Revoluções africanas em mostra de cinema em São Paulo

Cena de Women of the War, da diretora holandesa Ike Bertels, primeiro filme de uma trilogia em que a cineasta acompanha a vida de Mônica, Maria e Amélia, três guerrilheiras moçambicanas que lutaram por dez anos pela independência do pais.

Mais do que estar in loco  viajando pelo mundo e conhecendo as paisagens, ainda não existe forma mais profunda de se viajar que através da literatura e do cinema, seja pela ficção ou pela realidade. É quando entramos nas casas e nas cabeças dos habitantes, quando conhecemos sua(s) história(s), sua intimidade, seu modo de pensar e sentir. E é por isso que eu estou apaixonado pelo festival de cinema — de recorte único — que estreia nesta sexta, dia 11 de novembro, no Cine Caixa Belas Artes. Com o nome África(s). Cinema e Revolução, os 36 filmes que fazem parte da programação, de diretores europeus e africanos, trazem um panorama sobre o cinema produzido em ex-colônias portuguesas (que não possuíam nem TV local), principalmente Angola, Moçambique e Guiné-Bissau, durante as revoluções, a independência da metrópole (só conseguida depois de outra revolução, a dos Cravos, que acabaria com a ditadura em Portugal), os processos pós-descolonização e que trabalham também a memória do colonialismo português na África. Uma resistência que duraria quatrocentos anos cujas consequências podem ser sentidas até hoje.

NA PRÉ-ESTREIA, FILME QUE CRUZA A HISTÓRIA DE 3 CONTINENTES

africas-cinema-revolucao-festival-cine-caixa-belas-artes-1200-125, de 1975, foi filmado em Moçambique por Celso Luccas e Zé Celso Martinez Corrêa, que assumiram o projeto quando partiram em exílio para Portugal, depois do fechamento do Teatro Oficina pela ditadura brasileira. Com uma câmera 16 mm, chegaram dois dias antes do dia da independência de Moçambique, que aconteceu em 25 de junho de 1975 (interessantemente a Revolução dos Cravos também ocorreu num dia 25, mas de abril de 1974), e fizeram cenas que hoje são um documento histórico grandioso (quem narra o filme é o próprio presidente revolucionário, Samora Machel; mas dois anos após a independência, Moçambique entraria em guerra civil e grande parte do arquivo nacional seria perdido). O filme, exibido no Festival de Cannes em 1977, foi enviado clandestinamente da França para o Brasil para exibição na primeira Mostra Internacional de Cinema de São Paulo (!) e no Festival de Gramado e estrearia ainda sob a ditadura, gerando diversas manifestações durante as exibições, com direito a oficial da Censura Oficial desligando a chave geral do hotel em Gramado onde o filme era exibido (a sessão terminaria depois de muitos gritos, socos e pontapés). Em 1980, o filme ainda rodaria o Brasil todo, mas todo mesmo, do Rio Grande do Sul ao Amazonas, de forma ambulante, mambembe, levando a mensagem da revolução-libertação-descolonização  para os brasileiros, percorrendo mais de quarenta cidades.

africas-cinema-revolucao-festival-cine-caixa-belas-artes-956São muitos os filmes interessantes do festival (uma seleção bem eclética e vários que precisam de restauro), incluindo um cuja história é de um país em que todos os adultos foram mortos e são as crianças que assumem os postos públicos (A República dos Meninos, de 2012), e Vovós Guerrilheiras, também de 2012, o último filme de uma trilogia que começou em 1984 em que a diretora holandesa Ike Bertels acompanha o envelhecimento de três mulheres que combateram na guerra da independência moçambicana. A não perder. Na foto, imagem do filme Makwayela, de 1977, que mostra trabalhadores cantando e dançando no pátio de uma fábrica uma canção anti-imperialista. 

SERVIÇO
África(s). Cinema e Revolução
De 11 (sexta-feira) a 23 de novembro (quarta-feira) de 2016
No Cine Caixa Belas Artes
Rua da Consolação, 2423
Telefone: 55 11 / 3256-6411
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