Lohengrin: A ópera de Wagner que nos deu a mais linda das marchas nupciais

Lohengrin chegando em Antuérpia num barco puxado por um cisne nas águas do Scheldt, em pintura de August von Heckel, que decora um dos salões do Castelo Neuschwanstein ("schwan" é cisne em alemão), do rei louco Ludwig II da Baviera, que era apaixonado pelas óperas de Wagner. Em Neuschwanstein há pinturas que retratam Lohengrin, Parsifal, Tristão e Isolda e Tannhäuser.

Lohengrin

Estreou na Ópera de Weimar, Alemanha, em 1850, conduzida por Franz Liszt; 207 minutos, sem intervalos

De Richard Wagner

E foi a ópera que trata do sentimento de insegurança nos relacionamentos amorosos — deve o amor pelo outro ser incondicional e a confiança, inabalável? — que nos deu uma das mais populares (e a mais linda e melódica) marchas nupciais, a Treulich Geführt, tocada em casamentos no Ocidente há mais de 150 anos (a outra, mais imponente, é a que Mendelssohn compôs para a peça Sonhos de Uma Noite de Verão;  e você conhece as duas). Apesar de o nome do protagonista, Lohengrin, ser também o nome da ópera (e aparecer nos letreiros de tradução do teatro durante o espetáculo), é preciso ter em mente que todos os personagens ali no palco só vão conhecer o nome do cavaleiro do cisne no terceiro ato, após mais de três horas e meia do início desta história que trata de justiça, confiança em Deus (e nos outros) e obrigação com o Santo Graal.

Nesta história musicada que deixará você completamente envolvido apesar da longa duração (com os intervalos são 4h30 de ópera, mas vá sem medo), Elsa, filha do Duque de Brabante, é acusada pelo Conde Friedrich von Telramund, de ter assassinado seu irmão mais novo, herdeiro do ducado, para que ela mesma se tornasse duquesa. Quando o rei da Saxônia chega para reunir as tropas para lutar contra os húngaros, ele vai precisar lidar com o desaparecimento do garoto. Por causa do suposto fratricídio, crime considerado gravíssimo, o espertinho Conde Friedrich pede para que o rei puna Elsa e transforme ele mesmo no novo duque de Bramante. #vaivendo

E é aí que surge uma interessante visão de justiça. Esqueça investigações e provas: o rei pede para que Elsa se defenda publicamente pois, uma vez que ela apenas lamenta o desaparecimento do irmão e o rei não consegue tomar uma decisão sobre a veracidade da acusação do Conde, é um combate que definirá a culpa ou inocência de cada um, já que Deus  fará do inocente o vencedor. E Friedrich aceita a ordália, essa prova jurídica resultado do juízo divino, uma tradição da lei germânica que existiu até praticamente o século 16 (consegue imaginar uma coisa dessas?).

Quando o rei pergunta a Elsa quem a defenderá no combate (ela precisa escolher um paladino), Elsa descreve um cavaleiro que conheceu nos sonhos. O arauto faz o chamado uma, duas vezes, mas ninguém aparece. Desesperada, Elsa roga a Deus. De repente, de forma mágica e milagrosa, um barco puxado por um cisne em cordões de ouro traz um cavaleiro, amável e grandioso, que aceita defender Elsa na ordália, desde que ela nunca pergunte seu nome, sua estirpe e de onde veio. O cavaleiro do cisne, graças à pureza de Elsa, derrota o Conde Friedrich, que é exilado com sua esposa, Ortrud. Elsa é inocentada, a população vibra e o casamento é marcado. Agora, o provável Duque de Brabante é Lohengrin.

Mas Ortrud convence Friedrich, que sofre pela perda de sua honra, a se vingar. Eles voltam para o reino para plantar a semente da dúvida tanto em Elsa, que prometeu nunca-nunca-nunca  perguntar o nome e as origens de seu futuro marido quanto nos nobres saxões (“como vocês deixarão um desconhecido se tornar herdeiro desta terra?). Eles não conseguirão com o povo, mas serão bem-sucedidos com Elsa, que é o principal motivo da permanência do cavaleiro no reino.

Oscilando entre a confiança inabalável (e o amor incondicional por aquele que a salvou da desgraça) e a dúvida — e a curiosidade — de uma mulher que quer saber mais sobre seu marido, Elsa começa, de forma delicada-mas-insistente, querer saber mais, prometendo que tudo o que ela vier a saber será um segredo dos dois. A insistência — e a insegurança crescente causada pela negativa do marido — chega à histeria quando ele lhe diz que vem de um lugar que é pura luz. Achando que o casamento não será o bastante para fazer com que ele não volte para sua terra iluminada, Elsa, finalmente, pergunta o nome, a estirpe e de onde veio, rompendo, assim, a promessa.

Diante de todos, o cavaleiro do cisne avisa o rei que não poderá mais liderar o exército na batalha que se aproxima. Elsa lhe fez as perguntas e ele, que é Lohengrin, filho de Parsifal e cavaleiro do Santo Graal, terá de partir. O cisne aparece para buscá-lo. Ortrud revela que a ave é Godofredo, o irmão de Elsa, vítima de um feitiço seu, que reaparece e torna-se o Duque de Brabante. Elsa, abandonada e hostilizada por todos por ter quebrado a promessa, morre. Fim.

lohengrin-grandeLohengrin chegando em Antuérpia num barco puxado por um cisne nas águas do Scheldt, em pintura de August von Heckel, que decora um dos salões do Castelo Neuschwanstein (“schwan” é cisne em alemão), do rei louco Ludwig II da Baviera, que era apaixonado pelas óperas de Wagner. Em Neuschwanstein há pinturas que retratam Lohengrin, Parsifal, Tristão e Isolda e Tannhäuser. Imagem: Reprodução internet

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