Os dias em Trancoso são basicamente tomar um belo café da manhã no hotel, passar o dia em uma barraca na praia ou explorando as praias e a natureza da região, e terminar o dia no Quadrado. E tem de ser assim: tirando o Rabanete, um buffet self-service; a Lua Verde, uma casa de saladas montadas na hora; e o Tao Chá, restaurante plant-based (que está entre os nossos favoritos, veja a lista abaixo), a grande maioria dos lugares do Quadrado e da parte alta da cidade só abre depois das 16h. Por isso, a lista dos melhores restaurantes de Trancoso a seguir é para o pós-praia, fim de tarde e jantar. 

É em volta do grande gramado sem iluminação pública que é um dos lugares mais charmosos do mundo onde tudo acontece (mesmo com as poças de água que se formam quando chove). E, apesar de os restaurantes possuírem poucas mesas dentro das casas pequenas e centenárias que ocupam, é ao ar livre onde se janta, sobre a terra – em mesas e cadeiras nem sempre confortáveis – e debaixo de árvores frondosas com luminárias penduradas. Alguns desses bares e restaurantes são tão grudados uns nos outros que as mesas se confundem, dificultando distinguir onde é o quê; ainda mais em uma primeira viagem.

A única recomendação para jantar – não só em Trancoso, mas em toda a costa sul da Bahia – é tomar aquele banho de repelente de insetos, assim que a luz do dia baixar e logo depois do banho pré-jantar. Os restaurantes geralmente têm repelente à disposição dos clientes, basta pedir, mas é sempre bom ter o seu na bolsa para dar aquela retocada, já que é impossível aproveitar plenamente uma refeição sendo comido pelos mosquitos.

Outra dica importante é não viajar para a Bahia esperando aquela rapidez no serviço que a gente encontra nas grandes cidades, assim como não dá para esperar a simpatia e a autenticidade dos baianos no sul do Brasil. A Bahia tem um tempo e uma cultura de hospitalidade próprias. Não entender isso é viajar para se estressar, porque nem na baixa temporada, quando os restaurantes estão vazios, o ritmo vai ser o da cidade grande. E na alta, é imprescindível fazer reservas com antecedência. E viver o tempo da Bahia. 

QUANDO O TURISMO CRIA DEMANDA PARA UMA ALIMENTAÇÃO SEM VENENOS

A gente sempre tende a achar que, ao viajar para destinos de natureza, distantes dos grandes centros urbanos, vai comer melhor por ter acesso a cereais, hortaliças e frutas sem agrotóxicos, produzidos por pequenos agricultores. Um engano. Porque a realidade pode ser pior: por falta de educação e informação, esses pequenos agricultores usam agrotóxicos de forma indiscriminada e não só colocam em risco suas próprias saúdes – a grande maioria das vezes, não têm os equipamentos de segurança necessários para aplicar os venenos –, a de suas famílias, a das comunidades locais e as nossas, como também as paisagens que são um dos motivos pelos quais viajamos.

Trancoso era assim até há alguns anos. Ouvi dizer uma vez que um produtor vendia sua produção como “orgânica” porque usava a metade da quantidade de agrotóxicos sugerida pelo fabricante; por pura ignorância (… e como culpá-lo?) Mas, em grande parte por conta de iniciativas vindas do turismo, como o Organic.Festival, idealizado desde 2018 pelo hotel Uxua com o apoio do hotel Capim Santo – que educam, promovem o diálogo, mas, principalmente, estimulam os produtores ao criar demanda comprando sua produção –, hoje conseguimos não só comer bem em Trancoso como também comer de forma verdadeiramente saudável, no sentido mais amplo do termo

Diante da dificuldade de abastecimento, ambos os hotéis estão investindo na criação de suas próprias lavouras na região de Sapirara, ao mesmo tempo que trazem especialistas para não só desenvolverem seus projetos como educar pequenos produtores interessados. Em novembro de 2021, fui visitar o começo de uma agrofloresta capitaneada pelo Marcel Leite, segunda geração de proprietários do hotel e restaurante Capim Santo. Também fui à nova fazenda à beira-mar do Uxua na praia de Itapororoca, o Uxua Maré, onde a mata nativa local está sendo estudada, e plantas e frutas que nascem de forma espontânea viram ingredientes da cozinha e do spa do hotel. Ou seja, o resultado a gente vive ao se hospedar e jantar nesses empreendimentos responsáveis. 

TAO CHÁ: 100% VEGETARIANO-QUASE-VEGANO, BONS CHÁS E CAFÉS A 600 METROS DO QUADRADO

Fora do circuito turístico, o Tao Chá é hoje minha opção preferida para late brunch, almoço, late lunch, jantar; ou seja, a qualquer hora, qualquer dia, com exceção das quartas-feiras, quando eles fecham. Com um cardápio enxuto e variado, vegetariano-quase-100%-vegano, são vários os destaques do Tao, a começar pela casa simpática, com mesinhas e sofás em uma rua tranquila e residencial a 600 metros do Quadrado. No quesito bebidas, amo a carta com vinhos naturais da Vivente (incluindo os Pét-Nat, os leves pétillants naturels, feitos com um método ancestral de fermentação, que resultam em vinhos com menos gás e menos álcool que os espumantes tradicionais); os kombucha e a seleção de chás e infusões, servidas quentes ou geladas, que vão do oolong ao rooibos, passando por blends e infusões da casa (como o de capim limão, gengibre, casca de frutas e hortelã); e o café coado com grãos orgânicos de pequenos produtores e/ou o espresso Illy. Entre as comidas, os pratos viajam o mundo: do ceviche de banana da terra de influência peruana ao curry vermelho tailandês, só não deixe de comer a cumbuca Nordestina: um delicioso baião de dois com feijão de corda, bolinho de aipim, palha de couve, farofa de milho com banana-da-terra e molho lambão com azeite defumado. É comfort food (sustentável e sem crueldade animal) na veia. E nas sobremesas, tudo vegano e sem glúten, para comer com ainda mais prazer. Calcule R$ 200 por pessoa, com entrada, prato, sobremesa, chá, café e serviço. Tao Chá: Rua Jovelino Rodrigues Vieira, 59, telefone 73 / 99826-0837. De quinta a terça-feira, das 12h às 22h; fecha nas quartas.  

UXUA: COZINHA CRIATIVA E REPLETA DE NUTRIENTES NO HOTEL MAIS INCRÍVEL DE TRANCOSO

Se em todo o litoral baiano os cardápios chegam a ser entediantes, sempre com as mesmas opções – aqui não tem como não aprender os que são camarões VM e VG, além dos peixes grelhados, moquecas, bobós, acarajés & companhia – o Uxua vem para desafiar nosso paladar com combinações de ingredientes e sabores nada óbvias; e repletas de nutrientes. Seja nas saladas, nos pratos principais e nos sucos espetaculares que mudam diariamente no café da manhã para os hóspedes elaborados por um médico nutrólogo residente. Assim como a barraca de praia – a melhor de Trancoso, pela localização, pelo décor, pelo cardápio, pelo serviço –, com áreas para hóspedes (de um lado) e não-hóspedes (de outro), na hotel, hóspedes podem almoçar e jantar no pavilhão à beira da piscina cinematográfica em meio ao jardim, e não-hóspedes jantam no Quadrado, nas mesmas cadeiras de ferro fundido, mas sobre o chão batido e sob a sombra das árvores. Entre os pratos, não perca o Pau Brasil, feito com pupunha orgânica, urucum, molho de castanha de caju, farofa com carvão ativado, couve flor tostadinho e ervas; a salada de abóbora com melaço, espinafre, creme de castanha de caju, semente de abóbora, pickles e palmito pupunha orgânico (foto acima); e a torta de cacau crocante sem glúten e sorvete de caramelo salgado vegano. Sou sempre feliz comendo no Uxua. Calcule R$ 300 por pessoa, com entrada, prato, sobremesa, água, café e serviço. Uxua: no Quadrado, ao lado da Silvana & Cia, abre todos os dias, das 13h às 22h. Telefone: 73 / 99950-6440

SILVANA & CIA: NENHUMA OUTRA MOQUECA NA BAHIA TERÁ ESSE CENÁRIO

A Silvana & Cia. é o único restaurante imperdível da sua viagem para Trancoso. Há quarenta anos no Quadrado, nascida na casinha vizinha quando Trancoso se resumia a essa praça retangular, nem preciso dizer que a Silvana – descendente de Pataxó e irmã da Vitória, que também tem um restaurante a poucos passos daqui – é uma instituição de Trancoso. Em termos de moqueca, ela e a Casa de Tereza em Salvador são meus endereços favoritos na vida. Mas o que completa a experiência aqui é o cenário, apesar do serviço simples: comer ao ar livre, embaixo de uma frondosa amendoeira no Quadrado, vendo a igrejinha de São João Batista. Essa combinação de fatores, junto com a própria Silvana e seus filhos que ajudam na administração do restaurante, fazem com que não exista algo  mais genuinamente trancosense. Apesar dos pratos que foram sendo incorporados ao cardápio ao longo do tempo, eu simplesmente não consigo comer outra coisa a não ser moqueca. E é ela mesma que faz diariamente a base do prato, que leva azeite de dendê, leite de coco, muita cebola, alho, tomate e biri-biri, essa frutinha ácida típica da região – mas sem coentro e pimentão! –, que depois é acrescida de peixe, peixe e camarão, lagosta ou pupunha com banana-da-terra (a versão vegetariana, mas não menos deliciosa) ao gosto do cliente. Cada moqueca serve duas pessoas, mas pode ser pedida em porção individual, quando é cobrado 60% do valor do prato. Sempre servida com arroz, pirão, farofa e pimenta – essa combinação dos deuses — só não se esqueça de colocar bastante molho sobre o arroz, misturar com a farofa e o pirão, dar aquela turbinada no prato com a pimenta da casa e ser muito feliz. Nunca consegui pedir sobremesa na Silvana, porque aqui a gente só para de comer quando raspou as panelas, mas não quando a fome passou. Calcule R$ 250 por pessoa, com entrada e moqueca para dividir, água e serviço. Silvana & Cia: No Quadrado, abre de segunda a sábado, das 13h às 22h. Fecha aos domingos (mas às vezes abre, não custa ligar para confirmar). Desde 1982. Telefone: 73 / 98108-7928

PIZZARIA SÃO JOÃO BATISTA: AMBIENTE SIMPLES MAS PIZZA IMPECÁVEL

Quando se passa uma temporada no sul da Bahia, é comum que paulistanos acostumados com boas pizzas – ou seja, feitas com massas de fermentação natural e longa – sofram de abstinência. Mas se o Maritaca é daqueles restaurantes para ver-e-ser-visto com uma pizza caríssima pelo que entrega – com aquele discurso que os próprios paulistanos inventaram de “massa fininha” que não faz mais o menor sentido, ainda mais quando os ingredientes que vêm sobre ela não têm qualidade –, a São João Batista é o único endereço possível de pizza em Trancoso (mas eles também servem salgados e lanches). Aberto em 2015, o lugar é bem simples, com mesas e bancos, mas o que importa para nós aqui são os pães e a massa para pizza de fermentação natural e maturada que o chef paulista Paulo Sitolini Neto produz em sua própria cozinha usando um blend de farinhas nacionais e italianas orgânicas moídas em pedra. Tem coisas que fogem daquilo que a gente acredita como gastronomia, como hot dog, pizza de frango com catupiry, aquele creme industrializado de avelã que é mais óleo de palma e açúcar na única opção de sobremesa… Mas a gente vem aqui pela pizza clássica de margherita, feita com a muçarela das búfalas da região, molho de tomate feito na casa e gordas folhas de manjericão, e pela pizza de abobrinha grelhada, servida com muçarela de búfala, pesto de abobrinha e parmesão. (Caso você vá também para Caraíva, o endereço para as pizzas com qualidade é O Forno.) Calcule R$ 150 por uma pizza de abobrinha mais água mais serviço. São João Batista: Rua Bom Jesus, sem número, entre o Le Marché e o Lá no Dom, pertinho do Quadrado. De quarta a domingo, das 18h às 22h; fecha na segunda e na terça. Telefone: 73 / 98222-9090

CAPIM SANTO

Com mesas espalhadas por vários ambientes em meio ao jardim exuberante deste restaurante e pousada que são um charme só, a história do Capim Santo – e da Silvana e d’O Cacau – se confunde com a história de Trancoso (e, aqui, eu amo jantar descalço para pisar no chão de cimento queimado). Aberto em 1985 em um beco discreto na entrada do Quadrado, o restaurante tem um menu vasto com muitas opções de saladas, peixes, frangos, carnes, massas e opções vegetarianas/veganas; pratos bem executados e bem servidos, mas que nem sempre encantam. Com algumas combinações datadas e um geral sem muita identidade – talvez para oferecer o máximo de opções para os hóspedes –, o Capim Santo seria bem mais interessante se tivesse um cardápio mais enxuto, mais bem resolvido, entregando só o que se faz de melhor, com uma atenção cada vez maior para a qualidade e a procedência dos ingredientes. O que me faz voltar ao Capim Santo é saber que essa é exatamente uma das preocupações da nova geração à frente da administração, representada por Marcel Leite, filho dos fundadores Fernando Leite e Sandra Marques, que nasceu e cresceu em Trancoso, e é um entusiasta da permacultura, um sistema que segue princípios ecológicos na agricultura e na arquitetura, com o objetivo de criar comunidades humanas sustentáveis. Na temporada, é o único restaurante da nossa lista que trabalha com dois horários fixos de serviço, com reservas para jantar às 19h ou às 22h (para o segundo serviço, só é preciso se atentar para o fato de que a cozinha encerra os pedidos às 23h). Só não deixe de comer de sobremesa a trilogia de capim santo, formada por panna cotta, brigadeiro e sorvete desta planta medicinal originária da Índia que se adaptou bem em terras brasileiras e que dá nome à pousada e restaurante. É uma delícia. Calcule R$ 300 por pessoa, com entrada, prato, sobremesa, água, café e serviço. Capim Santo: Rua do Beco, 55. De segunda a sábado, das 19h às 23h. Fecha aos domingos. Telefone: 73 / 3668-2700 e Whatsapp 73 / 9990-5817.     

FASANO TRANCOSO: UM CLÁSSICO – E EXCELENTE – ITALIANO (RARIDADE POR AQUI)

Comida italiana pode ser básica, confortável, mas ela exige ingredientes de qualidade e técnica para conseguir as texturas ideais de uma massa, de um risotto, de uma sobremesa típica. Aqui no sul da Bahia, mesmo em restaurantes cujos proprietários são italianos, não raro a gente se decepciona com massas cozidas demais, risotti sem cremosidade, “tiramisù” sem mascarpone e que chega à mesa congelado (e incomível). Mas isso não é mais um problema com a abertura do hotel Fasano Trancoso. {Leia a crítica completa da minha hospedagem no hotel, clicando aqui.} Com restaurante aberto para não-hóspedes mediante reserva, espere por um ambiente amplo e contemporâneo, com bar, lounges e vistas para o deque, a enorme piscina do hotel e a praia, e pratos clássicos como o ravioli de mozzarella de búfala com molho de tomate e manjericão, e muitas receitas que levam peixes e frutos do mar, como o linguini com lambreta e camarão, o gnocchi com lulas douradas e tomate, o robalo com caponata e chardonnay. Além dos pratos italianos, uma Seleção Baiana completa o cardápio com moquecas – de peixe, de camarão ou mista – e bobó de camarão, para uma ou duas pessoas, sempre acompanhados de arroz, farofa e pirão. Para finalizar a refeição, tem a excelente cocada com sorvete de rapadura, cachaça e especiarias, mas poder comer o tiramisù do Fasanão de São Paulo (montado à la minute e um dos meus preferidos no mundo), aqui, à beira-mar, é das coisas que nos fazem voltar ao Fasano Trancoso. Calcule R$ 420 por pessoa, com couvert, entrada, prato, sobremesa, água e café, mais taxa de serviço de 15%. Fasano Trancoso: Na praia de Itapororoca, na estradinha de Itaquena. Abre todos os dias para almoço e jantar, sendo o almoço das 13h às 17h, com reserva até às 14h, e jantar das 19h à meia-noite, com reserva até às 20h30. Telefone: 73 / 3018-2929

O CACAU: SEM MESAS AO AR LIVRE, SEM CHEF E SÓ COM COZINHEIRAS NATIVAS DE LONGA DATA

Escondidinho ao lado da histórica igreja de São João Batista, O Cacau é o único restaurante que não tem mesas ao ar livre no Quadrado. Mas nem precisa. Em um salão amplo e sem paredes, instalado em um terreno mais amplo ainda e rodeado por uma rica vegetação, O Cacau, junto com o Capim Santo e a Silvana & Cia. formam a tríade de instituições trancosenses, fundado por pessoas que estão no vilarejo há, no mínimo, 40 anos. De uma época quando a única maneira de chegar a Trancoso era a pé ou de barco (assim como é ir à praia do Satu hoje). Sem chef e apenas com cozinheiras nativas, o cardápio d’O Cacau foi sendo construído ao longo do tempo, com influências pretas e indígenas, e não dá para não comer aqui os minicarajés da Dora, nome da proprietária do restaurante (fala-se “Dôra”), acompanhados de um molho de camarões secos descascados, vatapá e vinagrete, e o carpaccio de polvo; e pratos como o stroganoff de lagosta ou o Camarão Nativo, servido com molho de coco verde e pimenta-rosa (aqui, aroeira), lascas de coco torrado e arroz cozido na folha de bananeira. De sobremesa, vá pela cocada de forno (que mais parece um bolinho), servido quente com sorvete de creme. Os pratos são bem servidos (se pedir miniacarajé de entrada, divida entre duas pessoas), o menu poderia ser mais enxuto para focar nas receitas mais emblemáticas e na execução, mas vale a visita. Calcule R$ 270 por pessoa, com entrada, prato, sobremesa, água, café e taxa de serviço de 10%. O Cacau: No fim do Quadrado, perto da igreja. Abre todos os dias, das 14 às 23h. Telefone: 73 / 3668-1266. 

Matéria originalmente postada em setembro de 2014 e atualizada em março de 2022.

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