route de Cavaillon. Imagem: Shoichi Iwashita

Vilarejos empoleirados (em francês, villages perchés ): é assim que é conhecida a maioria dos vilarejos fortificados típicos da Provence que cresceu no alto das montanhas — e que sempre rendem vistas incríveis da estrada — para se proteger das constantes invasões ao longo dos séculos, principalmente durante a Idade Média e o Renascimento (por causa da Guerra das Religiões no século 16, entre católicos e protestantes). E Gordes e Roussillon, os dois vilarejos medievais e únicos que vamos conhecer hoje, dois “empoleirados” com identidades — e cores — bastante distintas (igualmente surpreendentes, no entanto), já eram habitados durante a época galo-romana (quando a Gália, atual França, foi ocupada pelos romanos no século 1 a.C.), e hoje fazem parte da lista dos Mais Belos Vilarejos da França (Les Plus Beaux Villages de France). E ficam a apenas uma hora de carro de Avignon, nossa cidade-base para a região. Vamos para a primeira parada do dia:

GORDES

gordes-provence-1200-1gordes-provence-1200-2 gordes-provence-1200-3A vista da chegada a Gordes pela Route de Cavaillon, que fica a apenas 38 quilômetros de distância de Avignon, é daquelas que fazem a gente parar o carro em algum canto e sair para contemplar a visão quase fantástica deste vilarejo que cresceu em volta de uma rocha e foi construído de rocha (dizem que são 600 toneladas de pedra por habitante). Mas como a estrada é estreita e não tem acostamento, tente parar o carro em uma das ruas transversais. E ao chegar neste que é o vilarejo mais famoso do Lubéron, todo em tons de areia, procure por um dos estacionamentos para deixar o carro (você vai pagar € 4, tarifa única). Não há muito o que fazer em Gordes, a não ser caminhar pelas ruas íngremes pavimentadas de pedra, chamadas de calades  (lembre-se: nada de saltos ou sapatos de solado de couro nos vilarejos da Provence!); apreciar a vista para o vale do Lubéron; e observar os muitos muros e casas construídos através da técnica “pedra seca” (pierre sèche, em francês), que é a sobreposição de pedras sem qualquer tipo de argamassa. O castelo, uma fortificação medieval, que tem duas imponentes torres circulares, só pode ser admirada por fora, já que do seu interior, você só pode visitar um salão com exposição de arte contemporânea, mas é interessante o passeio pelas caves  do Palais Saint-Firmin: a falta de espaço neste compacto vilarejo fazia com que artesãos cavassem ateliers  trogloditas, na própria rocha, para trabalharem à luz do óleo até o século 19. Muitas oficinas com vários andares subterrâneos funcionavam desta forma. O palácio de Saint-Firmin, depois de quarenta anos de descobertas e restauração, foi aberta para visitação pública em 1999 e abre só de abril a outubro, às segundas, fecha na terça, e abre depois de quarta a domingo, das 10h às 18h. Fica na rue du Belvédère. ONDE COMER Gordes, este vilarejo de apenas dois mil habitantes, possui um belíssimo hotel cinco estrelas, a Bastide de Gordes, que possui o Pèir, restaurante assinado pelo chef Pierre Gagnaire, com um macaron  Michelin e um terraço com uma das melhores vistas do vilarejo, onde também acontece o brunch  aos domingos. São mais dois restaurantes no hotel. O menu na hora do almoço sai por € 75. O hotel fica na rue de la Combe e o telefone é 33 (0) 4 / 9072-1212. Para acessar o site, clique aqui.

ABADIA NOTRE-DAME DE SÉNANQUE

abadia-notre-dame-de-senanque-lavanda-provence-1200-4 abadia-notre-dame-de-senanque-lavanda-provence-1200-2 abadia-notre-dame-de-senanque-lavanda-provence-1200-3 A dez minutos de Gordes está talvez o local mais fotografado da Provence, principalmente no verão, quando o campo de lavandas em frente a esta abadia fundada em 1148 está florido, fazendo com que esta construção típica da arquitetura cisterciense primitiva (dos monges desta ordem monástica católica que até hoje habitam o local) pareça flutuar sobre os delicados ramos de lavanda, cultivados pelos monges desde os fim dos anos 1960 e que atingem a floração máxima nas duas primeiras semanas de julho (a colheita acontece na terceira semana, quando os campos ficam vazios). Ah, como são os monges que colhem a lavanda para fabricar seus próprios óleos e perfumes, pede-se para não encostar nelas. Da estradinha, você já vai ver a abadia do alto, aí, basta descer seguindo as orientações do GPS, parar o carro no estacionamento gratuito para visitantes ir caminhando até os prédios (a igreja, o claustro, o dormitório) que podem ser visitados. Para acessar o site da Abbaye Notre-Dame de Sénanque, clique aqui. Hora de pegar o carro de novo, para a nossa última visita do dia.

ROUSSILLON

roussillon-provence-sentier-des-ochres-1200-2 roussillon-provence-sentier-des-ochres-1200-3 roussillon-provence-sentier-des-ochres-1200-7A 25 minutos de carro da Abadia de Notre-Dame de Sénanque, você chega a Roussillon, um vilarejo único (por que eu me apaixonei; é uma das coisas mais charmosas que eu já visitei na vida). Além do vilarejo típico empoleirado medieval, todas as casas de Roussillon são pintadas em tons de terra, com uma paleta ora mais para o alaranjado, ora mais para o avermelhado, por um motivo: aqui está o maior depósito de ocre do mundo, cujos cânions você pode visitar (e é um passeio lindo). Eu só conhecia o ocre como o nome da cor nas pinturas, mas esse pigmento precioso por ser super estável (imagina que ele é formado na natureza ao longo de 100 milhões de anos) é utilizado desde a pré-história, explorado em Roussillon desde a ocupação romana e só recentemente passou a sofrer a concorrência dos colorantes sintéticos. E por isso o passeio pelo Sentier des Ochres é imperdível: parece que aquelas montanhas de terra vão desabar a qualquer momento, mas o contraste dos 18 tons de ocre com o verde vivo das vegetação é lindo (suja toda a roupa, mas é lindo mesmo assim). E você pode caminhar por dentro de um bosque — com chão de areia (há 200 milhões de anos atrás a Provence era mar) — em total contato com a natureza. Quando chegar, não pare do primeiro estacionamento que vir (por que senão você vai ter de subir o morro a pé); suba pelas ruas minúsculas (vai dar um medinho, porque as ruas sao sinuosas e muito estreitas) e procure pelo estacionamento ao lado do cemitério (com suas lápides antigas e avermelhadas; sujas da areia vermelha), que já fica perto da entrada do Sentier. Mas, calma, os atrativos não acabaram, porque a visita ao topo de Roussillon é imperdível. Quando você encontrar a prefeitura (mairie, em francês), suba a rampa onde tem o restaurante La Treille e vire a primeira à direita, que é a Place du Four. Suba a Montée du Beffroi e vá até a rue de l’Église se perca por todas as outras ruazinhas da região. É o melhor de Roussillon, sem comércio cheio de toldos plásticos, bem residencial e com uma vista linda para o Lubéron.

Depois de um dia com algumas das paisagens mais lindas da Provence, hora de retornar à Avignon. :- )

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