Ter é cuidar; tenha menos e viva mais

Entendo cada vez menos pessoas que desejam comprar ou compram casas de praia ou de campo, fazendas, barcos, aviões, ou mesmo carros muito caros (até obras de arte). Entendo cada vez menos pessoas que precisam comprar roupas a cada coleção, redecorar a casa todos os anos. Ter é ter de cuidar, manter, se preocupar, se dedicar, ter carinho, limpar (já vi gente muito legal com celulares, computadores e cabos nojentinhos de sujo). Não importa se é um jardim, um cachorro, sapatos ou uma coleção de selos. Tem o tempo que envelhece, a umidade que apodrece, o ladrão que rouba, agride e invade. Cada material — da prata ao cashmere  passando pelo couro — exige cuidados diferentes. E dá trabalho até para se desfazer delas quando não as queremos mais, pois elas ficam, ali, ocupando espaço e tempo. Pra que comprar uma casa que você não vai ter tempo de usar — e vai te prender — com tantos hotéis e destinos incríveis? Barcos, carros, helicópteros, aviões podem ser alugados (já com staff  e catering) — e tem classe executiva, first class, A380, Singapore Airlines — sem precisar gastar fortunas com manutenção, impostos, salários, taxas, guarda, e, muito importante, sem precisar se estressar — essa é a pior parte — com a administração de problemas de funcionários: contratação, demissão, faltas, doenças, dia a dia. Em tempos em que os estilos são tantos — a reflexão para encontrar o seu é importante; esse é um tempo bem gasto — e as barreiras sociais desmoronam, quem fica reparando se você está na moda ou não? Quem fica reparando se você está com a mesma roupa da balada da semana passada? Sem falar no tempo que se gasta pesquisando, comprando, experimentando, trocando, encomendando… Pra mim, já basta ter de administrar-cuidar-bem — e estar sempre aprendendo como extrair o melhor de cada “ferramenta” — o celular, o iPad, as músicas no iTunes, o carro, os dois computadores, todos os softwares e aplicativos (SEMPRE com atualizações), meu emails, meus relacionamentos nas redes sociais e meu enxuto guarda-roupa. O resto do tempo (e do dinheiro)? Quero gastar lendo, viajando, praticando esportes, estudando, comendo, bebendo, experimentando, conversando e sendo generoso com as pessoas que amo, enquanto eu tiver saúde. E quer saber? E eu já acho MUITA coisa.

P.S. Eu sei que, no fim das contas, as pessoas com toda essa sede de consumo só estão querendo aprovação, só estão querendo ser percebidas e admiradas pelo mundo. Masss… as pessoas e os relacionamentos que realmente importam têm uma dinâmica bem diferente deste comportamento, não vão te amar mais ou menos por isso. Porque, se não for assim… Houston, we have a problem.

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shoichi.simonde@gmail.com