Atacama: No deserto mais seco e antigo do mundo, o acesso a algumas das paisagens mais inacreditáveis do mundo se dá através de lindos hotéis
O que hoje parece lua já foi fundo de lago: milhões de anos de vento e de raras chuvas esculpiram as cristas e dunas do Valle de la Luna, nome dado pelo padre belga Gustavo Le Paige, que viu nestas formas de sal, gesso e argila a superfície de outro mundo. Imagem: Shoichi Iwashita
O mais seco do mundo, o deserto do Atacama é tão absurdamente árido que faz o Saara parecer a úmida Amazônia. Enquanto o deserto do norte da África — o terceiro maior do planeta — registra médias anuais de 25 milímetros de chuva em grande parte de sua extensão (São Paulo tem 1.660 mm), o Atacama recebe míseros 0,7 mm por ano, com áreas onde a água é apenas uma abstração, sem qualquer registro de chuva nos últimos 15 milhões de anos. Nesta matemática do deserto, seria necessário cerca de um século para encher de água uma simples xícara de chá.
Além da ausência de vida — e da necessidade de hidratação profunda durante a viagem, porque basta respirar para estar desidratando —, a falta quase total de umidade no ar tem duas consequências fascinantes. A primeira delas está no céu. As partículas de água suspensas no ar interferem na qualidade das imagens espaciais captadas por grandes telescópios. Foi isso que transformou o Atacama, esse deserto no extremo norte do Chile, em um dos lugares mais importantes do planeta para a astronomia, concentrando mais de 30 observatórios científicos — entre eles o Alma, um dos projetos astronômicos mais ambiciosos já construídos pela humanidade, responsável por imagens que ajudaram a mudar a compreensão do homem sobre o universo.
A segunda consequência está na própria terra. Sem umidade suficiente para a proliferação de fungos e bactérias responsáveis pela decomposição, as matérias simplesmente não apodrecem. No pequeno museu arqueológico de San Pedro do Atacama, que leva o nome do padre belga Gustavo Le Paige, é incrível ver tecidos, sandálias e gorros de lã produzidos entre os séculos 6 e 14 perfeitamente preservados, sem necessidade de refrigeração.
Aí, surge uma pergunta inevitável: como um deserto tão próximo do mar, a 150 quilômetros do Oceano Pacífico, pode ser tão seco assim? A questão é que a região mais árida do deserto do Atacama está entre três cadeias montanhosas — as cordilheiras da Costa do Chile e a Domeyko de um lado e a cordilheira dos Andes, do outro — com altura suficiente para bloquear a entrada de qualquer umidade proveniente tanto do Pacífico quanto do Atlântico.
—
Quer contar com a expertise Simonde para planejar a sua viagem? Nós temos uma parceria com a mais exclusiva agência de turismo de luxo do país. Enquanto ela nos oferece a estrutura necessária para o trabalho, eu assumo o planejamento e a curadoria de experiências da sua viagem, usando meu repertório e contatos para que você colecione lindas memórias. Para isso, basta me mandar uma mensagem direct pelo Instagram no @iwashitashoichi, clicando aqui.
ATACAMA: NÃO SÓ O MAIS SECO, MAS TAMBÉM O DESERTO MAIS ANTIGO DO MUNDO

No mirador para contemplar a belíssima laguna Tuyajto, na Ruta 23, depois ainda das lagunas altiplanicas. A lagoa de águas salgadas e rasas e tons de azul leitoso está a 4.010 metros acima do nível de mar e é dos passeios que a gente deixa para fazer quando já está aclimatado para altas altitudes. Imagem: Shoichi Iwashita

Nascer do sol nos gêiseres del Tatio, a 4.300 metros de altitude: é o frio abaixo de zero da madrugada que torna as colunas de vapor tão densas, antes que o calor do dia as dissipe. El Tatio é o maior campo de gêiseres do hemisfério sul e o terceiro maior do mundo, com cerca de 80 gêiseres ativos. Imagem: Shoichi Iwashita

A piscina do hotel Tierra Atacama, emoldurada por capim-dos-pampas, com vista para o Licancabur, um vulcão adormecido cuja cratera abriga um dos lagos mais altos do mundo, a a 5.916 metros de altitude. Imagem: Shoichi Iwashita
Em um mundo de transformações rápidas e permanentes, o Atacama nos leva para outra dimensão, outra escala de tempo. Toda vez que volto a esse deserto que já foi o leito do oceano (por isso a enorme presença de sal e também de lítio, esse mineral essencial para a tecnologia contemporânea), acho fascinante pensar que estou atravessando paisagens que já existiam quando o Himalaia ainda nem havia se formado ou quando os dinossauros — extintos há 65 milhões de anos — ainda caminhavam pela Terra. Com mais de 150 milhões de anos, o Atacama é considerado o deserto mais antigo do mundo.
Ou seja, não só o Atacama existe “desde sempre” como deve seguir existindo quando qualquer memória da existência humana já tiver apagado. A escala das paisagens e do tempo é tão brutalmente desproporcional à duração da vida humana que estar aqui sempre me faz reorganizar as urgências da minha-pequena-vida. Essa sensação de pequenez seja talvez o que torne a experiência no Atacama tão poderosa.
O deserto mais antigo do mundo também tem algumas das mais belas estradas. Se amo viajar de carro pela Califórnia, pela Provence, pela Toscana ou pela Suíça, poucas estradas rivalizam com as belezas naturais da ruta 23 CH. Ainda mais porque, nas altas altitudes, é possível se deparar com grupos de vicunhas, esse elegante, gracioso camelídeo selvagem — e a coisa mais fofa — e não domesticável que dá a lã legalizada mais cara do mundo.
O CÉU ESTRELADO MAIS INACREDITÁVEL DO MUNDO (MAS NA LUA NOVA)
Tirando a vista que temos geralmente do avião, não consigo pensar em outro lugar, em terra, onde se consegue enxergar tão longe o horizonte, e de forma tão gigantesca. Só não cometa o erro de visitar o Atacama durante a lua cheia. Se a visita a um observatório pode ser interessante para quem quiser uma introdução ao céu — foi aqui que aprendi que existem duzentos bilhões de galáxias e que um ano galáctico dura entre 225 e 250 milhões de anos, ou seja, o Sistema Solar ainda não completou 20 voltas ao redor da Via Láctea —, basta deitar olhando para o céu à noite para se deslumbrar com um oceano de estrelas extremamente visíveis; uma experiência quase transcendental. Por isso, é recomendável visitar o Atacama durante a lua nova, quando o céu está mais escuro. Qualquer luminosidade da lua ofusca o brilho das estrelas.
A ALTITUDE: DO NÍVEL DO MAR A 7.000 METROS DE ALTITUDE EM 100 QUILÔMETROS

No Salar de Atacama, o maior do Chile, o rosa dos flamingos de três espécies — andino, o chileno e o de James — vem do que eles comem: as microalgas e os pequenos crustáceos das águas salgadas, ricos em carotenoides. Imagem: Shoichi Iwashita
Se, em Courchevel, a gente acaba se familiarizando com as altitudes porque cada vilarejo leva essa informação no nome, viajar para o Atacama é inevitavelmente falar de altitude o tempo inteiro. Do nível do mar no Pacífico aos 7.000 metros no pico dos Andes, a paisagem se transforma completamente em pouco mais de 100 quilômetros.
E as plantas funcionam como altímetros vivos: cada espécie cresce em sua própria faixa, como andares de um edifício natural. Nos pontos mais elevados, o amarelo da paja brava domina a paisagem; mais abaixo, são os cactos solitários que assumem o protagonismo.
A altitude aqui, mais do que uma curiosidade geográfica, também é protocolo de segurança. Passeios acima dos 4.000 metros — como as lagoas altiplânicas, o salar de Tara e os gêiseres de Tatio — devem ficar para o final da viagem porque o corpo precisa se adaptar à altitude gradativamente. Porque o organismo pode responder de maneiras imprevisíveis. Nunca fiz tanto xixi na vida quanto subindo para as lagunas altiplânicas. Teve uma vez que meu ouvido doeu de uma maneira (e não era a primeira vez que eu estava em lugares de alta altitude) que parecia que tinha uma faca finíssima perfurando o meu ouvido e o meu cérebro. Por tudo isso, aclimatar o corpo — e tomar chá de coca ao acordar (peça sempre para o hotel) — é essencial para, pelo menos, amenizar os desconfortos.
SAN PEDRO DE ATACAMA: O VILAREJO-OÁSIS NO MEIO DO DESERTO COM HOTÉIS DE SONHO ONDE DANÇAR É PROIBIDO

De terra batida e fachadas de adobe, a Calle Caracoles é o coração de San Pedro de Atacama, a 2.400 metros de altitude. A calle é o “Quadrado” do Atacama, onde estão os cafés, as lojas, os restaurantes. Seu nome vem da antiga mina de prata de Caracoles, para onde a rua um dia conduziu. Imagem: Shoichi Iwashita

Na Plaza de Armas (a poucos passos da Caracoles), a Igreja de San Pedro de Atacama tem origem no século 17 e é uma das mais antigas do Chile. Além das paredes de adobe, o que mais chama a atenção em sua construção é o teto feito com a madeira do cardón, um cacto da região, amarrada com tiras de couro de lhama, sem um único prego. Imagem: Shoichi Iwashita

No palco do El Diablillo, charangos, violões e sopros andinos (eu amo muito). Entre os músicos estava um dos guias dos nossos passeios, porque em San Pedro quem mostra o deserto de dia toca à noite. Imagem: Shoichi Iwashita
Com ruas de terra, pequenas plantações, construções baixas de adobe — mistura ancestral de terra, água e palha — e rígidas normas urbanísticas que preservam as construções centenárias, sua identidade vernacular e a estética do deserto (sem deixar que o destino se transforme em uma caricatura de si mesmo), San Pedro de Atacama é puro charme rústico. Cafés, restaurantes e lojinhas se alinham ao longo da Calle Caracoles, a artéria principal do vilarejo — mas com apenas 10 quarteirões. E é no próprio vilarejo de San Pedro onde estão os hotéis mais incríveis da região, que possibilitam — e servem de base perfeita — para a exploração dessas que são umas das paisagens mais inóspitas do planeta; com todo o conforto e segurança, e excelente gastronomia.
Atravessado pelo pequeno rio San Pedro e a 2.450 metros de altitude, o vilarejo é um fragmento fértil escondido dos Andes no meio do deserto mais seco do planeta. Alimentado pelo degelo andino, o rio raso atravessa a região há milênios e foi ele que permitiu que os povos posteriormente chamados de atacamenhos — que tiveram fortes influências Tiwanaku e até Inca — se estabelecessem na região. Com uma história arqueológica que remonta a mais de 10.000 anos, com grande desenvolvimento entre os anos 100 e 500 d.C. —, a região de San Pedro de Atacama, que inclui os “ayllus“, as comunidades familiares, é reconhecida como capital arqueológica do Chile.
Mas tem um detalhe curioso: dançar é, por lei, proibido em San Pedro. Para conter a transformação do vilarejo em um destino de turismo descontrolado de festas, a música alta e o ato de dançar foram proibidos nos anos 1980 para preservar o ritmo da vida local. Aí, quando tem apresentações de bandas atacamenhas em algum bar, os locais se animam a dançar (com passinhos muito lindos de ver) e aparece a fiscalização, o vocalista grita o código “¡agua!” para que todos voltem a se sentar. É uma espécie de coreografia involuntária entre tradição, resistência cultural e as regras improváveis desse que é um dos lugares mais fascinantes do mundo.
OS INGREDIENTES LOCAIS
Assim que chego ao Atacama, minha primeira vontade é comer sorvete de chañar, uma pequena árvore nativa das regiões áridas do norte do Chile que dá essa frutinha (que parece uma castanha) super doce, que lembra um melado de cana. Tanto o chañar quanto o algarrobo — outra fruta doce nativa do deserto chileno, primo distante da alfarroba mediterrânea, que lembra sabor de chocolate — são usadas para a produção de farinhas muito nutritivas e pouco calóricas, de aloja, uma bebida alcoólica fermentada; o arrope, um xarope escuro, espesso e extremamente doce; e também viram deliciosos sorvetes. A escassez de água moldou uma culinária resistente de aproveitamento integral dessas plantas com capacidade impressionante de sobreviver em ambientes extremamente áridos.
Outros alimentos-chave na alimentação atacamenha são as dezenas de espécies de milho e a quinoa, esse cereal cultivado há milhares de anos nas altitudes andinas, com alto valor nutricional e teor de proteína. E ainda temos o pingo-pingo, frutos doces que são conhecidos como o “viagra atacamenho” e a rica-rica, uma erva local com sabor que lembra a menta, usada para infusionar licores e pisco, além de usada em receitas de pratos e sobremesas. E é lindo entender como as comunidades atacamenhas e likan antai aprenderam, ao longo dos séculos, a aproveitar ao máximo a água escassa nos poucos terrenos cultiváveis do deserto para conseguir sobreviver.

LEIA MAIS:
— Tudo o que você precisa saber para planejar a sua viagem de luxo para o deserto do Atacama, no Chile